Entenda de verdade o corte no parto normal
O corte no parto normal, tecnicamente chamado de episiotomia, é uma incisão cirúrgica feita no períneo — aquela região entre a vagina e o ânus — durante a fase de expulsão. Não é um procedimento opcional que se faz por conveniência. Tem indicação clínica específica, e o problema é que durante décadas foi praticado de forma rotineira, quase como se fosse parte do manejo obrigatório do parto, o que não é. Hoje a literatura é clara: a episiotomia deve ser reservada para situações em que o benefício para a mãe ou para o bebê supera os riscos. Isso significa pouquíssimas indicações reais. Ainda assim, na prática clínica brasileira, a taxa de episiotomia em partos normais continua acima de 30% em muitos hospitais, o que é completamente incompatível com as recomendações da OMS e do Ministério da Saúde desde 2012.
corte do parto normal: quando é realmente necessário
As indicações válidas são bem específicas: sofrimento fetal agudo que exige saída imediata, necessidade de instrumental de força (fórceps ou ventosa), partos pélvicos, episótomo anterior que precisa ser estendido de forma controlada, e macrocefalia fetal com risco real de laceração perineal grave. Fora isso, não tem indicação. Se o obstetra ou a parteira estiver pensando em cortar porque "o bebê está grande" ou "a vagina está apertada", aí estão confundindo falta de preparo com indicação cirúrgica. A técnica padrão é a episiotomia mediolateral, feita com tesoura de Kenyons ou similar, no ápice da contração, com a mão livre da assistente fazendo compressão perineal protetora. O corte é feito em ângulo de aproximadamente 60 graus em relação ao plano médio, evitando o trato anal. Existe também a variante mediana, mas ela carrega risco significativamente maior de extensão até o esfíncter anal e o reto, e a maioria das sociedades médicas hoje a desaconselha justamente por isso. Lacerações de terceiro e quarto grau são o resultado colateral mais temido, e elas impactam diretamente a continência fecal e urinária da mulher a longo prazo.
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Cheguei a lidar com um caso que ilustra bem o absurdo de se fazer corte por costume. Tinha uma paciente em trabalho de parto com dilatação completa, pujança adequada, posição occiput anterior e cabeça já em descendência. O recém-formado na plantão queria fazer episiotomia rotineira porque "era a primeira vez que ia assistir um parto sozinha". A parteira responsável estava do lado de fora resolvendo um problema administrativo. Eu estava na sala como observadora, já que fazia parte de um projeto de pesquisa sobre práticas obstétricas. O momento de expulsão estava chegando, e eu fiz um pedido simples: deixa a cabeleira emergir primeiro, sem nenhum instrumento, só observando. A cabeça nasceu com 8 centímetros de diâmetro, a mãe conseguiu controlar a força expulsiva, e o períneo esticou naturalmente sem precisar de corte. O bebê saiu inteiro, com períneo íntegro. Se tivessem cortado, teria sido pura iatrogenia. Esse episódio me mostrou de novo como o medo e a falta de confiança no parto fisiológico são maiores responsáveis por incisões desnecessárias do que qualquer indicação real. A recuperação do corte do parto normal não é trivial. Dor local que persiste por semanas, dificuldade para sentar, risco de deiscência de sutura em cerca de 5 a 10% dos casos quando há infecção ou técnica ruim, e em alguns casos dor persistente na relação sexual meses depois. A sutura geralmente é em camadas, com fio absorvível monofilamento ou convencional, dependendo da preferência do profissional e do tipo de incisao. A recomendação atual de muitas sociedades é que, quando a episiotomia é inevitável, a reparação deva ser anatômica, com realinhamento preciso dos bordos, e que o seguimento pós-parto inclua avaliação do períneo pelo menos uma vez nas primeiras duas semanas, o que na prática raramente acontece em matrizes de atenção básica com alta carga de trabalho.
O ponto que a maioria das gestantes não sabe é que existe uma alternativa concreta ao corte: o manejoexpectativo do períneo. Consiste em não intervir ativamente, permitir que a cabeça emerfa lentamente, orientar a parturiente a fazer respirações curinhas ("ofegantes") no momento do coroa, aplicar compressões térmicas mornas no períneo durante as contrações, e apenas conduzir o nascimento sem tração. Vários estudos, incluindo revisões Cochrane, mostram que essa abordagem reduz drasticamente a necessidade de episiotomia e de lacerações graves comparado à prática rotineira de corte. O tempo adicional que isso pode acrescentar ao segundo período do parto varia de caso para caso, mas em geral não ultrapassa alguns minutos, e o ganho em termos de integridade perineal é enorme. Um erro comum entre profissionais mais jovens é tentar prever o tamanho do períneo antes do parto. Isso simplesmente não funciona. O períneo é tecido vivo, altamente distensível, e a capacidade de alongamento depende de fatores que só se manifestam durante a expulsão: volume do apresentado, velocidade de emergência, tonus muscular da mulher no momento, e até a posição adotada. Tentar avaliar "se vai caber" antes do momento decisivo é pura especulação que frequentemente leva a cortes desnecessários por excesso de cautela.
Também é importante destacar que o corte não protege o bebê. Essa é outra crença enraizada que não tem sustentação. Alguns profissionais acreditam que a incisão "facilita a saída" da criança, mas não há evidência de que episiotomia rotineira reduza trauma neonatal. Pelo contrário: em partos com macrossomia ou cabeça grande, o corte pode até aumentar o risco de lesões perineais graves para a mãe sem qualquer benefício proporcional para o recém-nascido. A única situação em que o corte pode beneficiar o bebê é na extração instrumentada, onde a incisão oferece espaço adicional para a passagem do instrumento, mas mesmo aí as diretrizes atuais são restritivas. Se você está gestante e quer evitar o corte do parto normal, o caminho mais seguro é escolher uma unidade de saúde com política de humanização do parto ativa, não apenas no papel. Verifique se a instituição segue o Protocolo de Assistenciao ao Parto Norml do Ministério da Saúde, que recomenda taxa de episiotomia inferior a 10%. converse com a equipe antes do trabalho de parto, deixe suas preferências registradas no prontuario, e se possivel, tenha uma doula ou acompanhante experiente que possa defender sua posição no momento do parto. Nada disso garante zero incisoes — às vezes o corte é realmente necessario e salvador — mas aumenta enormemente suas chances de ter um parto com menor intervencao cirúrgica e melhor recuperacao perineal.