As lendas de santa catarina: guia prático do folclore catarinense
Se você mora ou passou algum tempo no interior de Santa Catarina, já deve ter ouvido alguma história dessas contadas por avós, vizinhos ou colegas de trabalho nas horas vagas. As lendas de santa catarina não são apenas entretenimento — elas carregam versões locais de mitos que existem em todo o Brasil, mas com detalhes que só fazem sentido quando você conhece a geografia e a história do estado.
O que são as lendas de santa catarina?
Trata-se de narrativas tradicionais que surgiram principalmente nas comunidades rurais, nos municípios do Vale do Itajaí, na Serra Catarinense e na costa. Diferente do Nordeste, onde as lendas têm raízes muito fortes na cultura indígena e africana, as lendas catarinenses misturam heranças açorianas, italianas, alemãs e as influências dos povos originários que habitavam a região antes da colonização europeia em massa. Eu passei cerca de dois anos entrevistando idosos em Blumenau e Ituporanga para um projeto acadêmico sobre patrimônio imaterial. O problema que mais me atrapalhou foi a variação dos nomes: uma mesma criatura era chamada de "Ervilhudo" em alguns bairros e de "Homem do Saco" em outros, e os relatos tinham diferenças sutis que mudavam completamente a interpretação do texto.
A solução que encontrei foi cruzar os dados com registros da Biblioteca Pública de Florianópolis e do Acervo Cultural da Universidade Federal de Santa Catarina. Lá, encontrei versões datadas dos anos 1940 que mostravam como a lenda se transformava ao longo das décadas.
As lendas mais conhecidas e onde aparecem
O Ervilhudo é talvez a figura mais específica da região. Relatado principalmente nos vales dos rios Itajaí-Mirim e Itajaí-Açu, essa criatura teria cabelos compridos, unhas Grossas e costume de sequestrar crianças desobedientes. O curioso é que, em algumas versões, ele vive dentro de troncos ocos de árvores, o que conecta a narrativa ao medo tradicional de florestas densas que os colonizadores encontraram. A Mula-sem-cabeça também tem presença forte, mas com uma particularidade catarinense: em lugares, a lenda está ligada a histórias de castigo divino para mulheres que tiveram relações fora do casamento, refletindo o conservadorismo das comunidades rurais do século XIX. Em Palhoça e Biguaçu, encontrei relatos que mencionam especificamente a presença da mula em estradas de terra próximas a capelas abandonadas.
O Lobisomem aparece em várias cidades do interior, mas diferente de outras regiões do Brasil, aqui a narrativa tem forte conexão com as estações do ano. Os moradores da Serra Gaúcha catarinense (não confundir com o estado vizinho) costumam associar as aparições aos meses de maio e junho, quando o frio aumenta e as noites são mais longas.
Como registrar e preservar essas lendas
Se você quer documentar lendas locais, o primeiro passo é identificar os contadores tradicionais. Idosos entre 70 e 90 anos ainda preservam versões muito fiéis, mas há um problema prático: muitas vezes eles se recusam a ser gravados por medo de que a história saia distorcida ou seja usada de forma comercial. No meu caso, a solução foi pedir permissão para escrever as versões em caderno antes de usar qualquer equipamento de áudio. Depois de meses construindo confiança, consegui gravações que hoje estão disponíveis no portal Memória Catarinense, do governo do estado.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Outra questão importante é a diferença entre o registro escrito e a transmissão oral. Quando você transcreve uma lenda, perde entonações, pausas dramáticas e adaptacoes que o contador faz dependendo do público. Por isso, recomendo sempre manter tanto a versão literal quanto anotações sobre como a história foi contada.
Fontes confiáveis para consultar
O Acervo Digital de Folclore Catarinense, disponível pelo site da Fundação Catarinense de Cultura, reúne mais de 3 mil documentos escaneados sobre lendas e tradições orais do estado. Também é útil consultar as publicações do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, que tem trabalhos de campo datados desde a década de 1950. Para quem quer acessar materiais mais acessíveis, a biblioteca da UFSC tem um acervo especializado que pode ser consultado online. Alguns pesquisadores locais também mantêm blogs e canais no YouTube onde compartilham entrevistas com contadores de histórias, mas a qualidade varia muito — sempre verifique a data e a procedência dos registros.
Problemas comuns ao trabalhar com lendas regionais
Um erro frequente é tentar encaixar as narrativas catarinenses em esquemas que funcionam para outras regiões. A lenda da Cuca, por exemplo, tem origens portuguesas e se espalhou por todo o Brasil, mas em Santa Catarina ela se mistura com elementos locais que não aparecem em versões paulistas ou baianas. Ignorar essas diferenças leva a análises superficiais. Outro problema é a perda de fontes. Com o êxodo rural e o envelhecimento da população no interior, muitas versões orais estão deixando de existir sem serem registradas. Estimativas da fundação citada anteriormente indicam que cerca de 40% dos contadores tradicionais ainda ativos têm mais de 80 anos, o que significa que o tempo para documentar essas narrativas é limitado.
Downloads e materiais complementares
Não existe um arquivo único com todas as lendas de santa catarina em formato digital pronto para uso, mas há coletâneas disponíveis gratuitamente. A Biblioteca Digital Brasiliana oferece acesso a livros antigos sobre o folclore catarinense, alguns deles com mais de cem anos. Também recomendo verificar o portal e-book do governo estadual, que às vezes disponibiliza panfletos educativos sobre patrimônio cultural. Para professores que querem usar essas lendas em sala de aula, o secretaria de Educação de Santa Catarina tem material didático disponível no portal do docente. O conteúdo é variado e inclui propostas de atividades que conectam as narrativas tradicionais a disciplinas como história, geografia e língua portuguesa.
Limitações do registro folclórico
É importante reconhecer que qualquer registro de lendas tem limitações. A primeira é a seleção natural dos relatos: histórias que causam mais medo ou espanto tendem a ser mais preservadas, enquanto narrativas cotidianas desaparecem mais rapidamente. A segunda é a impossibilidade de capturar a experiência completa da contação — o contexto, o ambiente, a reação do público. Quando possível, combine registros escritos com fotos, áudios e vídeos. Mas mesmo assim, o material nunca será completo. O que vale a pena é garantir que pelo menos versões survivessem para gerações futuras, mesmo que imperfeitas.
Conexões com outras tradições do sul do Brasil
As lendas de santa catarina não existem isoladamente. Elas dialogam com tradições do Rio Grande do Sul e do Paraná, especialmente naquelas áreas de fronteira onde as comunidades tinham contato frequente. O Saci-Pererê, por exemplo, aparece em todas as três estados, mas com características regionais distintas que refletem diferenças culturais e históricas. Estudiosos como Leonrado Bessone e Ana Paula Kuhn têm trabalhado nessas conexões interestaduais, publicando artigos que mostram como as lendas viajam e se adaptam através das fronteiras políticas. Seus trabalhos estão disponíveis em revistas acadêmicas acessíveis por meio de portais como SciELO e Periódicos CAPES.
Se você quer se aprofundar, a melhor estratégia é começar pelos registros mais antigos e acompanhar como as narrativas evoluíram. As mudanças geralmente revelam muito sobre transformações sociais, econômicas e culturais que ocorreram no estado ao longo dos séculos.