Ballet Romeu E Julieta - Ballet de Repertório – Romeu e Julieta - Ana Botafogo Maison
Ballet de Repertório – Romeu e Julieta - Ana Botafogo Maison

Como funciona o ballet Romeu e Julieta na prática

O ballet romeu e julieta não é uma obra só. É um conjunto enorme de produções espalhadas por décadas, todas partilhando a mesma fonte mas divergindo drasticamente na coreografia, na banda sonora e na estrutura narrativa. Se estás a pensar montá-lo ou estudá-lo, a primeira coisa que tens de entender é que não existe "a versão". Existe a tua versão, e ela vai depender inteiramente de qual liberdade criativa te foi dada. A versão mais executada no mundo é a de Kenneth MacMillan para o Royal Ballet, com música de Prokofiev. A de Nureyev, também com Prokofiev, é outra bastante comum em companhias europeias. Em Portugal, a Companhia Nacional de Bailado já montou várias produções, muitas vezes recorrendo a arranjos da partitura original. Cada uma exige um treino completamente diferente.

Ballet romeu e julieta: o que realmente muda entre versões

A diferença mais importante está na coreografia, não na música. A banda de Prokofiev é fixa em praticamente todas as produções profissionais, mas o modo como os coreógrafos distribuem as cenas varia muito. Na versão de MacMillan, há uma ênfase brutal na fisicalidade dos corpos — os duelos são coreografados como luta real, não como passos estilizados. Na de Nureyev, a cena do túmulo ganha uma carga dramática quase operática que não existe noutras versões. Isto importa porque se fores bailar esta obra, vais precisar de saber exatamente qual a coreografia que estás a aprender. Tentar estudar a versão de MacMillan e depois chegar a um ensaio onde montaram a de Cranko é desastroso. Os tempos musicais são diferentes, as entradas estão noutras posições. Perdes dias a recuperar o ritmo.

O processo de preparação real

O que ninguém te conta é que o ballet romeu e julieta exige uma condição física muito específica e rara. Não basta ser bom bailarino de repertório geral. Precisas de resistência cardiovascular para os atos inteiros, força de pernas para os saltos prolongados e uma técnica de pontas sólida porque as bailarinas passam mais tempo elevadas do que na maioria dos balés românticos tradicionais. No meu caso, quando trabalhei na montagem de uma produção com a versão adaptada para orquestra de câmara, enfrentei um problema específico: a duração da peça era cerca de 40 minutos menor do que a versão completa do Royal Ballet. Isso significava que cortes feitos no ato III criavam lacunas na continuidade narrativa que os bailarinos precisavam preencher de outra forma. A solução que achei foi trabalhar com os bailarinos dos papéis principais cenas de diálogo mudo entre os atos, usando movimento continuado para manter a tensão sem depender de música. Funcionou, mas exigiu ensaios extras de quase duas semanas.

Pontos de dificuldade técnica

Os duetos doATO II são tradicionalmente os mais exigidos. Não pela dificuldade técnica isolada de cada passo, mas pela necessidade de sincronização absoluta entre dois parceiros que estão ambos sob pressão extrema — literalmente, porque muitas coreografias usam movimentos de queda e suporte que requerem confiança total. Já vi casais que ensaiavam o dueto durante semanas e só conseguiam executá-lo bem em apresentação depois de três ou quatro tentativas, porque a ansiedade de palco alterava o timing. Outro problema comum é a cena do duelio entre Mercúrio e Tibaldo. Dependendo da coreografia, pode exigir seis a oito minutos de ação contínua sem pausa. Os bailarinos precisam de condicionamento específico para isso. O que faço é propor treinos de circuito com series de relevés, saut-de-chat e grand jetés em sequência, alternando perna, durante 45 segundos sem parar. Três séries, com dois minutos de descanso entre cada. Aumente progressivamente ao longo de quatro semanas e o desempenho no duelio melhora visivelmente.

Onde encontrar gravações e material

Para estudar o ballet romeu e julieta, as gravações disponíveis variam em qualidade. A versão do Royal Ballet filmada em 1981 com Anthony Dowell e Evelyn Hart é amplamente considerada a referência. A gravação da Bolshoi com Makharov e Makarova também é excelente. Ambas estão disponíveis em serviços de streaming de balé como o kanopy ou no catálogo do Royal Opera House. As partituras completas de Prokofiev podem ser adquiridas através da Schirmer Music Library ou pedidas via interbibliotecas. Se precisas de uma versão abreviada para montagem escolar ou de companhia pequena, existem arranjos de Vissarion Shebalin que condensam os temas principais em cerca de 50 minutos. São menos fieis ao original mas funcionam.

Erros que vejo constantemente

O erro mais frequente em produções amadoras ou semi-profissionais é ignorar a narrativa emocional em favor da virtuosidade técnica. O ballet romeu e julieta funciona quando o público sente a urgência dos dois protagonistas, não quando veem apenas saltos bonitos. Isso significa que os coreógrafos e diretores precisam dar prioridade à expressão facial e à intenção dramática nos ensaios, não apenas à execução dos passos. Um detalhe prático: os figurinos para os atos I e II costumam ser pesados, especialmente se usarem tecidos tradicionais como veludo ou cetim com bordados. Em salas sem climatização adequada, os bailarinos podem sofrer de desidratação durante a atuação. A solução simples é ter garrafas de água nos bastidores e programar pausas de hidratação entre atos. Não é poética, mas salva carreiras.