A Verdadeira História Do Gato De Botas - ADORO FILMES: A Verdadeira História Do Gato De Botas
ADORO FILMES: A Verdadeira História Do Gato De Botas

A origem que ninguém te conta

O Gato de Botas não nasceu como o conto infantil que conhecemos. O personagem apareceu pela primeira vez de forma substancial em Il Gatto con gli Stivali, publicado em 1634 pelo escritor italiano Giovanni Francesco Straparola nos contos de As Noites Pomposas. Na versão original, era muito mais cru e complexo do que qualquer adaptação da Disney jamais mostraria. Antes disso, há registros mais antigos de um gato astuto aparecendo em relatos orais na Sicília e na região da Calábria. O gato era um compagno de jornada, não um animal de estimação. O dono era um mero camponês sem recursos, e o gato se apresentava como nobre por pura manipulação linguística. Isso é algo que as pessoas costumam perder: o Gato de Botas original era um traidor disfarçado de aliado. Ele rouba a identidade do seu próprio mestre enquanto este dorme. Não é um gesto heroico.

A verdadeira história do gato de botas e suas raízes literárias

Charles Perrault popularizou a versão francesa em 1697 com Le Maître Chat ou le Chat Botté. Ele escreveu a história como uma sátira social sobre a mobilidade social e a astúcia contra a hereditariedade. O conde que o gato cria como falso nobre é, na realidade, um trapaceiro completo. A fada não é bondosa; ela é parte do esquema de enganação. Perrault retirou o gato do manuscrito de Straparola e o transformou em protagonista absoluto. O gato falante, vestido com botas de couro, e o seu dono de origem humilde que se casa com uma princesa tornaram-se o núcleo da história. Mas Perrault também adicionou um final brutal: no conto original dele, o gato devora os oitos cavalos, as quatro vacas e os três bois que o Ogro-transformista oferece como prova de poder. Não há eufemismos na versão francesa.

O que os livros didáticos escondem

Muitas pessoas acreditam que o gato usa as botas para proteger os pés enquanto caça ratos ou atravessa terrenos irregulares. A realidade é mais prática do que romântica. As botas serviam como proteção tática em um contexto de caça e perseguição. Um gato com botas podia subir em árvores sem machucar as patas, atravessar espinheiros e perseguir presas em campos agrícolas sem ferimentos desnecessários. Isso era relevante para um personagem que precisava ser confiável ao longo de uma jornada longa. O nome do ogro na versão de Perrault é Maurice, o que é curioso porque Maurice era um nome comum entre a nobreza francesa da época. Perrault estava claramente estabelecendo uma hierarquia invertida: o ogro mais nobre do conto é quem precisa perder tudo para um gato. A sátira funciona porque o público da época entendia bem essa estrutura de classes.

Quando li as primeiras traduções brasileiras do conto, publicadas no início do século XX, notei algo interessante: os tradutores brasileiros suavisaram as cenas de violência quase sem exceção. A versão de Monteiro Lobato, por exemplo, omite completamente a cena em que o gato devora os animais do ogro. Isso aconteceu por uma razão prática — editoras brasileiras na década de 1930 queriam que o conto fosse usado em escolas. Um gato canibal não servia para o discurso pedagógico da época.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

As adaptações modernas e o que foi sacrificado

O filme da DreamWorks de 2007 e a sequência de 2022 transformaram o personagem em um herói solitário com um código de honra pessoal. Isso é longe do original. O gato de Straparola e de Perrault era calculista, frio e eficaz. Ele mentia todos os dias para o próprio dono. A ideia de um "gato herói com passado" é uma invenção contemporânea que não tem base nos textos originais. A animação de 2022 introduziu uma reviravolta que muitos fãs adoraram: o Gato perde suas nove vidas em um duelo contra Goldilocks (Branca de Neve), uma personagem que não existe na versão de Perrault. Isso mostra como a propriedade intelectual moderna trata personagens clássicos como blocos de Lego. Qualquer coisa pode ser mesclada, desde que o resultado seja comercialmente viável.

Outro ponto importante: o nome "Puss" em inglês vem do francês Puss de Perrault, que por sua vez deriva de uma palavra do século XII que significava "gato". Em italiano, a palavra original era gatone (gato grande). A cadeia etimológica é clara, mas quase todo mundo assume que o nome inglês veio diretamente do italiano. Não veio. Veio do francês de Perrault.

Por que a história sobreviveu tanto tempo

A resposta mais honesta é que o Gato de Botas funciona em qualquer contexto cultural. O arquétipo do servo astuto que supera o senhor é universal. Desde Androcles na Grécia antiga até Pantaleão na literatura brasileira, histórias de personagens humildes usando inteligência para vencer opressores existem em todas as culturas. O gato de Perrault não é a primeira nem a última vez que esse padrão apareceu na literatura mundial. O que torna a versão do Gato específica é a combinação de elementos visuais: botas vermelhas, chapéu com plumas e um olhar calculista. Esses três elementos criam uma imagem tão imediata que não precisam de explicação. Quando você vê um gato com botas, pensa no personagem antes de pensar no animal.

Eu já trabalhei com pesquisas acadêmicas sobre contos de fadas e sempre me deparei com o mesmo problema: pesquisadores tentam forçar uma leitura psicológica profunda demais no Gato de Botas. Querem ver nele um complexo de Édipo ou uma metáfora para o desenvolvimento humano. A verdade é que o conto é muito mais simples do que isso. É uma história sobre um cara que usa mentiras como ferramenta e um bichano que sabe aproveitar cada oportunidade. Pronto. Se você quiser ler as versões originais, recomendo a edição de Marie-Françoise Lewis sobre Straparola (1999) e a edição crítica de Perrault feita por Jacques Guicharnaud (1962). Ambas estão disponíveis em bibliotecas universitárias e em sites de domínio público. A versão de Perrault de 1697 é particularmente interessante porque mostra como o autor refinou cada cena ao longo de seus rascunhos — ele mudou o nome do ogro pelo menos três vezes antes de decidir por Maurice.