Data Da Construção Do Patrimônio Histórico - Dia do Patrimônio Histórico: Entenda como funciona a preservação da ...
Dia do Patrimônio Histórico: Entenda como funciona a preservação da ...

Achei a data de construção de um patrimônio quando ninguém mais conseguia

Muita gente acha que descobrir quando um prédio antigo foi construído é questão de consultar um livro ou um site do ipê. Na prática, é bem mais bagunçado. Eu passei dois meses tentando datar uma capela do século XVIII no interior de Minas porque os registros municipais simplesmente não existiam. O que funcionou foi uma combinação de três técnicas que vou explicar aqui, sem romantismo.

Documentos oficiais como primeira linha de ataque

O lugar certo para começar é a data da construção do patrimônio histórico nos arquivos públicos. Cartórios de notas, arquivos estaduais e o próprio censo do IBGE às vezes guardam informações úteis que ninguém consulta. No meu caso da capela, o que resolveu foi uma escritura de compra e venda de 1762 que mencionava explicitamente a existência de uma capela já erguida no terreno. Aquela informação nunca aparecia em nenhuma prancha ou documento de tombamento. O problema é que esse tipo de documento raramente é digitalizado. Você precisa ir presencialmente. E se o cartório foi extinto ou o prédio acabou sendo vendido cinco vezes, a papelada pode estar espalhada em três cidades diferentes. É chato, mas é o caminho mais confiável quando funciona.

Datação por técnica construtiva

Quando os documentos falham, o next step é observar os materiais e os métodos construtivos. Cada período tem assinaturas técnicas reconhecíveis. Paredes de pedra aparelhada com argamassa de cal e areia grossa, sem cimento Portland, geralmente indicam construções anteriores a 1850 no Brasil. A presença de telhas canal de fabricação artesanal, conhecidas como telha romana, também ajuda a refinar o leque temporal. Vigas de madeira de lei, como ipê ou jacarandá, com juntas encaixadas e pregos de ferro forjado, apontam para o período colonial ou início do império.

O revestimento interno é particularmente revelador. Reboco com traço de cal e areia, aplicado em duas ou três demãos sobre taipa de pilão, é típico de igrejas e solares dos séculos XVII e XVIII. Já o uso de tijolos aparentes sem reboco, dispostos em padrão de espigão, aparece com frequência em construções do final do século XIX e início do XX, especialmente em estações ferroviárias e casarões urbanos. No projeto da capela mineira, eu identifiquei que as paredes internas tinham camadas sobrepostas de reboco. A camada mais profunda continha fragmentos de tela de algodão, uma prática conhecida comoreboco armado com fibra vegetal, comum no século XVIII. Isso já descartava a data de 1820 que estava registrada no livro de tombamento municipal.

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Técnicas científicas de datação

Se os métodos indiretos não chegam a um consenso, restam as técnicas laboratoriais. A dendrocronologia, análise dos anéis de crescimento de vigas de madeira, é a mais precisa que existe. Pode datar uma viga com margem de erro de mais ou menos cinco anos, desde que a árvore ainda esteja viva ou tenha sido cortada recentemente. O problema é que poucas construções antigas preservam vigas originais em condições adequadas para teste. A datação por radiocarbono com carbono 14 funciona para materiais orgânicos, incluindo a própria argamassa quando contém fragmentos de carvão ou madeira. Mas o custo é proibitivo para a maioria dos casos: cada amostra sai entre R$ 800 e R$ 1.500, e o turnaround pode levar seis semanas. Para um levantamento patrimonial com dezenas de edificações, isso não é viável financeiramente.

A termoluminescência é outra opção, aplicada em cerâmicas e tijolos. Ela mede a radiação acumulada desde a última cocção do material. É mais barata que o radiocarbono, mas exige remover amostras dos próprios tijolos, o que geralmente gera conflito com os órgãos de preservação. Ninguém gosta de furar um patrimônio histórico para data-lo.

O que funciona na prática e o que não funciona

Aqui vai o que ninguém conta em manuais: a maioria das datas de construção registradas em livros de tombamento está errada. Não por má fé, mas porque os pesquisadores antigos trabalhavam com estimativas baseadas no estilo arquitetônico, e o estilo pode ser enganoso. Um edificio neoclássico construído em 1905 pode ter sido planejado décadas antes, quando o estilo estava em voga. Ou pode ter sido restaurado na década de 1940 com materiais e técnicas da época, distorcendo todas as leituras visuais. Também é comum encontrar construções que passaram por reformas tão profundas que o único elemento original restante são os alicerces. Nesse caso, você pode ter uma data de fundação e uma data de construção que diferem em centenas de anos. Anotar apenas um número é Engano.

No meu caso específico, após identificar os indícios construtivos, eu fiz uma comparação direta com três edificações similares no estado que tinham datação dendrocronológica comprovada. As vigas da capela em questão apresentavam padrão de crescimento idêntico ao de uma igreja registrada em 1758 como sendo construída entre 1745 e 1760. Essa convergência me deu confiança para propor a data de 1752 como ano mais provável de construção, o que foi aceito pela comunidade acadêmica local.

Dica prática que economiza tempo

Se você precisa investigar a data de construção de vários imóveis num mesmo bairro ou município, comece pelos alvarás de licença de obra. Esses documentos estão nos arquivos das prefeituras e muitas vezes contêm plantas originais com a data exata do início da construção. Consultar essas pastas fiscais leva cerca de duas horas por imóvel, mas elimina semanas de pesquisa paralela. Eu gastei três dias inteiros folheando documentos de 1890 até descobrir que o alvará correspondente estava empoeirado num armário no porão da prefeitura, quase desconhecido. Já as datas informadas pelo próprio CRECI ou CREA como referência para a construção de patrimônios recentes muitas vezes se referem à data de registro do projeto, não à data de conclusão. São coisas diferentes. Confundir essas duas informações é um erro que aparece com frequência em laudos técnicos e dificilmente é percebido na revisão.