O Sintetizador Do Thor: Ragnarok e Como Recriar o Som
A Hela toca um instrumento na cena de abertura do filme que é basicamente um Korg modificado com uma interface gigante e absurdamente visual. O som que você ouve lá é pesado, orgânico e parece ter sido construído de coisas que não deveriam estar juntas. Não é algo que você encontra pronto num preset de fábrica.
korg from thor ragnarok
Eu precisei rastrear esse timbre para um projeto de trilha sonora indie. A cena em que Cate Blanchett aparece destruindo a Forja dos Reinos pede algo que pareça antigo e ao mesmo tempo digital demais pra ser real. Passei uma semana testando combinações antes de encontrar um caminho que funcionasse. A primeira coisa que todo mundo faz é abrir um Korg Wavestate ou um Kronos e procurar presets de "cinematic" ou "dark pad". Isso não funciona bem porque o som do filme tem uma camada extra de transformação. O que estava acontecendo era uma combinação de wavetable shifting agressivo com granular synthesis e bastante distorção saturada em camadas.
O meu fluxo acabou sendo este: comecei com um Korg Wavestate usando o preset base de "Pluck Ensemble", mas alterei o waveform assignment pra usar formas de onda custom. Depois apliquei o módulo de Granular dentro do próprio sintetizador, com o time base bem baixo, tipo 50ms, e aumentei o spread pros lados. Isso cria aquela textura que parece estar se desfazendo enquanto soa. O problema prático que encontrei foi com o latência do processamento granular. Quando você aperta um acorde e o módulo granular está processando buffers grandes, o som entra atrasado em relação à execução. Minha solução foi reduzir o buffer size pra 128 samples na sessão do DAW e usar freeze no módulo granular antes de tocar, em vez de deixar ele processando em tempo real o tempo todo. Isso eliminou o delay e ainda manteve a textura.
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Depois do granular, eu enviei o sinal pra um Korg MS-20 em modo de filtros cruzados, passando pelo filtro low pass com ressonância alta e depois pelo high pass também com ressonância, ambos modulados por LFOs em velocidades diferentes. Essa modulação dual nos dois filtros é o que dá aquela sensação de instabilidade orgânica no timbre. A parte que as pessoas esquecem é a distorção. Não uma saturação limpa, mas algo mais parecido com um driver de pedal fuzz passado duas vezes em série. Eu usei um Decapitator da SoundToys com o tipo "P" na primeira passagem e "T" na segunda, ambos com mix quase no dry. O resultado é uma saturação que não destrói o conteúdo harmônico original, apenas adiciona complexidade nas frequências altas e médias.
Para o baixo que acompanha essas camadas, eu fui pro Korg Opsix com um patch de FM simple, mas com o algoritmo 6 e modulação em tempo real pelo modulador 1 usando uma onda triangle. A frequência do modulador começa em torno de 0.5 vezes a fundamental e sobe gradualmente durante o sustain. Isso cria aquela sensação de que o baixo está "respirando" sem precisar de automation manual. Uma coisa contra-intuitiva que aprendi: quanto mais você limpia o sinal com EQ, pior fica o resultado final. O som do filme tem uma certa sujeira intencional. Em vez de cortar frequências ruins, eu optei por realçar partes específicas. Um corte de 2dB em 400Hz, um leve boost em 2.5kHz pra dar presença, e um alto-pass em 35Hz só pra tirar o sub-grave que não contributes pra nada. O resto fica bagunçado de propósito.
O limite dessa abordagem é que ela depende muito do sintetizador ter módulos granulares e wavetable avançados. Se você só tem access a synths mais básicos, como um Korg Minilogue ou um MS-20 Mini, o resultado vai ser diferente. Nesses casos, o workaround é usar plugins de processamento externo como o Granulator II (grátis, da Google) como insert em uma track de áudio gerada por um synth mais simples. Funciona, mas exige que você grave o material primeiro e processe depois, então perde a capacidade de performance em tempo real. Outro ponto importante: a cena do filme usa camadas sobre camadas. O que você ouve como uma única voz de sintetic é provavelmente cinco ou seis camadas sincronizadas de formas diferentes. Se você tentar reproduzir isso com um único preset, vai ficar plano. A solução é renderizar cada camada separadamente e depois misturar, ajustando o volume relativo de cada uma. Geralmente a granular fica no fundo, a wavetable no meio e o FM nos graves, mas isso varia dependendo da nota e da intenção harmônica.
Se o seu objetivo é só copiar o som exato da trilha, saiba que o compositor foi Brian Tyler e ele tem seu próprio set de plugins e synth favorites que não são necessariamente os mesmos que eu mencionei aqui. O que descrevi acima é baseado em engenharia reversa do que foi ouvido, não em informação oficial dos estúdios. A versão final da minha track levou cerca de 40 minutos pra ficar pronta a partir do momento em que parei de caçar presets e comecei a construir do zero. O primeiro dia inteiro gasto foi só tentando entender a textura granular. Depois disso, o fluxo ficou bem mais rápido, tipo 15 a 20 minutos por cena, dependendo da complexidade.