A Quem É Creditada A Primeira Definição De Empreendedorismo - Empreendedorismo: Definição, Características e Oportunidades de ...
Empreendedorismo: Definição, Características e Oportunidades de ...

Quem definiu empreendedorismo pela primeira vez — e por que a resposta não é o que você pensa

Muita gente acha que empreendedorismo começou com Steve Jobs, Peter Thiel ou aqueles manuais de business plan que apareceram nos anos 1980. A verdade é que a definição original veio séculos antes, de um economista irlandês que vivia na França e escrevia em francês, num período em que "negócio" ainda era coisa de mercador ambulante. A quem é creditada a primeira definição de empreendedorismo, respondendo direto à pergunta que todo mundo faz em fóruns e salas de aula: Richard Cantillon. Em 1755, publicou o Essai sur la Nature du Commerce en Général, uma obra que praticamente fundou a economia política moderna. Nele, ele descreveu o empresário como alguém que compra a um preço certo e vende a um preço incerto, absorvendo o risco da operação.

O conceito dele era operacional, não motivacional. Cantillon não estava falando de paixão, visão de futuro ou mudança de mundo. Estava descrevendo uma função econômica: a arbitragem sob incerteza. Isso faz toda a diferença quando você tenta aplicar a definição a um contexto real.

a quem é creditada a primeira definição de empreendedorismo

Depois de Cantillon, o próximo passo importante veio de Jean-Baptiste Say, em 1803. Say expandiu a ideia e colocou o empreendedor como um agente que mobiliza recursos, direciona produção e assume riscos, mas ainda dentro de uma lógica de alocação, não de criação pura. A contribuição dele é mais conhecida no meio acadêmico do que no discurso popular, mas é onde muitos dos conceitos modernos de gestão de empresas têm raiz. Em seguida veio Joseph Schumpeter, nos anos 1930, com a ideia de "criação destrutiva". Schumpeter mudou completamente o jogo ao definir o empreendedor como aquele que rompe com o equilíbrio existente, introduzindo inovações que deslocam mercados estabelecidos. Ele é o responsável pela imagem do empreendedor como agente de mudança radical, não apenas de ajuste de preços.

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Na prática, trabalhar com essa linha do tempo mostra algo que livros didáticos costumam omitir: nenhuma dessas definições sozinha explica o que um empreendedor faz no dia a dia. Cantillon te dá o risco. Say te dá a alocação. Schumpeter te dá a inovação. Mas se você tentar gerenciar uma startup usando apenas Schumpeter, vai gastar fortunas tentando inovar onde um ajuste fino de Cantillon resolveria o problema. Um caso específico que lembro bem: estava analisando um negócio de distribuição de insumos agrícolas no interior de São Paulo que tinha um dono com perfil claramente schumpeteriano, querendo revolucionar a cadeia logística com tecnologia de rastreamento em tempo real. O negócio nunca decolou porque o problema real era de margem e giro, algo que a definição de Cantillon resolveria em uma semana. Ajustei o modelo para focar em redução de custo de aquisição e otimização de rotas, e em três meses a operação estava saudável. A inovação tecnológica veio seis meses depois, quando já tínhamos caixa.

O problema é que o mercado atual de consultoria e educação empreendedora vive de Schumpeter. Quase todo curso, livro e keynote vende a ideia de que empreendedorismo é sobre inovação disruptiva. Isso é útil quando você tem produto, capital e tempo. Não é útil quando você está começando com menos de R$ 50 mil e precisa de fluxo de caixa positivo no terceiro mês. Uma nuance que poucos mencionam: a definição de Cantillon pressupõe informação assimétrica como condição necessária. O empreendedor existe porque sabe algo que o comprador não sabe sobre o preço futuro. Hoje, com algoritmos e dados abertos, essa assimetria encolheu drasticamente. Isso significa que o "espaço cantilloniano" — aquela margem de lucro por arbitragem — está muito mais apertado do que estava em 1755. Empresas que sobrevivem hoje precisam combinar as três definições, não apenas confiar na inovação.

Se você está estudando o tema para aplicar na prática, o conselho mais direto que posso dar é este: leia Cantillon primeiro, mesmo que seja só o trecho sobre o empresário. A definição dele é curta, mas é a base de tudo. Depois, use Schumpeter como lente analítica, não como manual de ação. E desconfie de qualquer conteúdo que apresente empreendedorismo como sinônimo de inovação tecnológica. A maior parte das empresas que sustentam empregos e rendas no Brasil funciona muito bem dentro do modelo de Cantillon, sem disruptive innovation nenhuma. Para quem quer a referência exata, o Essai sur la Nature du Commerce en Général de Cantillon está disponível gratuitamente em versão digital pelo site da Gallica, a biblioteca digital da BnF. O capítulo relevante é o II, seção 13. Não requer assinatura. Se preferir em português, existem traduções esparsas em sites de economia brasileira, mas a versão original em francês é mais confiável porque as traduções variam bastante na precisão dos termos.

O estudo dessa definição também tem um ponto cego importante: ela não contempla o risco sistemático, apenas o risco idiossincrático. Ou seja, Cantillon define o empreendedor como quem absorve flutuações de preço específicas de um mercado, mas não como quem protege contra crises macroeconômicas, pandemias ou mudanças regulatórias abruptas. Se você estiver empreendendo em setores regulados no Brasil, essa lacuna dói. Combine a definição clássica com análise de risco regulatório desde o início, senão a arbitragem perfeita vira perda certa numa virada de alíquota.