Criação De Aranhas - Aranhas como Animais de Estimação: Cuidados e Ética na Criação
Aranhas como Animais de Estimação: Cuidados e Ética na Criação

O básico que ninguém te conta

A criação de aranhas é mais simples do que a maioria dos iniciantes imagina, mas também muito mais traiçoeira do que parece quando você não tem paciência para ler antes de comprar o primeiro tanque. Eu comecei há uns quinze anos atrás com uma Phrynusops elegans que veio num classificado de um site que já não existe mais, e desde então fui acumulando erro sobre erro até entender o que realmente importa. A maioria das pessoas erra na humidity, não no alimente. Esse é o primeiro insight que deveria estar em qualquer manual, mas raramente está.

O que é criação de aranhas de verdade

Criação de aranhas é manter espécies de aranhas em cativeiro de forma controlada, seja para observação, seja para reprodução comercial ou amadora. O termo "criação" aqui se refere tanto ao hobby quanto à produção, dependendo do contexto. No Brasil, a maioria das pessoas que entra nessa atividade começa com espécies neotropicais porque são acessíveis, relativamente resistentes e não exigem climatização sofisticada como as espécies do deserto ou da floresta tropical fechada. As espécies mais comuns no início são as do gênero Phormingochilus, Brachypelma, e algumas tarântulas sul-americanas como as do gênero Grammostola. Cada uma tem necessidades diferentes, e tratar todas iguais é o jeito mais rápido de perder seus animais.

Montando o setup

Você precisa de um recipiente com ventilação adequada, substrato, um esconderijo e um prato raso para água. Isso soa simplório demais para algo que custa entre R$80 e R$200 por indivíduo instalado corretamente, mas é basicamente isso. O erro número um é usar recipientes herméticos. Aranhas respiram pelos livros pulmonares, que funcionam por difusão de gases, e um recipiente totalmente fechado faz a umidade estagnar até criar mofo no substrato e problemas respiratórios no animal. Eu perdi dois indivíduos de Poecilotheria regalis no primeiro ano justamente por isso, porque eu achava que selar o terrário ajudava a reter umidade. Na verdade, o que acontece é o oposto: a água condensa nas paredes, escorre, e quando o animal entra em contato com essa água parada, desenvolve micose cutânea. A solução foi trocar os recipientes por caixas de plástico perfuradas com tampa, furadas com prego quente nos lados e na tampa, e adicionar um peujo de lã de aço para melhorar a circulação sem perder toda a umidade. Quanto ao substrato, a regra geral é usar fibra de coco ou vermiculita na proporção de 2:1, com profundidade suficiente para que a aranha possa se enterrar se quiser. A maioria das espécies terrestres cava, e tirar esse comportamento é estressante para o animal. No caso de aranhas arborícolas, o substrato pode ser mais raso, mas ainda assim precisa de uma camada de pelo menos três centímetros para reter umidade e abrigar microorganismos benéficos que quebram a matéria orgânica.

Alimentação e frequência

Alimente aranhas adultas a cada sete a quatorze dias, dependendo da espécie e do tamanho. Filhotes e juvenis precisam ser alimentados com mais frequência, geralmente a cada três a cinco dias, porque estão em crescimento ativo. O alimento padrão são grilos, baratas e, em alguns casos, mariposas ou larvas de farinha. O problema é que muitos criadores iniciantes cometem o erro de superalimentar, especialmente com grilos, que são mais gordurosos do que baratas Tenebrio. Uma fêmea adulta de Brachypelma smithi, por exemplo, pode viver dez a quinze anos com alimentação quinzenal e sem nunca ficar acima do peso. Já vi casos de indivíduos que morreram de obesidade hepática porque o dono alimentava todo dia achando que estava "cuidando bem". Outro ponto importante: nunca deixe insetos vivos no terrário junto com a aranha por mais de vinte e quatro horas. Um grilo faminto pode reagir e picar uma aranha que acabou de fazer a muda, e nesse momento o exoesqueleto ainda está mole. Eu perdi uma Chiloquin octoaculeata assim, num momento em que eu estava confiante demais. Desde então, removo qualquer inseto não consumido em no máximo doze horas, e isso vale para qualquer espécie.

Controle de temperatura e umidade

Isso varia drasticamente por espécie, mas como regra prática, a maioria das tarântulas neotropicais se desenvolve bem entre 24°C e 28°C com umidade entre 60% e 80%. Espécies de regiões mais secas, como algumas do gênero Ceratogyrus, preferem 40% a 60% de umidade. O erro comum é generalizar. Você não pode colocar uma Theraphosa blondi e uma Cyriopagopus schmidti na mesma sala e esperar que ambas fiquem saudáveis. Cada uma tem suas necessidades, e misturar ambientes é uma receita para perder ambos os indivíduos em poucos meses. Para medição, invista em um higrômetro e termômetro digitais baratos. Os analógicos descalibram rápido e você acaba confiando em números errados. Eu já vi gente usando hidrômetros de jardim que mostram 70% quando a realidade é 45%, e aí ela molha o terrário toda semana à toa, criando um ambiente propício para ácaros e fungos.

Muda: o momento mais crítico

A muda é o período em que a aranha troca o exoesqueleto. Antes dela, o animal fica apático, pode recusar comida por uma ou duas semanas, e começa a excretar um fluido esbranquiçado que é o prepúicio pré-muda. Nesse momento, pare de alimentar. Muitos donos insistem porque acham que o animal está doente, mas forçar a alimentação nesse período só causa estresse e pode levar a aranha a rejeitar a muda completamente, o que é frequentemente fatal. Depois da muda, o animal fica vulnerável por alguns dias enquanto o novo exoesqueleto endurece. Não mexa no terrário, não tente tirar o exoesqueleto antigo, e não ofereça comida até que ele retome a atividade normal. Em média, isso leva de três a sete dias para espécies de tamanho médio. As maiores, como as do gênero Theraphosa, podem levar até duas semanas.

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Dica prática que aprendi na marra

Quando sua aranha está prestes a fazer a muda, marque a data no calendário e tire uma foto dela. Parece óbvio, mas depois de alguns meses você esquece qual era a aparência anterior, e ao comparar a foto com o animal pós-muda, você consegue avaliar rapidamente se a muda foi completa ou se faltou alguma peça. Eu já passei sufoco porque não me lembrei que uma perna tinha ficado presa no exoesqueleto antigo, e só percebi dias depois quando vi que a aranha arrastava uma pata murcha. A partir desse episódio, virei maníaco por registros fotográficos e anotações.

Reprodução

Reproduzir aranhas é um processo que exige conhecimento específico por espécie. O macho adulto desenvolve esporões tibiais nas pernas dianteiras, que são usados para transferir esperma para a fêmea durante o acasalamento. Antes disso, o macho tece um web de esperma e o transfere para os pedipalpos. A fêmea recebe o esperma e, semanas ou meses depois, pode depositar ovos em um saco telurífico. O maior desafio na reprodução é o dimorfismo sexual. Machos de muitas espécies ficam agressivos e ativos na busca por parceiras, e nesse período eles são frágeis. Um macho de Brachypelma que passa vinte dias procurando fêmeas sem encontrar pode morrer de estresse e desidratação. Eu já tive três machos que morreram durante a estação reprodutiva simplesmente porque eu não havia calculado o tempo necessário para o pareamento. A lição foi: se você vai tentar reproduzir, pesquise o ciclo reprodutivo da espécie antes, e não entre de cabeça achando que vai funcionar por tentativa e erro.

Erros que todo mundo comete pelo menos uma vez

Manipular aranhas com as mãos nuas logo após a refeição. Elas podem regurgitar se forem perturbadas, e isso pode ser letal para espécies pequenas. Aguardar pelo menos quatro horas após a alimentação antes de qualquer interação. Usar substrato de areia para espécies que cavam. A areia se compacta, não retém umidade de forma uniforme, e partículas podem entrar nos livros pulmonares do animal. Use fibra de coco ou terra vegetal SEM fertilizante. Fertilizante é veneno para aranhas.

Achar que aranhas são animais de estimação para interação. Elas não gostam de serem pegadas, não reconhecem donos, e o contato frequente é uma fonte desnecessária de estresse. O contato deve ser mínimo e apenas quando estritamente necessário, como para limpeza do terrário ou transferência entre gaiolas.

Legislação no Brasil

No Brasil, a criação de aranhas brasileiras é regulamentada pelo IBAMA. Espécies nativas exigem autorização para criação, comércio e transporte. Espécies exóticas também podem exigir registro, dependendo da lista CITES. Antes de adquirir qualquer espécime, verifique se a espécie está na lista de protegidos e se o vendedor tem documentação em ordem. Muitas vezes, o criador informal não sabe que está vendendo um animal sob regulamentação, e o comprador se vê com um problema legal nas mãos. Eu conheço um caso de alguém que comprou uma Chilobrachys natan que se revelou estar em apêndice III da CITES sem a devida documentação, e ele teve que entregar o animal ao IBAMA.

Conclusão

Criação de aranhas não é difícil, mas exige paciência e pesquisa prévia. Cada espécie é um mundo diferente, e generalizações são perigosas. Se você está começando, escolha uma espécie conhecida por ser resistente, como uma Grammostola rosea ou uma Brachypelma hamorii, e construa seu conhecimento antes de migrar para espécies mais exigentes. O mercado brasileiro tem boas opções, mas também tem muita informação errada circulando. Desconfie de qualquer pessoa que vender aranha dizendo que "é fácil de cuidar" sem dar detalhes específicos sobre temperatura, umidade e alimentação. Se não sabe os números exatos, provavelmente não sabe o que está vendendo.