O que você precisa saber sobre ISTs bacterianas
Infecções sexualmente transmissíveis de origem bacteriana são um problema comum na prática clínica. Diferente das virais, as bacterianas têm tratamento com antibióticos, mas isso não significa que seja simples resolver. A sífilis, a gonorreia e o tracoma são os principais exemplos. Cada uma tem seu comportamento diferente no organismo, e o manejo exige atenção a detalhes que muitos pacientes e até profissionais menos experientes ignoram. A sífilis é causada pela Treponema pallidum, uma espiroqueta. Ela avança em estágios. O primeiro estágio mostra uma úlcera indolor no local da infecção, geralmente nos genitais, ânus ou boca. Essa lesão some sozinha em três a seis semanas, mas a bactéria continua circulando. Se não tratar nessa fase, a doença progride. O segundo estágio pode causar erupções cutâneas, especialmente nas palmas das mãos e plantas dos pés, além de febre e mal-estar geral. Após uma fase latente assintomática, que pode durar anos, a sífilis terciária atinge órgãos internos. Coração, cérebro e nervos são os mais comprometidos. O diagnóstico precoce faz toda a diferença.
exemplos de ist causadas por bactérias
A gonorreia é causada pela Neisseria gonorrhoeae. Ela afeta principalmente mucosas do trato reprodutivo feminino, uretra masculina, reto, faringe e olhos. Nos homens, os sintomas mais frequentes são corrimento uretral e dor ao urinar. Nas mulheres, os sintomas podem ser leves ou ausentes, o que atrasa o diagnóstico. A complicações incluem doença inflamatória pélvica, infertilidade e gravidez ectópica. A resistência aos antibióticos é um problema real e crescente. Ceftiraxona é o padrão-ouro atual, mas cepas resistentes já foram isoladas em vários países. O tratamento precisa ser acompanhado de teste de sensibilidade quando possível. O tracoma é causado pela Chlamydia tracomatis, sorotipos A a C. É a principal causa infecciosa de cegueira no mundo. A transmissão ocorre por contato direto com secreções oculares infectadas ou por moscas que pousaram nesses fluidos. Inicialmente causa conjuntivite crônica. Com o tempo, os cílios crescem virados para dentro, ralando a córnea. Cicatrizes na conjuntiva fazem a pálpebra virar para dentro, e a córnea vai opacando até a perda visual permanente. A OMS recomenda a estratégia SAFE: cirurgia para tricíase, antibióticos, enfrentamento facial e melhoria ambiental.
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Clamídia genital, também por Chlamydia tracomatis, mas de sorotipos diferentes, é uma das ISTs bacterianas mais comuns em jovens sexualmente ativos. Muitos não apresentam sintomas. Em mulheres, pode causar inflamação pélvica silenciosa, com danos tubários que só aparecem anos depois quando tentam engravidar. Testagem em população assintomática é recomendada por diretrizes de saúde pública. Tratamento com azitromicina ou doxiciclina durante sete dias tem alta eficácia, mas a reinfecção é frequente se o parceiro não for tratado também. Na prática, uma coisa que todo mundo subestima é a importância do rastreamento de parceiros. Eu já vi casos em que o paciente volta a ser infectado semanas depois de completar o tratamento porque o parceiro não foi testado e tratado. Isso é especialmente crítico com gonorreia e clamídia. Recomenda-se a abordagem expedida de parceiros em muitas situações, onde o profissional prescreve o tratamento para o parceiro sem necessidade de avaliação prévia, dependendo da legislação local.
Outro ponto negligenciado é a coinfecção. Pacientes diagnosticados com uma IST bacteriana frequentemente carregam outra infecção silenciosa. Um teste de sífilis pede sempre pesquisa de HIV e hepatites. Um caso de gonorreia justifica investigar clamídia, tricomoníase e sífilis. Focar apenas na infecção declarada é erro comum que leva a tratamento incompleto. Teste de cura é necessário em situações específicas. Mulheres grávidas tratadas por sífilis precisam de controle sorológico seriado. Pacientes com gonorreia devem ser reavaliados se houver suspeita de reinfecção ou falha terapêutica. Para clamídia, o teste de cura rotineiro não é recomendado, mas a retestagem em três meses é útil para detectar reinfecção precoce.
A prevenção ainda é o aspecto mais subutilizado. Preservativos reduzem significativamente o risco, mas não eliminam, porque lesões de sífilis podem estar em regiões não cobertas pelo preservativo. Vacinas existem para HPV e hepatite B, que previnem agentes com potenciais consequências sinérgicas, mas não há vacina para sífilis, gonorreia ou clamídia. Educação sexual baseada em evidências e acesso regular a testagem são as ferramentas mais efetivas disponíveis atualmente.