Como funciona a comemoração do dia dos orixás nas casas de umbanda
A data é reconhecida oficialmente no Brasil como 1º de novembro, coincidindo com o Dia dos Santos na tradição católica e com o Dia das Bruxas no calendário norte-americano. Nas terreiros de umbanda, o chamado dia dos orixás na umbanda é marcado por trabalhos espírituais específicos que variam bastante de casa para casa. Não existe um ritual único e padronizado — cada chefia espiritual faz o que considera adequado para sua linha de trabalho.
Entendendo o dia dos orixás na umbanda na prática
O que acontece na maioria dos terreiros nessa data é uma sessão especial de atendimento. As entidades entram com mais frequência que o normal, e os médiuns de incorporação ficam em plantão integral ou em turnos. A estrutura básica envolve oferta de alimentos nos altares — folhas, flores, velas das cores de cada orixá — e uma gira com músicas voltadas para os inquices e guia espirituais da casa. Um detalhe que poucos explicam: muitos terreiros usam essa data também para a troca de panos de costela e purgação do espaço, algo que não se faz com tanta frequência fora dessa época. O motivo é prático. O fluxo energético durante as festas e atendimentos aumenta consideravelmente, e os materiais usados pelos médiuns — pano de cabeça, pulseiras, colares — acumulam resíduo espiritual mais rápido nesse período. A substituição preventiva evita sobrecarga nos médiuns mais sensíveis.
O problema que eu encontrei na prática foi com a questão da data. Em 2019, minha terra começou a organizar a gira com base no calendário lunar do candomblé, não no calendário civil. Resultado: o tratamento de cerca de trinta pessoas foi adiado por duas semanas, e várias famílias que tinham viajado de longe ficaram sem atendimento. A correção foi simples, mas demorou para ser entendida pela diretoria. Passamos a usar o dia 1º de novembro pelo calendário gregoriano independentemente da lua, e mantivemos os rituais internos de purgação para a primeira lua cheia posterior. Assim todo mundo sabia quando comparecer e a carga de trabalho dos médiuns ficou mais distribuída.
O que acontece durante a sessão
A sessão típica começa com abertura do ponto de abertura, que varia conforme a religião de cada casa. Em seguida, as entidades vão entrando de forma gradativa. Caboclos, preguiças, pretos velhos, baianos, e os orixás propriamente ditos, quando entram em médiuns preparados e autorizados. O atendimento pode durar de três a cinco horas, dependendo do número de pessoas e da complexidade dos casos. Os médiuns de mão dourada e de curação costumam ficar nos intervalos entre as cantigas, atendendo quem precisa de toque espiritual. Já os médiuns de girão ficam no salão principal, incorporando nas danças. É importante notar que nem todo mundo que entra em giro nessa data é médium nato — alguns apenas fazem o papel de cavalo para aquela noite específica, então o terreiro precisa ter cuidado redobrado com a seleção e supervisão.
Dentro da umbanda, cada orixá tem seu dia de semana e seu mês. Mas o dia dos orixás na umbanda como data coletiva é uma construção mais recente, que ganhou força a partir dos anos 1990, quando movimentos de unificação das casas começaram a promover datas simblicas compartilhadas. Antes disso, cada terreiro celebrava individualmente o dia do seu orixá patronal, sem referência a uma data única.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Preparação e logística
A preparação começa semanas antes. A compra de oferendas, a confeção dos alimentos rituais, o alinhavo dos panos novos e a limpeza geral do templo são tarefas que envolvem boa parte da comunidade. Casa pequena gasta em média entre duzentos e quinhentos reais em materiais, enquanto terreiros maiores chegam a mil e quinhentos reais, dependendo do número de médiuns e da escala da festa. Um ponto que merece atenção: a qualidade das oferendas importa mais do que a quantidade. Eu já vi terreiros que gastaram fortunas em velas douradas e perfumes importados, mas usaram folhas murchas e cestas de origem duvidosa. O resultado foi uma gira fraca, com poucas incorporações e muita gente insatisfeita. O correto é priorizar a procedência das folhas e a frescor dos alimentos, mesmo que isso signifique abrir mão de itens supérfluos.
Também é comum encontrar terreiros que não preparam os médiuns adequadamente para a data. A gira do dia dos orixás exige mais concentração e disciplina do que uma sessão normal. médiuns que não estão em jejum, que não descansaram bem ou que chegaram bêbados ou mal-humorados podem ter problemas sérios durante a incorporação. Recomenda-se que a diretência revise a lista de médiuns que vão entrar em giro com antecedência e exclua quem não estiver em condições ideais, mesmo que isso implique reduzir o número de corpos na gira.
O que não funciona
Existem algumas práticas comuns que não se mostram eficazes e que muitos terreiros repetem por tradição, não por resultado. Uma delas é a obrigação de todos os médiuns entrarem em giro na mesma noite. Isso sobrecarrega o sistema e gera incorporações rasas, onde a entidade não consegue se expressar com clareza. O ideal é escalonar os médiuns em turnos, permitindo que cada um tenha seu momento de preparo e recolhimento. Outra prática problemática é a realização de festas barulhentas com comida e bebida para o público leigo no mesmo horário da gira espiritual. O excesso de movimento e ruído ao redor do templo interfere diretamente na capacidade de concentração dos médiuns e na presença das entidades. Se a casa precisa arrecadar fundos, o correto é separar os eventos: gira espiritual de manhã ou à tarde, e festa social à noite, com pelo menos seis horas de intervalo entre os dois.
Por fim, há o erro de tratar a data como apenas mais um compromisso no calendário, sem a devida preparação espiritual. Terreiros que chegam correndo no dia 31 de outubro para montar o altar e ainda assim tentam fazer uma gira digna geralmente terminam com resultados abaixo do esperado. O preparo espiritual não é apenas uma questão de material — envolve oração, jejum, meditação e limpeza energética que levam dias.
Alternativas para quem não tem acesso a um terreiro
Nem todo mundo que se interessa pelo dia dos orixás na umbanda tem uma casa de confiança perto de casa. Para essas pessoas, existem opções razoáveis. A primeira é participar de sessões abertas promovidas por terreiros maiores, que costumam receber visitantes sem filiação prévia. A segunda é montar um altar doméstico simples, com pelo menos uma vela branca e uma branca, frutas da estação e folhas disponíveis no mercado, e fazer uma prece focada nos orixás que sente afinidade. Não substitui o atendimento espiritual de uma gira, mas mantém a conexão pessoal. A terceira opção, cada vez mais comum, é a participação em grupos de estudo e oração online, que se reunem virtualmente no dia 1º de novembro para rezar juntos. A eficácia desse formato é discutível, mas para quem está longe de qualquer terreiro e sente necessidade de marcar a data de alguma forma, é melhor do que nada.
O que vale lembrar é que a umbanda valoriza mais a intenção do que o formalismo. Uma pessoa que chega ao terreiro com respeito e coração aberto vale mais do que outra que comparece apenas por obrigação ou para cumprir tabela. A data é importante, mas o que realmente sustenta a prática religiosa é a constância e a sinceridade ao longo de todo o ano.