Pronomes demonstrativos e a escolha do produtor do texto
Ao usar os pronomes demonstrativos o produtor do texto precisa fazer uma decisão constante: qual termo corresponde exatamente ao referente que ele quer apontar, e a que distância — física ou discursiva — esse referente se encontra do interlocutor. A maioria dos manuais apresenta isso de forma rígida, mas na prática a coisa é bem mais flexível do que a tabela clássica diz.
Como funciona na prática
O sistema básico é simples. Eu uso este/esta quando o referente está próximo de quem fala. Uso esse/essa quando está mais perto de quem ouve, ou quando algo já foi mencionado antes no texto. E aquele/aquela para referentes distantes de ambos, ou para itens lembrados há bastante tempo na conversa. Isso é o que qualquer gramática vai te dizer. O problema é que as regras mudam quando entramos em contextos mais complexos, como textos argumentativos, jornalísticos ou acadêmicos. Já vi produtor de conteúdo travar três vezes num mesmo parágrafo só porque não conseguia decidir se usava este ou esse para retomar um argumento. O resultado era um texto que soava estranho, com repetições desnecessárias ou, pior, ambiguidade. A ambiguidade é o risco real aqui. Quando você escreve "esses dados mostram..." e não fica claro se "esses" se refere aos dados citados no parágrafo anterior ou aos do parágrafo dois páginas antes, o leitor perde o fio da meada.
O que eu faço agora é mapear mentalmente os referentes antes de escrever. Não é um método bonito, mas funciona. Anoto rapidamente no rascunho quais substantivos cada pronome pode estar retomando. Se houver conflito, eu substituo o pronome por uma síntese nominal — um substantivo acompanhado de um adjetivo ou complemento — que elimina a ambiguidade. Por exemplo, em vez de "esses resultados contradizem a hipótese", posso escrever "os resultados da segunda fase contradizem a hipótese inicial". Isso gasta algumas palavras a mais, mas evita retrabalho de revisão.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Pegadinhas que ninguém avisa
Uma coisa que os manuais não destacam suficiente é o uso dos demonstrativos com valor temporal. Isto e isso não servem só para coisas no espaço. Eles funcionam perfeitamente para marcar presente e passado recente num discurso. "Isso aconteceu semana passada" soa muito mais natural do que "aquilo aconteceu semana passada", mesmo que os dois estejam gramaticalmente corretos. A escolha carrega uma nuance de proximência temporal que o produtor precisa sentir, não apenas decorar. Outro ponto mal compreendido é a flexão de gênero e número. Os demonstrativos concordam em gênero e número com o substantivo que substituem, mas o erro comum é esquecer que a concordância ocorre com o referente, não com a palavra que estava no contexto anterior. Se você disse "as informações são confusas" e depois usa esse, o correto é essas, porque o referente é "informações", feminino plural. Já vi revisores deixarem passar esse informação por causa do cansaço. Erro bobo, mas frequente.
Há ainda o caso dos demonstrativos neutros — isto, isso, isso. Eles não se flexionam, o que é útil mas também é armadilha. Quando o referente é uma ideia abstrata ou uma oração inteira, o neutro é a única opção. "Isso que você disse mudou minha perspectiva" — aqui, "isso" retoma toda a oração anterior, não um substantivo específico. Produtores que tentam forçar a concordância com um substantivo qualquer acabam gerando frases inadequadas.
Quando o sistema falha
Não adianta fingir que isso é simples em todos os contextos. Textos longos, como artigos científicos ou reportagens investigativas, criam uma acumulação de referentes que torna o uso dos demonstrativos instável. Quanto mais páginas o texto tem, mais remoto fica o referente original, e aquele pode ser interpretado como distante demais, enquanto esse parece muito perto. Nesse cenário, a recomendação prática é evitar pronomes demonstrativos puros e optar por retoma explícita: repetir o nome do conceito com um modificador que o identifique sem redundância. Em português brasileiro, há ainda uma tendência coloquial de usar esse como curinga, substituindo tanto este quanto aquele em conversas informais. Em textos formais, essa generalização soa pouco precisa. Se o seu público lê material técnico ou acadêmico, manter a distinção entre os três termos é quase obrigatório para transmitir clareza e autoridade.
O que eu aprendi na prática é que dominar demonstrativos não é questão de decorar uma tabela. É questão de treinar o olhar para os referentes no fluxo do texto. Leio meus próprios rascunhos em voz alta sempre que possível — o ritmo da fala ajuda a detectar onde o pronome soa ambíguo ou deslocado. E quando o texto é muito denso, um segundo olhar de outra pessoa identifica ambiguidades que meu cérebro já normalizou por excesso de exposição.