Entendendo os personagens de a pequena sereia
A versão mais conhecida da Disney adapta o conto original de Hans Christian Andersen de formas que mudam completamente a leitura dos personagens. Ariel, Ursula, Eric, Flounder e Sebastian existem em duas camadas distintas: o folheto e o filme. Confundir as duas fontes é o erro mais comum que vejo em discussões sobre o tema. O Ariel do livro é bem diferente. Ela não tem voz depois de fazer o trato com a bruxa do mar, e o final é tragicamente ambíguo — ela se dissolve em espuma. A Disney transformou tudo num musical de happy end nos anos 90. Isso não torna uma versão melhor ou pior, só significa que você precisa saber qual está analisando.
a pequena sereia personagens e suas nuances
Aqui vai o que as pessoas normalmente não entendem sobre essa adaptação. Ursula, por exemplo, não é uma vilã criada do zero pela Disney. Ela tem raízes no conto original, onde a antagonista é uma velha bruxa que morava no fundo do mar. A diferença é que a versão Disney dá a ela um visual camp, uma personalidade teatral e piadas afiadas que a tornam muito mais memorável do que a simples feiticeira sombria do conto. Ursula foi dublada por Pat Carroll, uma atriz de teatro e cinema com décadas de experiência. O desempenho dela é quase um showstand solo — cada linha é entregue com timing cômico preciso. Se você olhar os storyboard originals do filme, nota que Ursula era originalmente pensada como mais sutil e intimidadora, mas o teste de.screen com Carroll fez os diretores redesenharem todo o conceito do personagem.
Eric também merece atenção. No conto de Andersen, o príncipe nem sequer sabe o nome da sereia que salvou. Ele casa com outra pessoa sem perceber que era ela. Na adaptação da Disney, ele ganha agência — vai em busca dela, descobre a verdade, confronta Ursula. Essa mudança reflete um gosto de audiência moderno, mas também esconde algo interessante: o filme original tinha uma cena cortada onde Eric realmente reconhece Ariel pela forma como ela se move, não pela voz. Flounder é outro personagem que muitos não percebem o papel funcional que tem. Ele existe como contraponto emocional para Ariel — é o amigo leal que representa a segurança, o mundo conhecido que ela está deixando para trás. Sem Flounder, a escolha de Ariel seria apenas rebeldia solitária. Com ele, ganha peso emocional. É um recurso narrativo básico, mas executado com eficiência.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Sebastian, o caranguejo regente, também é uma criação inteiramente nova para o filme. Andersen não tem equivalente direto. A função dele é duplamente necessária: alívio cômico e ponte cultural, já que a trilha sonora incorpora influências do caribenho e calipso, algo que Sebastian personifica visual e musicalmente. Um problema que encontrei na prática ao trabalhar com material de referência desses personagens é a inconsistência entre fontes. O design original de Ariel para o animation passou por pelo menos quatro versões antes de ser finalizado. Se você estiver coletando referências visuais para algum projeto, note que imagens do concept art inicial mostram Ariel com cabelos verdes e trajes mais próximos do desenho de Hans Christian Andersen, não com o visual rosa e vermelho que ficou canon.
A correção que eu uso é simples: cruzar sempre as fontes. O Disney Art Archive tem os storyboards originais, a Biblioteca do Congresso tem materiais relacionados ao conto de Andersen, e os livros da Disney Publications tem as versões oficiais de merchandising. Quando os três convergem, você tem algo confiável. Quando divergem, anota qual versão está usando. Outro detalhe que ninguém menciona é como a dublagem portuguesa de Portugal e do Brasil tratam os personagens de forma diferente. A versão brasileira mantém nomes como Ariel e Eric, enquanto a portuguesa às vezes adapta para Ariel e Erik. Sebastian vira Zazu em algumas traduções antigas, o que gera confusão em pesquisas.
O filme é de 1989, mas a franquia se expandiu de formas inesperadas. O spin-off com o Ursula como protagonista em "A Pequena Sereia: A Origem do Mal" (2023) mostra como o universo dos personagens continua sendo reinterpretado. O filme tenta justificar as ações da vilã dando a ela motivações políticas e históricas que o original nunca considerou. Não funciona perfeitamente — a terceira ato desanda — mas é interessante observar a tentativa. Se quiser acessar material de referência, os filmes estão disponíveis nas plataformas de streaming da Disney. Os livros ilustrados das edições especializadas da Disney Books têm comentários dos animadores em cada página, o que é material valioso para quem estuda a evolução dos personagens. A coleção completa custa em torno de 40 a 60 euros, dependendo da edição, mas os comentários dos artists valem o investimento se você está fazendo pesquisa séria.
O que mais vejo errado é gente tratando os personagens como se existissem apenas no vácuo cultural. Cada um carrega decisões de roteiristas, animadores e diretores ao longo de décadas. Ariel foi redesenhada várias vezes. Ursula mudou de vilã assustadora para vilã cômica e voltou. Eric perdeu e recuperou complexidade. Conhecer essa história de produção muda completamente como você lê qualquer coisa envolvendo esses personagens.