Concordância verbal em português: o que realmente importa na prática
A concordância verbal é um dos tópicos mais cobrados em concursos, processos seletivos e revisões editoriais, mas a maioria das pessoas estuda de forma superficial. Estudar concordância de verdade exige entender como os verbos se comportam quando o sujeito vem posposto, quando háexpressões partitivas ou quando o núcleo do sujeito está no plural mas o sentido exige singular. Vou explicar a mecânica completa, com exemplos reais e casos que costumam pegadar.
analise as frases abaixo quanto a concordância verbal e depois aplique as regras
Na prática, a primeira coisa que você precisa fazer antes de marcar qualquer alternativa ou corrigir um texto é identificar o sujeito e seu núcleo. A concordância verbal obedece basicamente a uma regra simples: o verbo concorda em número e pessoa com o sujeito. O problema é que frases complexas distorcem essa identificação. Veja um exemplo prático: "Fazem dois anos que não o vejo" — erro comum. O correto é "Faz dois anos", porque o verbo fazer, quando indica tempo transcorrido, é impessoal e permanece na terceira pessoa do singular.
Outro exemplo clássico de erro: "Aqui funcionam várias empresas" — incorreto. Quando o sujeito é posposto e a oração começa com advérbio de lugar, o verbo pode ficar no singular se houver expressão de existência: "Aqui funciona várias empresas" também está errado. O correto é "Aqui funcionam várias empresas" apenas se o sujeito estiver claramente definido e plural. Na verdade, a construção com verbos de existência como haver, existir, acontecer segue padrão diferente: "Existem vários problemas" está correto porque existir é pessoal. Já "Havia vários problemas" é o correto, pois haver no sentido de existir é impessoal.
Regras fundamentais da concordância verbal
Vamos organizar isso de forma prática. A concordância verbal se divide em três cenários principais: sujeito simples, sujeito composto e casos especiais com verbos particularmente sensíveis. No sujeito simples, tudo é mais direto. Você identifica o núcleo e conjuga o verbo na mesma pessoa e número. "O aluno estudou" — sujeito "o aluno", núcleo singular, verbo na terceira pessoa do singular. "Os alunos estudaram" — sujeito plural, verbo no plural. Isso é básico, mas a maioria dos erros acontece justamente quando as pessoas confundem o sujeito com outros elementos da oração.
No sujeito composto, a regra geral é conjugar o verbo no plural. "João e Maria chegaram tarde". Porém, existem situações em que o sujeito composto exige singular, e é aí que mora o perigo. Quando os núcleos do sujeito composto são sinnônimos ou estão coordenados assindeticamente com valor de ênfase, o verbo pode ficar no singular. "A vida e a existência humana são frágeis" — aqui o plural é obrigatório porque os núcleos são distintos. Mas "A morte e o falecimento são irreversíveis" também exige plural. O singular só aparece quando há clara fusão de ideias, como em "O medo e o terror paralisavam os reféns", onde medo e terror formam uma ideia única e o verbo no plural é preferível, mas o singular também seria aceito em contextos estilísticos.
Verbos particularmente problemáticos
Existem verbos que geram erro recorrente em provas e na revisão de textos. Vou listar os principais com explicações diretas. O verbo basta é um dos mais traiçoeiros. Ele é impessoal quando significa "suficiar-se". Portanto: "Basta de reclamações" — correto, porque "basta" não tem sujeito. "Bastam duas palavras" — também correto, mas aqui o sujeito é "duas palavras", então o verbo concorda. A diferença está em saber se há sujeito ou não. Quando "basta" vem acompanhado de complemento preposicionado, ele é pessoal e concorda: "Bastam alguns minutos" — sujeito "alguns minutos". Já "Basta alguns minutos" está errado se o sujeito for esse. Na verdade, a regência aqui define tudo. "Basta de gracinha" é impessoal. "Bastam alguns minutos" é pessoal.
O verbo importar merece atenção. Quando significa "ter importância", comporta-se como impessoal na construção com "importa": "Não importa o que aconteça". Mas quando significa "causar importunação", é pessoal: "Importam-me as suas palavras" — errado. O correto é "Importa-me as suas palavras" apenas se o sujeito for singular. Se o sujeito for plural: "Importam-me os seus argumentos" — certo, porque o sujeito "os seus argumentos" é plural. O verbo ocorrer também gera confusão. "Ocorreu um acidente" — correto, sujeito "um acidente". "Ocorreram vários acidentes" — também correto. Mas "Ocorreu muitos acidentes" é erro. A concordância segue o sujeito normalmente.
Quanto ao verbo haver, já mencionei: no sentido de existir ou acontecer, é impessoal. "Houve muitos problemas" — correto. "Houveram muitos problemas" — errado. Quando haversentido de possuir, é pessoal: "Ele havia muitos livros" — errado, o correto é "Ele tinha muitos livros". Haver no sentido de possuir é arcaico e raro.
Casos avançados que caem em provas e revisões
Vou falar de situações que aparecem com frequência em editais e que poucos dominam de verdade. A primeira é a concordância com expressões partitivas como "uma porção de", "grande parte de", "a maioria de". O verbo pode concordar com o núcleo da expressão partitiva ou com o termo subsequente. "Uma porção de alunos faltou" e "Uma porção de alunos faltaram" — ambas são aceitáveis, mas a norma culta prefere a concordância com o núcleo "porção", ficando no singular. "Grande parte dos alunos faltou" é mais frequente e amplamente aceito, mas "Grande parte dos alunos faltaram" também é válido, especialmente na linguagem contemporânea. A concordância com "mais de um" segue regra específica. "Mais de um candidato se preparou" — correto, pois "mais de um" exige verbo no singular. Mas "Mais de um candidato se prepararam" está errado. Quando há repetição da ideia com "mais de um e outro", o verbo pode ir para o plural: "Mais de um e outro candidato se prepararam".
O caso dos verbos pairar e existir também é importante. "Pairavam dúvidas sobre a questão" — correto, sujeito "dúvidas". "Pairava dúvidas" — errado. "Existiam problemas" — correto. "Existia problemas" — errado. Esses verbos são pessoais, então a concordância é direta. Outro ponto crítico: a concordância com sujeito representado por pronome relativo. "Fui eu que fiz o trabalho" — correto, porque o relativo "que" retoma "eu", e o verbo concorda com o antecedente. "Fui eu que fiz" — correto. "Fui eu que fizemos" — errado. Já "Fomos nós que fizemos" — correto. A regra é clara: o verbo da oração subordinada adjetiva concord com o antecedente do pronome relativo.
Erros comuns em revisões práticas
Durante anos revisei textos técnicos e acadêmicos, e os erros mais frequentes que encontrei caem em categorias bem definidas. A primeira categoria envolve frases com sujeito longe do verbo. "Entre os fatores que influenciam o mercado estão a inflação e a taxa de juros" — correto. Mas muitos escritores escrevem "Entre os fatores que influenciam o mercado está a inflação e a taxa de juros" — errado, porque o sujeito é composto ("a inflação e a taxa de juros"), exigindo verbo no plural. A segunda categoria são as frases com "é proibido" seguido de substantivo no plural. "É proibido entrada de estranhos" — correto. "É proibido a entrada de estranhos" — errado, porque a preposição "a" sobra. "É proibida a entrada de estranhos" — correto também, pois o adjetivo concorda com "entrada".
A terceira categoria envolve o uso de "conveniente" e "necessário" como adjetivos. "São necessárias mais vagas" — correto. "É necessário mais vagas" — errado. O adjetivo concorda com o sujeito. Já "É conveniente que venham mais cedo" — correto, porque "que venham" é sujeito oracional e o verbo fica no singular quando a oração subordinada substantiva subjetiva não possui verbo flexionado.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Teste prático com frases para analisar
Agora vou apresentar frases para você aplicar o que foi explicado. Analise cada uma quanto à concordância verbal e identifique o erro, se houver. 1. Fazem dois anos que trabalho nesta empresa.
2. Houveram muitos problemas durante a instalação. 3. Basta de reclamar, pois não adianta nada.
4. Mais de um candidato disputaram a vaga. 5. A maioria dos alunos chegou atrasado.
6. É proibido entrada de animais. 7. Fui eu que fizemos o projeto.
8. Entre os objetivos da empresa está aumentar a produtividade. 9. É necessário mais atenção com os prazos.
10. Ocorreram muitos acidentes naquela estrada.
Gabarito comentado da analise as frases abaixo quanto a concordância verbal e depois
1. Errada. O verbo fazer, indicando tempo, é impessoal. Correção: "Faz dois anos". 2. Errada. Haver no sentido de existir é impessoal. Correção: "Houve muitos problemas".
3. Correta. "Basta" é impessoal aqui, pois significa "suficiente". 4. Errada. "Mais de um" exige verbo no singular. Correção: "Mais de um candidato disputou a vaga".
5. Correta ou parcialmente aceitável. A concordância pode ser com "maioria" (singular) ou com "alunos" (plural). Ambas as formas são aceitas, mas a norma culta tradicional prefere "chegou atrasado". 6. Errada. A preposição "a" sobra. Correção: "É proibida a entrada" ou "É proibido entrada".
7. Errada. O relativo "que" retoma "eu". Correção: "Fui eu que fiz o projeto". 8. Errada. O sujeito é "aumentar a produtividade" (oração subordinada), mas a concordância deve considerar o núcleo. Na verdade, a expressão "entre os objetivos" não é sujeito. O sujeito real é "aumentar a produtividade". Correção: "Entre os objetivos da empresa está o aumento da produtividade" ou "estão os objetivos da empresa, entre eles, aumentar a produtividade".
9. Correta. "É necessário" concorda com a ideia de necessidade, e "mais atenção" é o sujeito. 10. Correta. O sujeito "muitos acidentes" está posposto, e o verbo concorda corretamente no plural.
Erros que nunca devem ser cometidos em documentos formais
Existem construções que, mesmo sendo comuns na fala coloquial, são inaceitáveis em textos formais. Um deles é o uso de "eu vejo" no lugar de "eu vi". Outro é a concordância incorreta com "gostar de" no sentido de apreciação: "Gostei muito do filme" é correto, mas "Gostou-me o filme" é arcaico e evitado. O mais grave é a concordância com numerais fractions e porcentagens. "Cinquenta por cento dos eleitores votaram" — correto. "Cinquenta por cento do eleitorado votou" — também correto, pois "eleitorado" é coletivo e singular. Outro erro frequente é a concordância com "o resto de". "O resto dos documentos foi analisado" — correto. "O resto dos documentos foram analisados" — também aceito, mas a concordância com o núcleo "resto" é mais tradicional.
Em resumo, a concordância verbal exige identificação precisa do sujeito, atenção aos verbos impessoais e conhecimento das exceções que a norma culta estabelece. Pratique com frases complexas, identifique os núcleos e verifique se a concordância está correta antes de finalizar qualquer texto.