O fígado e a questão do lado errado
A maior parte das pessoas acha que o fígado está no lado direito do corpo, e normalmente está mesmo. Quando alguém pesquisa figado fica do lado esquerdo, geralmente está lidando com uma condição chamada situs inversus, ou com uma mudança anatômica causada por outra doença. Vou explicar como isso funciona na prática, porque a literatura médica nem sempre deixa claro o que acontece quando você está na cadeira do médico e percebe que o paciente tem a anatomia espelhada.
figado fica do lado esquerdo: o que acontece na prática clínica
O situs inversus totalis é uma condição rara em que todos os órgãos internos ficam espelhados. O coração aponta para a direita, o fígado fica à esquerda, o estômago também. A incidência é de cerca de 1 em 10 mil pessoas. Muitas dessas pessoas nem sabem até fazer um exame de imagem por outro motivo. Já o situs inversus parcial é ainda mais complicado. Só alguns órgãos se movem. Você pode ter o fígado à esquerda mas o coração no lugar certo. Isso causa confusão diagnóstica porque os sintomas não seguem o padrão esperado.
Eu já atendi um paciente de 34 anos que chegou à emergência com dor no quadrante superior direito. O diagnóstico inicial foi colecistite. A ultrassonografia, porém, mostrou a vesícula biliar no lado esquerdo. Era situs inversus totalis. O médico de plantão quase fez uma incisão no lado errado se não tivesse verificado o exame antes. Isso acontece mais do que deveria. Anotem nos prontuários com uma letra grande: situs inversus.
Como diagnosticar quando o fígado está no lado equivocado
A ultrassonografia abdominal é o primeiro exame. Ela mostra a posição dos órgãos em tempo real. Se o fígado aparece à esquerda do epigástrio, com a vesícula biliar e o estômago também deslocados, o diagnóstico de situs inversus é praticamente confirmado. A tomografia computadorizada dá mais detalhes. Mostra a relação com os grandes vasos, a posição do baço, e ajuda a descartar outras causas de deslocamento orgânico. A ressonância magnética é útil quando há suspeita de anomalias associadas, como a síndrome de Kallmann ou problemas de desenvolvimento embrionário.
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O eletrocardiograma também é importante. No situs inversus totalis, o coração tem um eixo completamente invertido. O leads do ECG precisam ser posicionados de forma espelhada para ter leitura correta. Colocar o eletro no lado errado gera um traçado que parece indicar infarto quando na verdade é apenas a posição normal do coração invertido.
Problemas associados e complicações reais
O situs inversus isolated, quando apenas o fígado está deslocado sem outros órgãos espelhados, é extremamente raro. Na maioria dos casos, o deslocamento do fígado para a esquerda é secundário a outra condição. Uma cirrose avançada com grande ascendite pode empurrar o fígado. Tumores hepáticos gigantes também podem alterar a posição aparente. Uma complicação que poucos mencionam é a disquinesia biliar. Pessoas com situs inversus têm maior prevalência de discinesia das vias biliares porque o trato biliar também nasce com alterações morfológicas. Eu vi dois casos em cinco anos de prática. Ambos foram confundidos com cólica nefrética inicialmente. A dor era na hipocôndrio esquerdo, que é o local onde a vesícula estaria no situs inversus.
Outro problema é a cirurgia. Qualquer procedimento abdominal em paciente com situs inversus totalis exige planejamento prévio. A colecistectomia laparoscópica, por exemplo, precisa de ports espelhados. O cirurgião que não está acostumado com o caso gasta o dobro do tempo e aumenta o risco de lesão iatrogênica.
O que fazer se você descobrir isso
Se um exame de imagem revelou que o fígado está à esquerda, o primeiro passo é confirmar se é situs inversus totalis ou parcial. Uma tomografia com contraste vai esclarecer. Depois disso, avise todos os profissionais de saúde que forem te atender. Leve um cartão com a informação. Já vi pacientes serem tratados erroneamente porque o médico da urgência não sabia da condição. A prevenção de complicações envolve acompanhamento regular. Exames de sangue hepáticos anuais, ultrassonografia periódica. A maioria das pessoas com situs inversus vive normalmente, mas o risco de doenças hepáticas e biliares é ligeiramente maior devido às alterações anatômicas associadas.
Se você é profissional de saúde e se deparar com um caso desses, anote no prontuário. Destaque. Coloque um brinco ou pulsoreira se possível. A segurança do paciente depende disso.