Por que o desenho digital mudou tanto nos anos 2010
A virada foi mais prática do que estética. Em 2010, a maioria dos ilustradores ainda trabalhava com canetas gráficas em tablets de entrada, muitos deles Wacom Bamboo ou modelos antigos de Cintiq, rodando Photoshop CS5 ou versões iniciais do Painter. A transição não foi rápida, mas ela foi real. Entre 2012 e 2015, o iPad com o Apple Pencil ainda não existia, e o Procreate nem tinha nascido. O que existia eram ferramentas que funcionavam, ainda que com limitações chatas. Uma coisa que quase ninguém menciona é o impacto da internet discada e do ADSL lento nos arquivos entregues. Ilustradores precisavam compactar, salvar em JPEGs de qualidade média e enviar por email. Isso moldava decisões de composição de forma muito mais direta do que muitos jovens artistas atuais imaginam. Um desenho cheio de detalhes finos simplesmente não sobrevivia a um upload de 400 megas numa conexão de 3 megabits. A restrição técnica ditava o estilo.
Como fazer desenho anos 2010 com o equipamento que você provavelmente tem
O primeiro passo é entender o que você realmente precisa, porque há um mito enorme de que o equipamento moderno compensa a falta de processo. Ele não compensa. O que funcionava nos anos 2010 era uma combinação de: mesa gráfica, software que respondesse bem a pressão e ângulo, e um fluxo de trabalho organizado desde o início. Se você quer reproduzir o workflow original, comece com estas configurações. Abra seu programa e defina a resolução do canvas em 300 DPI para impressão e 72 DPI apenas para web. O tamanho varia, mas algo em torno de 2500 x 3500 pixels era o padrão para trabalhos que precisavam sair em revista ou material editorial. Canvas maiores só aumentavam o tempo de renderização e travavam computadores mais fracos da época.
Na hora de fazer o traço, use pincéis com opacidade controlada por pressão. A diferença entre um desenho anos 2010 e um que parece amador é quase sempre a variação de pressão no traço. Quando a pressão não está mapeada corretamente, tudo fica com o mesmo peso visual, parecendo um desenho vetorial sem alma. Configure o pincel básico para responder entre 10 e 90 unidades de pressão, nunca deixe o mínimo zero. Para o colorido, a técnica mais usada era pintura em camadas separadas: uma camada base com a cor plana, depois uma camada em modo Multiplicar para sombras, e outra em Modo Sobrepor ou Luz Suave para luzes. Isso permitia corrigir uma sombra sem estragar a cor original. Muitos iniciantes fazem o oposto e pintam tudo numa única camada, o que gera perda de informação cromática após duas ou três correções.
Uma limitação séria que você vai enfrentar se tentar recriar isso hoje é a diferença entre hardware atual e o fluxo que era necessário em 2012. Computadores novos permitem camadas infinitas, undo ilimitado e renderização em tempo real. O problema é que isso cria uma falsa sensação de segurança. O artista passa o tempo todo ajustando em vez de decidir. Nos anos 2010, cada clique de cancelamento custava tempo de recarregamento. Você pensava duas vezes antes de desfazer. Isso te deixava mais firme nas decisões. Um erro comum é tentar usar pincéis modernos de texturas realistas como se fossem os pincéis padrão da época. Os pincéis de 2010 eram essencialmente soft rounds com ajustes manuais de dureza e dispersão. O resultado era mais limpo e mais fácil de controlar do que os pacotes atuais de centenas de texturas pré-configuradas. Se quiser começar do jeito certo, desmonte qualquer biblioteca de pincéis e construa um set básico de quatro pincéis: um soft round para base, um hard round para traço, um aerógrafo para gradientes e um pencil com textura leve para sketch.
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O acabamento final era feito com uma técnica que chamavam de "crisp outline", basicamente um traço preto ou escuro sobre as formas pintadas para dar definição. Hoje em dia isso é visto como ultrapassado por muitos, mas era uma solução prática para quem trabalhava com baixíssima resolução de tela. A solução alternativa, mais adequada ao que você tem disponível agora, é trabalhar com contraste interno ao invés de contorno, o que economiza tempo e evita aquele visual genérico que invade o Behance. Se você quer baixar recursos que funcionam nesse fluxo, a comunidade brasileira ainda mantém pacotes de pincéis compatíveis com Photoshop e Clip Studio Paint espalhados em fóruns e no DeviantArt. Procure por packs com data anterior a 2016 para evitar pincéis otimizados para hardware moderno que vai travar no seu setup. Um pack que eu recomendo testar é o "PS Brush Pack 2013" do usuário brasileiro "desenhandoempixel", que é leve e funciona bem em versões CS5 até CC 2019.
O arquivo original pode ser encontrado no tópico dedicado do fórum PixelArtBR, que ainda recebe atualizações esporádicas. O link direto é desenhandoempixel.deviantart.com/gallery/51283421. Não adianta só baixar. Aprenda a mapear a pressão dentro do próprio software, porque o pincel sem configuração de sensibilidade é só um ícone na paleta.
O que esse estilo ainda tem de útil hoje
O desenho anos 2010 não é uma moda passageira. Ele representa um momento em que a técnica vinha antes da ferramenta. A restrição de processamento forçava o artista a pensar em camadas, valores e composição de forma mais consciente. Quem aprendeu nesse período tem uma base mais sólida do que quem começou diretamente no Procreate com pincéis que já fazem metade do trabalho. O lado negativo é que esse formato puro pode parecer datado em mercados que valorizam ilustrações com texturas fotográficas, gradientes complexos e efeitos de iluminação volumétrica. Para esses casos, o fluxo dos anos 2010 precisa ser adaptado, não abandonado. A combinação do traço Limpo com texturas overlay e blending modes avançados resolve boa parte dessa limitação sem perder a estrutura original.
Se você está começando agora e quer entender de verdade como se desenhava nessa era, o caminho mais rápido é pegar uma referência simples, limitar-se a quatro camadas e três pincéis, e terminar o trabalho sem usar undo mais de cinco vezes. O resultado não vai ser perfeito, mas vai ser mais consistente do que qualquer tutorial que você assistir. O desenho anos 2010 ensinava isso sem precisar chamar de nada.