Conto de terror para copiar: A BONECA DO MAL | Contos de terror em ...
Conto de Terror Para Copiar
O elevador do prédio parou entre o terceiro e o quarto andar às 3h47 da manhã. Não foi uma tragédia. Foi apenas um problema técnico, dos que acontecem todo dia em prédios com mais de quarenta anos e manutenção feita só quando as pessoas começam a reclamar alto. Marcos saiu do elevador e ficou no corredor do terceiro andar porque a porta não fechou completamente. Ficou ali, encostado na parede fria, esperando o zelador.
Não tinha sinal de celular no corredor. Claro que não tinha. O prédio antigo era cheio de paredes grossas e a torre de telefone ficava do outro lado da cidade. Marcos ficou sentado no chão, de costas para a parede, e começou a contar os azulejos do piso. Dezesseis fileiras por dezoito colunas. Trezentos e sessenta e quatro azulejos no total. Doze deles tinham uma rachadura. Ele sabia disso porque trabalhava como pedreiro antes de mudar de vida, e o hábito de observar detalhezinhos ruins nunca sai mesmo quando a pessoa resolve se mudar pra outra área.
Foi nesse momento que ele ouviu o som.
Vinha de dentro do elevador. Não era um estrondo, nem um grito. Era algo muito mais suave. Um som de passos. Lentos. Deliberados. Como alguém caminhando com sapatos molhados sobre o concreto.
Marcos olhou pela fresta da porta do elevador. A luz estava apagada dentro dele. Mas ele viu os pés. Dois pés descalços, pálidos, com os dedos meio curvados, como se a pessoa estivesse andando de ponta-costa. Eles pisavam no mesmo lugar repetidamente. Avançavam alguns centímetros e voltavam. Avançavam e voltavam. Avançavam e voltavam.
Ele travou. Não tentou correr, não tentou chamar ajuda. Apenas ficou ali parado, contando os segundos entre cada passo. Quatro segundos. Sempre quatro segundos entre um passo e outro. Como um relógio com mola ruim.
O elevador começou a descer sozinho.
Os pés seguiam descendo junto com o assoalho, sem sair do lugar. A porta ainda estava entreaberta. Marcos pôde ver o vão ficando cada vez menor. O chão do elevador estava coberto de água. Não água limpa. Água escura, grossa, que refletia a luz do corredor de um jeito que parecia errado. Como se a superfície não fosse plana.
Quando o elevador chegou ao térreo, a porta se abriu completamente. Marcos esperou ver alguém saindo. Esperou que fossem aqueles pés, ou qualquer coisa racional que pudesse ser explicada. Nada saiu. O elevador ficou vazio. Vazio de verdade. Sem ninguém, sem água, sem luz. Apenas o buraco preto lá embaixo, as paredes sujas, e o cheiro de algo que não queria ser identificado.
A porta fechou. O elevador subiu de novo. Parou no terceiro andar. As portas se abriram. Marcos estava sentado no chão do corredor, ainda onde estava. Nunca tinha saído dali. A porta se fechou de novo e desceu.
Na manhã seguinte, o zelador encontrou Marcos dormindo no corredor. Disseram a ele que o elevador tinha ficado parado por cerca de vinte minutos. Que a porta não havia aberto e fechado nenhuma vez durante esse tempo. Que os técnicos não encontraram nenhum vestígio de água, de pegadas, ou de qualquer coisa que não fosse parte do funcionamento normal do equipamento.
Marcos acredita nisso. Ele precisa acreditar. Mas toda vez que entra num elevador, conta os azulejos. E espera que, quando a porta abrir, não tenha ninguém esperando do outro lado com os pés molhados.