Ensinar gostos e preferências em sala de aula
Achei que era o assunto mais fácil do livro quando comecei a preparar minhas aulas de inglês para alunos iniciantes. "I like", "I don't like", "Do you like?". Parece simples até você perceber que 90% dos exercícios do material pronto não passam de preenchimento de lacunas robótico e os alunos saem da aula sabendo conjugar mas não conseguindo manter uma conversa de 30 segundos sobre o tema. O problema real é que gostos e preferências aparecem em praticamente toda intera social. É a primeira coisa que alguém pergunta num emprego informal, num encontro, num novo trabalho. Se o aluno não consegue expresar isso com naturalidade, ele trava nos primeiros minutos de qualquer interação em inglês. Eu vi isso acontecer com dezenas de alunos ao longo dos anos.
Atividades sobre gostos e preferências que realmente funcionam
Minha abordagem começa diferente do que a maioria dos livros propõe. Em vez de mostrar uma lista de verbos e pedir para os alunos conjugarem, eu jogo uma situação real na mesa deles desde o primeiro minuto. A atividade-base que uso é a seguinte: peço que cada aluno escreva, em silêncio, cinco coisas que adora fazer e cinco que detesta. Não digo para compartilhar ainda. Deixo eles digitarem ou escreverem à mão. Depois distribuo cartões com situações misturadas: "Você está num avião ao lado de um estranho", "Você acabou de começar um novo emprego e o colega de mesa convida para o almoço", "Você está num grupo de WhatsApp da família e precisam escolher um restaurante". Cada cartão pede que o aluno use pelo menos três expressões de gosto e preferência para reagir à situação.
Isso gera um resultado interessante. Os alunos produzem muito mais linguagem autêntica porque o contexto força o uso de contrações, negações e variações de intensidade. Alguém vai escrever "I absolutely hate waiting in line" quando o exercício básico só pediria "I don't like waiting in line". O nível de detalhe aparece naturalmente quando há uma razão prática para existir.
Variações que evitam o tédio em repetições
O maior inimigo desse conteúdo é a repetição mecânica. Depois que os alunos dominam o básico, eu introduzo camadas progressivas. Nível intermediário: Debate com opiniões contraditórias. Divido a turma em grupos. Cada grupo recebe um tema polêmico mas leve: "sorvete de chocolate é superior a morango", "filmes de ação são melhores que comédias", "é melhor morar na cidade ou no campo". Eles precisam construir argumentos usando tanto "I think..." quanto "I strongly disagree because..." e, obrigatoriamente, incluir pelo menos duas expressões de preferência em cada fala. A regra é que ninguém pode concordar automaticamente com o grupo ao redor. Isso obriga o uso de conectores de contraste.
Nível avançado: A atividade do "fake profile". Os alunos criam perfis fictícios de pessoas com gostos completamente opostos aos deles. Depois, em duplas, cada um assume o personagem do colega e apresenta os gostos daquele perfil para a turma. O desafio é manter a coerência durante toda a apresentação. Isso trabalha fluência, memória de longo prazo e a capacidade de sustentar um registro linguístico consistente por mais de dois minutos seguidos.
O erro mais comum que ninguém fala
A maioria dos professores concentra horas ensinando "like + ing" versus "would like + to". Até aí tudo certo. Mas o erro que vejo repetidamente é a falta de exposição a variações de intensidade. Aluno sabe dizer "I like pizza" e "I don't like pizza". Não sabe dizer "I'm really into pizza", "I'm not a big fan of seafood", "I could go either way", "It's not really my thing". Essas expressões são o que realmente sustentam uma conversa nativa. Sem elas, o aluno soa como um robô mesmo quando a gramática está perfeita. A correção é simples mas exige prática intencional: a cada atividade sobre o tema, eu exijo que pelo menos duas frases usem uma variação de intensidade diferente do básico. Não aceito "I like" ou "I don't like" como resposta final. Sempre pergunto "How much do you like it? A lot? A little? Not at all?".
Um caso específico que aprendi na prática
Tive um aluno que dominava toda a gramática do tópico mas travava completamente em situações reais. Ele conseguia completar qualquer exercício escrito sobre gostos e preferências com nota máxima, mas quando colocamos para (role-play) de um cenário de restaurante, ele simplesmente dizia "I like" e parava. Não formulava perguntas, não demonstrava interesse, não puxava assunto. A solução foi mudar completamente o formato. Parei de usar cartões com frases para completar e comecei a gravar vídeos curtos de conversas reais entre nativos — clips de podcasts, entrevistas, vlogs. Pedimos para ele transcrever exatamente como as pessoas expressavam gostos em diálogos espontâneos. O que ele descobriu foi revelador: nativos raramente usam "I like" em sequência. Eles usam "I'm a big fan of...", "I'm into...", "I'm not really keen on...", "It's up there with my favorites".
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Depois dessa análise, fizemos uma atividade de Shadowing onde ele repetia trechos inteiros copiando entonação e ritmo, não apenas palavras. Em três semanas, o comportamento dele em role-plays mudou drasticamente. A gramática nunca tinha sido o problema. Era exposição insuficiente ao uso real.
Materiais e recursos práticos
Para quem quer montar atividades próprias, aqui estão os recursos que uso com frequência e que realmente entregam resultado: Questionnaires imprimíveis: Há várias versões gratuitas online que apresentam opções de atividades sobre gostos e preferências com layouts prontos para imprimir. O formato de checklist com fotos funciona bem para níveis iniciantes porque reduz a barreira lexical. O aluno aponta e fala; não precisa formar frases completas no início.
Flashcards de imagens: Imprima cerca de 40 imagens de atividades cotidianas (esportes, comida, hobbies, viagens). Misture coisasobvias com situações mais específicas. O uso é simples: mostra a imagem, aluno diz a reação, colega pergunta "Why?". Isso expande automaticamente o vocabulário causal sem planejamento extra. Jogos de mesa adaptados: Existem versions gratuitas de "Find Someone Who" em formato PDF que servem diretamente como atividade de sala. Basta ajustar as frases para o nível dos seus alunos. A versão que mais uso tem 20 perguntas do tipo "Find someone who loves spicy food" e força o movimento físico pela sala. O gasto calórico ajuda na retenção.
Pegadinhas que merecem atenção
Existem limitações reais que poucos materiais didáticos mencionam. A primeira é que esse tópico depende fortemente do repertório cultural dos alunos. Se você usa exemplos baseados em esportes americanos ou feriados específicos dos EUA, alunos de outras regiões podem se sentir excluídos ou incapazes de participar porque não reconhecem as referências. A segunda limitação é mais técnica: em turmas com níveis muito variados, o tema gostos e preferências pode nivelar por baixo rapidamente. Alunos mais avançados terminam as atividades em cinco minutos enquanto os iniciantes ainda conjugam o verbo. A solução que encontrei foi criar uma estrutura de diferenciação automática: os avançados precisam adicionar obrigatoriamente justificativas complexas e contra-argumentos, enquanto os iniciantes focam apenas na produção básica. Assim ambos trabalham no nível adequado sem precisar de material separado.
A terceira limitação que muitos ignoram é a questão da personalização excessiva. Quando o assunto é gosto pessoal, alguns alunos ficam relutantes em compartilhar opiniões reais, especialmente em culturas onde discutir preferências com colegas de trabalho ou estudo é visto como inadequado. Nesses casos, usar perfis fictícios ou personagens de filmes resolve o problema sem perder o objetivo linguístico.
Como estruturar uma aula completa de 50 minutos
Meu modelo padrão funciona assim: nos primeiros 10 minutos, aquecimento visual com flashcards rápidos — mostra imagem, aluno reage, próximo repete. Nos próximos 20 minutos, atividade principal em pares ou pequenos grupos, sempre com um cartão de situação. Nos últimos 15 minutos, roda de compartilhamento onde cada grupo apresenta o que descobriu sobre os colegas. Os últimos 5 minutos são para correção coletiva focada apenas nos erros recorrentes que aparecem durante a atividade. Se a turma for maior que 15 alunos, recomendo dividir em estações. Cada estação tem uma dinâmica diferente: uma de leitura rápida com frases para completar, uma de áudio com um diálogo para transcrever, uma de fala livre com perguntas preparadas. A rotatividade mantém o engajamento e permite que alunos com diferentes estilos de aprendizagem participem ativamente.
Conclusão prática
O tema gostos e preferências é aparentemente simples mas carrega uma complexidade enorme quando se observa o uso real. A diferença entre um aluno que decorou "I like" e um que realmente comunica preferências está na exposição a variações de intensidade, na prática contextualizada e na correção dos erros que realmente importam. Materiais prontos existem em abundância online. O trabalho do professor é filtrar, adaptar e adicionar camadas de realidade que transformem uma lição de livro numa habilidade que o aluno realmente usa fora da sala de aula.