Exemplo De Regencia Verbal E Nominal - Exercícios de Regência Verbal e Nominal | PDF | Gramática | Linguística
Exercícios de Regência Verbal e Nominal | PDF | Gramática | Linguística

Regência em português: o que ninguém te ensina direito

Muita gente confunde regência com concordância. São coisas diferentes. Regência é sobre qual complemento um verbo ou nome exige — se pede preposição, se pode ser direto, se mudou de sentido conforme a regência. O resto da gramática nem entra nessa conversa. Vou dar exemplos práticos primeiro, porque definições soltas não ajudam ninguém a escrever certo num e-mail ou num documento. Depois a gente conversa sobre os casos mais problemáticos.

Exemplo de regencia verbal e nominal

Aqui vai um exemplo bem concreto de cada um: Regência verbal: "O funcionário assistiu ao jogo" (verbo transitivo indireto, preposição "a") versus "O funcionário assistiu o colega" (verbo transitivo direto, sem preposição). O mesmo verbo, complementos completamente diferentes. Se você erra a regência aqui, muda quem faz o quê na frase.

Regência nominal: "A política é favorável aos colaboradores" — o adjetivo "favorável" exige a preposição "a". Não existe "favorável de", "favorável para", "favorável com". A preposição está travada no adjetivo. O mesmo vale para "acessível a", "contrário a", "necessário a". São combinações fixas que a língua estabeleceu e pronto. O que as pessoas geralmente erram não é a regra em si. É saber qual regência um verbo tem quando ele se encaixa em mais de uma. Vou listar os verbos que causam mais dor de cabeça no dia a dia.

Assistir: no sentido de "ver", exige "a" (assistir ao filme). No sentido de "prestar assistência", é direto (assistir o paciente). Muitos escritores deixam o "a" de sobra achando que soa mais culto, mas aí vira erro. O contrário também acontece: quem diz "assisti o filme" no sentido de ver está, sim, desviando da norma culta padrão. Implicar: no sentido de "acarretar", é direto (implicar consequências). No sentido de "ter implicância com", é indireto com "com" (implicar com o vizinho). No sentido de "significar", é indireto com "em" (implicar em algo). Três regências distintas para o mesmo verbo. Eu já vi analista jurídico usar "implicar em" no sentido de acarretar num contrato, e o texto ficou ambíguo até o revisor apontar.

Obedecer/desobedecer: ambos exigem "a". Obedecer à lei, obedecer ao regulamento. Muito comum ver "obedecer a lei" sem crase quando o termo é feminino definido, ou "obedecer o chefe" tirando a preposição por achismo. Ambos errados. Visar: no sentido de "mirar", é direto (visar o alvo). No sentido de "dar visto", também é direto (visar o documento). No sentido de "ter como objetivo", é indireto com "a" (visar a uma promoção). O terceiro sentido é o que gera mais confusão em editais e concursos porque quem lê automaticamente associa o verbo ao tiro, não ao propósito.

Preferir: a forma normativa exige "a" (preferir Café a chá). Nunca "preferir mais... do que". Isso é redundância que a norma rejeita. Na prática eu vejo "prefiro mais X do que Y" em tudo quanto é comunicação interna de empresa, mas a estrutura correta é simplesmente "prefiro X a Y". Mais econômico também. Agora os adjetivos e substantivos que mais causam transtorno em regência nominal:

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Responsável: "responsável pelo projeto" (não "de", não "no"). "Responsável com alguém" também existe no português brasileiro falado, mas a norma trata essa segunda construção com ressalvas — em documentos formais, stick com "por". Obediente: "obediente a". "Obediente ao regulamento". A preposição é fixa, igual ao verbo.

Semelhante: "semelhante a". Não existe "semelhante de". Já vi "semelhante aos anteriores" em relatório e parece que o autor tava inventando a preposição na hora. Um caso que eu encontrei pessoalmente e que vale registrar: numa análise de contrato, o cliente escreveu "a cláusula é propícia a interpretações divergentes". A regência nominal estava correta — "propício" pede "a" —, mas o contexto tornava a frase ambígua porque "propício a" também poderia ser lido como "facilitador de". Eu sugeri trocar para "passível de" ou reformular a cláusula. A questão não era a preposição, era a escolha lexical em si. Regência certa com palavra errada no lugar continua gerando problema.

Outra pegadinha que quem estuda regência costuma ignorar: verbos que perdem a regência original quando passam para a voz passiva. "O diretor assistiu ao relatório" (indireto) vira "O relatório foi assistido pelo diretor" — e apre o "a" que ligava o objeto indireto. Em voz passiva analítica, o antigo objeto indireto vira sujeito, e a preposiçãosome. Isso confunde muita gente porque a intuição diz que o "a" tem que aparecer em algum lugar. Há ainda os verbos que variam de significado conforme a regência, e não apenas conforme o contexto. "Ele abriu mão do direito" versus "Ele abriu a porta". O verbo "abrir" sozinho é direto, mas "abrir mão de" é uma locução com regência própria que exige "de". Ignorar isso e escrever "abrir mão do direito" sem o "de" é erro frequente em textos produzidos por quem pensa que "mão" é só ornamento do verbo.

Se você quer montar uma lista de consulta rápida, o jeito mais eficiente é separar os verbos em três colunas: transitivo direto, transitivo indireto com preposição específica, e polissêmico (mais de uma regência com mudança de sentido). A maioria dos erros em textos formais vem da coluna três. As colunas um e dois são mecânicas; a coluna três exige memória e revisão. Uma limitação que poucos mencionam: a regência nominal depende muito do registro. "Acessível a" é normativo, mas "acessível para" aparece com frequência em documentos corporativos modernos e em normas setoriais de alguns órgãos públicos. Se o seu texto vai para um tribunal, a norma prescreve. Se vai para um manual de usuário ou comunicação externa, o "para" pode ser aceitável dependendo do público. Saber distinguir o registro certo pro contexto é tão importante quanto saber a regra em si.

Para consulta, a melhor fonte continua sendo o Dicionário de Usage do Português Contemporâneo do Cunha e Cintra, mas ele só cobre os verbos mais frequentes. Para casos menos comuns — e é neles que a gente se perde em contratos e pareceres —, o Nova Gramática do Português Contemporâneo da Celso Pedro Luft tem as exceções que os dicionários menores ignoram. Nenhum desses livros é perfeito, mas juntos cobrem uns 95% dos casos que aparecem na prática profissional. Se o objetivo for ter algo rápido no computador, existem planilhas e PDFs de regência verbal que circulam em sites de concursos. A maioria é copiada de fontes antigas e traz exemplos ultrapassados. Recomendo catar apenas os verbos que realmente aparecem no seu vocabulário de trabalho e montar sua própria tabela, com a regência correta anotada ao lado de cada entrada. Leva uma tarde, mas a tabela fica útil por anos.

O ponto final aqui é simples: regência não se aprende decantando listas inteiras. Aprende-se identificando os verbos e adjetivos que aparecem no seu dia a dia, anotando a preposição exigida por cada um, e revisando os textos antes de enviar. O erro mais caro não é esquecer uma preposição em uma frase qualquer; é usar a regência errada num documento onde a outra parte vai levar a outra interpretação.