O que acontece quando você precisa julgar itens de redação técnico-científica
A maioria dos estudantes e profissionais se depara com esse tipo de avaliação em provas de concurso, artigos para revistas indexadas ou revisões de trabalhos acadêmicos. O problema é que julgar itens sobre o estilo de redação técnico científica exige mais do que conhecimento gramatical básico. Você precisa entender as convenções implícitas que diferenciam um texto técnico de qualquer outro tipo de escrita. Já corri muitas bancas e já tive que avaliar produções alheias. O que mais vejo errado não são erros de ortografia, mas sim rupturas com o registro formal, uso inadequado de primeira pessoa, construções verbais imprecisas e falta de coerência entre objetivo, metodologia e conclusão.
Julgue os itens sobre o estilo de redação técnico científica: critérios objetivos
Para julgar um item sobre redação técnico-científica corretamente, você precisa ter clareza sobre o que cada critério realmente significa na prática. Vou listar os principais e explicar como aplicá-los sem margem para subjetividade excessiva. Impessoalidade: o uso da terceira pessoa ou da voz passiva analítica é padrão. Construções como "realizou-se o experimento" ou "observou-se o fenômeno" são preferíveis a "fizemos o experimento" ou "nós observamos". Isso não é snobismo acadêmico. É sobre posicionar o leitor para que o foco recaia sobre o que foi feito, e não sobre quem fez. Eu já vi itens serem marcados como errados simplesmente por usar "nós". O revisor precisou lembrar que em muitos periódicos e editais, o "nós" ainda é sinal de amadorismo.
Precisão vocabular: termos técnicos devem ser usados com exatidão. Substituir "resultado" por "achado", "coisa" por "fenômeno", ou "muito" por "significativamente" sem respaldo estatístico são erros comuns que invalidam itens. Um exemplo prático: eu avaliei uma banca onde um item afirmava que o uso de "coisa" era aceitável em textos técnicos desde que viesse acompanhado de uma definição. Errado. "Coisa" simplesmente não pertence ao registro técnico-científico, independentemente do contexto. A correção deveria ter sido tão direta quanto isso. Objetividade: frases longas com orações subordinadas excessivas, adjetivação desnecessária e repetições configuram falha. O texto técnico visa transmitir informação com o mínimo de ruído. Se um item propõe que "a análise cuidadosa e meticulosa dos dados permitiu que se chegasse a conclusões robustas", ele contém redundância. "Cuidadosa e meticulosa" é o mesmo conceito expresso duas vezes. Isso é marca de texto inflado, não de rigor técnico.
Coesão e coerência: conectivos devem indicar relação lógica real. "Portanto" introduz consequência, não exemplo. "Contudo" indica oposição, não continuação. Eu já perdi tempo corrigindo itens que confundiam esses conectivos e justificavam o erro dizendo que "no contexto, o autor quis dizer X". O julgamento deve considerar o uso padrão, não a intenção hipotética do autor. Normas ABNT e outras referências: citar referências, formatar tabelas e estruturar seções segue regras específicas. Itens que ignoram a NBR 6023 para referências bibliográficas ou a NBR 10520 para citações estão incorretos. A formatação não é opcional em avaliação técnica. Já vi candidatos argumentarem que "o conteúdo é o que importa, não a forma". Em prova ou revistaindexada, a forma é parte do conteúdo. Sem formatação adequada, o item é rejeitado independentemente da qualidade do argumento.
Pegadinhas comuns em itens de redação técnico-científica
Alguns itens tentam confundir o avaliador com afirmações parciais ou contextuais. Aqui vão situações que eu encontrei na prática e como lidar com elas. Um item disse que "o uso de dados estatísticos é obrigatório em todos os textos técnico-científicos". Isso é falso. Textos de revisão bibliográfica, ensaios críticos e artigos teóricos podem não conter dados estatísticos e ainda assim ser válidos. A generalização é o erro aqui.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Outro item afirmou que "a linguagem técnica deve ser acessível a leigos". Também incorreto. A linguagem técnico-científica se dirige a pares na área. Acessibilidade excessiva pode comprometer a precisão conceitual. Claro, há exceções para divulgação científica, mas isso é gênero diferente. Tem item que diz que "itálico deve ser usado para títulos de periódicos em referências". Na verdade, pela ABNT NBR 6023:2018, o título do periódico vai em negrito, não itálico. Itálico é reservado para nomes de obras completas (livros, teses) em algumas variações normativas, mas não para periódicos. Erro frequente.
Outro que vi recentemente: "o resumo estruturado deve conter obrigatoriamente as seções Introdução, Métodos, Resultados e Conclusões". Nem sempre. Dependendo da área e da revista, as seções podem variar. Some área de Ciências Humanas que usa estruturas diferentes. Generalizar é armadilha.
Como treinar o julgamento de itens
Ler exemplos bons e ruins ajuda. Eu sugiro comparar um artigo publicado em revista Qualis A com uma versão reformulada por um revisor exigente. As diferenças aparecem em detalhes: escolha de verbo, eliminação de advérbios, reposicionamento de informações. Pratique com questões de bancas como CESPE, FGV e FCC. Elas gostam de cobrar nuances. O CESPE, por exemplo, adora itens que misturam regras normativas com julgamentos de estilo. A chave é separar o que é regra objetiva (ABNT) do que é preferência estilística (clareza, concisão).
Um recurso útil é montar um checklist pessoal. Para cada item, verifique: impessoalidade, precisão lexical, objetividade, coesão lógica, conformidade normativa. Se um item falhar em pelo menos dois critérios, ele está incorreto. Se falhar em um, avalie a gravidade e o contexto. Isso reduz a influência do humor na correção.
Limitações e pontos de atenção
Nenhuma regra é absoluta. Áreas como Psicologia e Educação às vezes aceitam mais primeira pessoa. Revistas de múltiplas review preterem construções mais diretas que revistas de Engenharia. O avaliador precisa conhecer o contexto da área antes de marcar um item como incorreto. Outro limite: alguns itens dependem de versão da norma. A ABNT atualizou várias normas em 2018. Itens baseados em versões anteriores podem estar tecnicamente corretos no passado, mas incorretos hoje. Sempre verifique a data de referência do edital ou da revista.
Por fim, evite julgar itens com base no que você "gosta" ou "acha mais elegante". Estilo pessoal não é critério técnico. Se um item viola uma convenção estabelecida, ele está errado, mesmo que soe bem para seus ouvidos. E se soa mal para você mas respeita as convenções, está certo. Separe gosto de norma.