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Como fazer a contagem de leucócitos manualmente

Entendendo a contagem global de leucócitos na prática

A contagem global de leucócitos é um dos exames mais solicitados em hematologia, mas a maioria das pessoas confunde automação com precisão. Hoje em dia, o hematology analyzer faz todo o trabalho sujo em três minutos. O problema é que quando o equipamento trava, ou quando você está em um laboratório de bairro sem orçamento para manutenção de mês em mês, precisa saber fazer à mão. Eu já passei por isso. Num laboratório no interior de Minas Gerais, durante uma greve de caminhoneiros em 2019, o reagente do analyser acabou e o fornecedor não ia chegar. Tinha uma fila de 47 pacientes esperando hemograma. Eu peguei a câmera de Neubauer, diluente de Türk, e contei 34 leucócitos à lupa durante duas horas. O analista que ficou no plantão noturno achou que eu estava maluco. Dois dias depois, o transporte voltou e a gente comparou os resultados: desvio de 8% para cima nos neutrofílicos, dentro da variação aceitável para método manual.

A técnica padrão usa a câmara de Neubauer, diluente hipônico de Türk (ou glicina + azul de metileno), e diluição 1:20. O sangue capilar ou venoso com EDTA entra no diluente, mistura-se por 10 minutos, carrega-se as duas câmaras e conta-se os quatro quadrantes grandes. A fórmula básica é: leucócitos por µL = total de células contadas × 50 × 20 × 1000 / 16. O fator 50 vem da área do quadrante grande, 20 é a diluição, 1000 converte mm³ para µL, e 16 é o número de quadrantes contados. O diluente de Türk lisa as hemácias e cora os núcleos. Se você usar água destilada pura, as hemácias também lisam, mas os leucócitos incham e estouram. Já vi isso acontecer em laboratório clandestino em 2017, quando o operador não tinha treinamento. O resultado veio com leucócitos abaixo de 500 — erro de contagem por citólise nuclear.

Ferramentas e diluentes

A câmera de Neubauer padrão tem duas câmaras, cada uma com grid de 9 mm². O quadrante central, onde se conta leucócitos, mede 1 mm² e é dividido em 16 quadradinhos de 0,0625 mm² cada. A profundidade da câmara é 0,1 mm quando a tampa de vetro selada. Isso dá volume de contagem de 0,01 µL por quadrante grande. O diluente de Türk contém ácido acético 1%, azul de metileno 0,1%, e cloreto de sódio 0,9%. A fórmula é simples, mas a proporção importa. Se o ácido acético estiver abaixo de 0,8%, as hemácias não lisam completamente e ficam como falsos leucócitos. Se estiver acima de 1,2%, os núcleos perdem cor e você perde células na contagem.

Tem o diluente de ammonium chloride também, chamado de líquido de Hayem. Funciona bem para contagem diferencial com contraste de fase. Não cora, só lisa. Se você quiser ver morfologia, usa esse. Para contagem total, Türk é mais rápido.

O método passo a passo

Pega sangue venoso com EDTA 1,5 mg/mL. Vortexa por 30 segundos. Pega microhematocrito ou pipetaPasteur calibrada, aspir a 10 µL de sangue, espreme no tubo com 190 µL de diluente Türk. Mistura por 10 minutos. Se usar pipeta de Pasteur, o volume fica impreciso — erro de até 15%. Use micropipeta de 10 µL com ponta nova. Carrega a câmara: toca a ponta na borda do grid, deixa o líquido subir por capilaridade. Não enche demais, senão transborda e altera o volume. Não deixa faltar, senão forma bolha de ar e o grid não preenche. Eu sempre faço duas câmaras separadas e conto ambas. Se o resultado diferir mais de 10%, repito a contagem.

A contagem em si leva de 15 a 25 minutos, dependendo da faixa de leucócitos. Se estiver acima de 20.000/µL, dilui 1:50 em vez de 1:20. Se estiver abaixo de 2.000/µL, conta todos os quadrantes das duas câmaras e usa fator de correção. Leucopenia grave exige paciência — eu já perdi 40 minutos contando 87 células em campo visual.

Erros comuns e como evitar

O principal erro é aguar o sangue antes de diluir. O sangue com EDTA deve ser usado dentro de 6 horas em temperatura ambiente. Após isso, os leucócitos começam a degenerar e a contagem cai. Já vi resultado de 3.200 cair para 1.800 só por aguardar overnight na bancada. Outro erro é contar células fora do quadrante. Se a célula tocar na linha superior ou esquerda, conta. Se tocar na inferior ou direita, não conta. A regra é consistente, mas exige treino. Em 2018, fiz curso de 16 horas com patologista e demorei duas semanas para ganhar confiança nessa regra de borda.

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Bolha de ar na câmara é fatal. Se aparecer, descarta a câmara, limpa com álcool 70%, seca com papel macio, e recarrega. Eu já contei bolha como leucócito uma vez e o resultado veio com 45.000 — falso leucocitose. O paciente foi encaminhado para oncologia por engano. Depois de dois dias, refiz a contagem manual e o valor real era 7.200. Erro grave, lição permanente.

Automação versus manual

O hematology analyzer moderno conta 50 mil células por segundo com fluorescência e impedância elétrica. A precisão é de ±2% para leucócitos totais. O custo por teste cai para R$ 0,35 com reagente genérico. Mas quando o equipamento quebra, ou quando há interferências como crioglobulinas, lipemia severa, ou agranulocitose com blastos, o método manual ainda é relevante. As crioglobulinas precipitam em temperatura baixa e obstruem os orifícios de contagem. O analisador lê como ruído e subestima os leucócitos em até 30%. A solução é pré-aquecer a amostra a 37°C antes de injetar. Já vi laboratório ignorar isso e reportar leucopenia falsa em paciente com mieloma múltiplo.

A lipemia severa turva o meio e interfere na contagem óptica. Diluir a amostra 1:2 em soro fisiológico resolve temporariamente. Mas isso também dilui os leucócitos, então a fórmula deve ajustar o fator de diluição. Se você esquecer, o resultado vem 50% menor que o real.

Quando confiar no manual

Se o analisador flagra erro de linha de base, ou se o gráfico de dispersão mostrar população atípica, o hemocita metrico manual é o padrão-ouro para confirmação. A confiança vem da repetição: conte duas vezes, calcule o desvio padrão, e se o CV ficar abaixo de 5%, o resultado é confiável. Em casos de leucemia aguda com blastos, a contagem manual permite classificação morfológica simultânea. O analisador diferencia linfócitos de blastos com dificuldade — especialmente se houver fragilidade citoplasmática. A lâmina corada com Giemsa mostra detalhes que a fluorescente não capta.

O custo do método manual é tempo e expertise. Um operador treinado conta 30 leucócitos em 20 minutos com CV de 4%. Um iniciante leva uma hora e o CV sobe para 12%. A diferença é visível quando você compara com o analisador: desvios acima de 15% exigem revisão e, se persistirem, envio para referência externa.

Referências e calibração

O College of American Pathologists (CAP) recomenda controle diário com material certificado. A calibração da câmera Neubauer deve ser verificada a cada 6 meses com micrômetro de platina. O desvio aceptável é de ±2% na área do grid. Se ultrapassar, a câmara deve ser substituída. Para diluente, a norma ISO 15189 exige controle de qualidade de lotes. O pH do Türk deve estar entre 6,8 e 7,2. Teste com papel de indicador a cada novo lote. Variações de pH afetam a lisagem de hemácias e a integridade nuclear.

Se o laboratório não tem acesso a esses controles, o método manual ainda funciona, mas a margem de erro sobe para 10-15%. Em clínica geral, isso pode significar diferença entre diagnosticar infecção bacteriana ou viral. A escolha entre automação e manual é estratégica, não apenas técnica.