história de terror curta para ler
O apartamento 4B estava vazio desde março. O imóvel estava limpo, sem móveis, sem poeira. Apenas o cheiro residual de tinta fresca e o ruído dos encanamentos vizinhos. Ninguém precisava entrar. Ninguém deveria entrar. Na terça-feira, João foi verificar se uma janela estava trancada. Ele tinha a chave, mas não costumava usá-la. Morava no 3B. A porta do 4B era de ferro, fechava automaticamente, e sempre permaneceu trancada. Isso era normal. Sempre tinha sido.
Ele girou a chave. A porta abriu com facilidade inesperada. Não havia corrente, nem trava extra. Apenas a porta aberta para o escuro dentro do hall. João a empurrou até parar no batente. O apartamento estava exatamente como ele imaginava: chão de cerâmica, paredes brancas, uma janela com a cortina meio aberta. Mas algo no ângulo da luz estava errado. A lua entrava pela janela e iluminava apenas metade do chão. A outra metade permanecia negra como se houvesse uma barreira física separando a luz da escuridão.
Ele deu um passo para dentro. O chão rangiu sob seu sapato. Normal. O apartamento estava vazio há meses, então a poeira se acumulou. Mas quando ele olhou para baixo, não havia poeira. O chão estava impecável. Como se tivesse sido limpo recentemente. Como se alguém acabasse de passar o pano.
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João recuou um passo. A linha que dividia a luz da escuridão no chão permanecia fixa, reta como se fosse traçada com régua. E ela se movia ligeiramente conforme a lua mudava de posição, cortando o apartamento em duas metades perfeitas. Ele saiu e fechou a porta. Tranca a chave. Voltou para o apartamento e sentou-se no sofá. Tentou racionalizar. Uma reflexão estranha. Um jogo de luz e sombra. Algo técnico.
Na manhã seguinte, ele voltou com uma lanterna. Abriu a porta. O apartamento permanecia dividido ao meio. Mas agora, do lado escuro, algo se mexia. Não era um objeto. Não era uma sombra que mudava de forma. Era algo que se movia contra a lógica da escuridão, como se a escuridão fosse o meio pelo qual aquela coisa se deslocava. João não conseguiu descrever o que viu. Só sabe que havia linhas na escuridão que não pertenciam às paredes, que se moviam devagar na direção da linha divisória, e que a linha parecia estar crescendo. Lentamente. Quase imperceptivelmente.
Ele fechou a porta e não voltou mais. O apartamento continua vazio. A linha que divide a luz da escuridão no chão do 4B existe apenas quando a lua está alta. E João jurou que, na última vez que olhou, a parte escura do apartamento ocupava um pouco mais da metade do chão do que na primeira vez.