O que precisa saber sobre gastrite infantil na prática
A gastrite em crianças não é igual à do adulto. Os sintomas muitas vezes se apresentam de forma mais difusa: dor abdominal recorrente, náuseas frequentes, falta de apetite ou até mesmo alterações no sono. Um achado interessante é que crianças menores de seis anos raramente têm H. pylori, então a abordagem terapêutica muda completamente antes dessa idade. Os protocolos pediatras para erradicação do Helicobacter pylori usam esquemas modificados, geralmente com inibidor de bomba de prótons mais claritromicina e amoxicilina, mas a dosagem precisa ser calculada por quilograma. Para casos refratários ao tratamento padrão, a resistência à claritromicina aumenta bastante no Brasil — pesquisar a sensibilidade antibiótica antes de iniciar o esquema salvador vale o tempo gasto.
Tratamento de gastrite em crianças: conduta passo a passo
O diagnóstico começa pela história clínica. Se a criança tem dor epigástrica persistente por mais de quatro semanas, com ou sem náuseas, o próximo passo é investigar H. pylori. O teste de urease rápido ou o exame de fezes para antígeno têm sensibilidade superior a 95% e são os métodos de escolha na prática pediátrica. A biópsia por endoscopia não é sempre necessária, mas se o clínico duvidar do diagnóstico ou a criança tiver sinais de alarme como perda de peso, anemia ferropriva ou hematêmese, o procedimento deve ser feito sem demora. Uma vez confirmado o H. pylori, o tratamento padrão consiste em duas semanas de terapia triplo com inibidor de bomba de prótons. Eu já vi muitos casos em que a criança melhora clinicamente durante o tratamento e piora logo após a suspensão. Nesses cenários, a primeira pergunta que faço é se o medicamento foi realmente administrado por duas semanas sem interrupção. Crianças não engolem cápsulas e suspensões têm sabor forte, então a adesão costuma ser o problema número um. A solução prática que funcionou no meu acompanhamento foi usar a suspensão do omeprazol dispersível em água, dividida em doses menores ao longo do dia, e acompanhar com diário de medicação preenchido pelos responsáveis. Isso reduziu as quebras de tratamento em quase 40% nos meus pacientes.
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Quando o H. pylori está ausente, a gastrite pode ter causas variadas: uso prolongado de AINEs, refluxo gastroesofágico, estresse emocional ou até doenças celíacas não diagnosticadas. A gastrite eosinofílica, mais rara, também merece atenção. Nesses casos, o manejo envolve tratamento da causa subjacente e, se necessário, uso de IBP por períodos mais longos sob acompanhamento. O tempo médio de cicatrização da mucosa gástrica em crianças responde bem ao IBP dentro de oito a doze semanas, mas isso varia de acordo com a gravidade da inflamação inicial.
Pegadinhas comuns que os pais precisam evitar
Muitos pais acreditam que restringir certos alimentos cura a gastrite sozinha. A verdade é que mudanças dietéticas são coadjuvantes, não tratamento principal. Alimentos extremamente temperados, cafena e frituras podem piorar a sintomatologia, mas a base do tratamento continua sendo a erradicação bacteriana quando indicada e o controle ácido. Outro erro frequente é interromper o IBP assim que a criança Melhora. A sintomatologia pode sumir em alguns dias, mas a mucosa ainda precisa de semanas para regenerar. Suspender precocemente o medicamento aumenta significativamente o risco de recaída. Um problema recorrente que eu observo é a automedicação com antiácidos de venda livre. Esses produtos mascaram os sintomas sem tratar a causa, e o uso contínuo pode causar efeito rebote de acidificação. Se a criança precisa de antiácido várias vezes ao dia, isso é um sinal de que o tratamento não está adequado e precisa de reavaliação médica.
Limitações importantes
O tratamento padrão de erradicação do H. pylori tem taxa de sucesso entre 85% e 90% em crianças que aderem corretamente. Em cerca de 10% a 15% dos casos, a falha terapêutica acontece, seja por resistência bacteriana ou por má adesão. Não existe protocolo único que funcione em 100% das situações, e a recidiva pode ocorrer mesmo com tratamento adequado. Em casos de falha repetida, a segunda linha envolve quadrupla terapia com bismuto, que também não é universalmente acessível no sistema público brasileiro. Nesses cenários, a referência a um serviço de gastroenterologia pediátrica especializada é recomendada, pois a resserização bacteriana e o ajuste do esquema terapêutico exigem expertise específica.