Celulas Do Sangue Na Lamina - HISTOLOGIA90: MORFOLOGIA DAS CÉLULAS DO SANGUE E LEUCEMIAS
HISTOLOGIA90: MORFOLOGIA DAS CÉLULAS DO SANGUE E LEUCEMIAS

Entendendo as células do sangue na lâmina

O exame de hemograma com contagem manual de células sanguíneas ainda é uma realidade em laboratórios que não investiram em analisadores eletrônicos, mas mesmo nos locais mais modernos ele aparece como validação ou para casos pontuais. A lamina é o suporte básico onde o sangue é espalhado e corado para visualização ao microscópio. O procedimento em si é simples, mas a qualidade do esfregaço depende de variáveis que muitos iniciantes subestimam.

Como preparar celulas do sangue na lamina corretamente

Você precisa de uma lâmina de vidro limpa, sem gordura, e de outra lâmina para fazer o esfregaço. Coloca-se uma gota de sangue no extremo de uma das lâminas, posiciona-se a lâmina de espalhamento em ângulo de cerca de 30 a 45 graus e puxa-se para trás até a gota se espalhar pela borda. Em seguida, faz-se um movimento rápido e uniforme para frente. Isso gera uma faixa onde as hemácias ficam levemente sobrepostas, sem espaço excessivo entre elas. A coloração mais usada é o Giemsa ou o Wright-Giemsa. O tempo de exposição ao corante varia entre 10 e 15 minutos, seguido de lavagem com água destilada ou tamponada. O secamento deve ser natural, em posição vertical, por cerca de 10 minutos. Qualquer apressamento com ar comprimido ou calor pode alterar a morfologia celular e comprometer a leitura.

Já vi lâminas com fundo vermelho demais porque a lavagem foi insuficiente. O corante residual cria um background que atrapalha a diferenciação dos nuclêos. Nesses casos, refazer a lâmina é mais rápido do que tentar salvar com correções. Existe também o problema inverso: lâmina muito clara, quando a lavagem removeu o corante junto com os elementos formes. O equilíbrio exige prática e controle do tempo.

Tipos celulares e como distingui-los

As hemácias aparecem como discos biconcavos anucleados, coradas em tons de rosa a laranja pálido. O tamanho médio é de 6 a 8 micrômetros. A presença de anisocitose (variação de tamanho) ou poiquilocitose (variação de forma) já indica alguma condição subjacente, como anemia ferropriva ou talassemia. Os leucócitos são divididos em granulócitos e agranulócitos. Neutrófilos possuem nuclêos segmentados em três a cinco lobos e citoplasma com grânulos finos cor de rosa. Eosinófilos têm grânulos vermelhos-intensos e nuclêos biclobados. Basófilos são mais raros, com grânulos escuros que frequentemente obscurecem o nuclêio. Linfócitos pequenos têm nuclêio redondo e denso, com pouco citoplasma azulado. Monócitos são maiores, com nuclêio irregular e citoplasma cinzento-azulado.

Uma coisa que poucos citotécnicos levam a sério é a contagem em campos específicos. A área ideal para avaliação morfologica é onde as hemácias se tocam levemente, mas não se sobrepõem completamente. Campos muito próximos à cauda do esfregaço mostram células distorcidas pela espessura irregular do material. Se você contar leucócitos ali, seus números vão abaixo da realidade.

Erros comuns e como evitar

O principal erro no preparo da lâmina é usar volume inadequado de sangue. Gotas muito grandes geram esfregaços grossos onde as células se empilham e não permitem visualização individual. Gotas muito pequenas produzem faixas finas demais, com poucas células para análise. O ponto certo é uma gota do tamanho de uma cabeça de alfinete, aproximadamente 3 a 5 microlitros. Outro problema recorrente é o tempo de fixação incorreto. O metanol, presente na solução de Giemsa-Wright, deve atuar por 30 segundos a 1 minuto antes da adição do corante propriamente dito. Se o tempo de fixação for muito curto, as células se rompem durante a lavagem. Muito longo, e o corante não penetra adequadamente nos componentes celulares.

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Existe ainda a questão da qualidade da lâmina. Lâminas reutilizáveis precisam ser completamente desengorduradas. Um teste simples é pingar água na superfície: se formar gotas, há gordura residua. Se espalhar uniformemente, está limpa. Lâminas novas muitas vezes já vêm com resíduo de fabricação e devem ser lavadas com álcool 70% antes do uso.

Contagem manual de leucócitos e plaquetas

Para a contagem de leucócitos, utiliza-se a câmara de Neubauer. O sangue é diluído em solução de Turk, que lisia as hemácias e deixa os leucócitos visíveis. A contagem é feita nos quatro cantos da câmara, somando-se os leucócitos encontrados e aplicando-se o fator de diluição. A precisão depende diretamente de uma boa homogeneização da amostra antes da carga na câmara. Plaquetas são mais delicadas. Elas tendem a formar aglomerados em amostras coletadas com citrato de sódio, o que leva a contagens falsamente baixas. Uma técnica que ajuda é centrifugar a amostra a baixa velocidade para obter plasma rico em plaquetas e usar esse subproduto para o esfregaço. Outra alternativa é adicionar EDTA na concentração final correta logo após a coleta, antes que as plaquetas ativem e agreguem.

Em amostras com crioglobulinas ou fatores refrigerantes, as plaquetas podem aggregar-se artificialmente mesmo com anticoagulante adequado. Nesse cenário, a contagem manual pelo método padrão não resolve. O ideal é aquecer a amostra a 37 graus antes do processamento, mantendo essa temperatura durante toda a preparação da lâmina e da câmara de contagem. Sem esse cuidado, o resultado pode subestimar a plaquetemia em até 40 por cento.

Limitações do exame microscópico

O esfregaço sanguíneo manual tem limitações importantes. A variabilidade entre examinadores é significativa. Dois profissionais contando a mesma lâmina podem chegar a resultados diferentes, especialmente na classificação de formas imaturas ou na estimativa de plaquetas. Isso não é uma falha do método em si, mas uma característica inerente à leitura humana. Analisadores eletrônicos oferecem velocidade e reprodutibilidade maiores para contagens de rotina. No entanto, eles não substituem a avaliação morfológica quando há indícios de doenças hematológicas. Leucemias, síndromes mielodisplásicas e hemoglobinopatias exigem olho treinado para identificar formas atípicas que os equipamentos não classificam corretamente.

O custo operacional também merece consideração. Preparar, corar e ler lâminas consome tempo e material. Um laboratório que processa mil amostras por dia gastaria cerca de duas a três horas por técnico apenas na preparação e leitura de esfregaços, sem contar o tempo de análise morfologica detalhada. O investimento em analisadores automatizados se paga em pouco tempo nesse volume.

Controle de qualidade

Realizar controle de qualidade no procedimento de preparação de celulas do sangue na lamina envolve o uso de amostras de controle com valores conhecidos e a participação em programas de avaliação externa. Laboratories que fazem partilhamento de lâminas entre colegas tendem a ter menor variabilidade nas contagens. O simples ato de discutir lâminas difíceis com outros profissionais melhora a precisão individual. A documentação dos procedimentos também é essencial. Um protocolo escrito descrevendo volumes, tempos de coração, condições de secagem e critérios de aceitação da lâmina reduz inconsistências entre turnos e entre diferentes técnicos. Sem padrão operatório documentado, cada pessoa faz do seu jeito e a qualidade flutua conforme o humor do dia.