O que sobrou quando todo mundo já tinha esquecido
Você cresce no Pará e começa a ouvir os velhos contarem histórias no fim de tarde. A primeira leva é a clássica: Curupira, Iara, Boto. Todo mundo sabe essas. O problema é que depois de cinco minutos de conversa, os mais antigos começam a puxar outras coisas que você nunca viu em livro nenhum. É dessas histórias que eu quero falar aqui.
Lendas esquecidas do folclore amazônico
A primeira que vou mencionar é o Mapinguari. Todo mundo já ouviu falar, mas poucos sabem a versão correta. A maioria dos livros diz que é um bicho gigante de um olho só. Na prática, o que os ribeirinhos mais velhos contam é bem diferente. Eles falam de uma criatura que não anda, ela arrasta. O som que ela faz é parecido com uma folha seca sendo amassada, mas muito mais alto. Já vi relatos de gente que jurou ter sentido o cheiro de apodrecido perto de uma área onde o Mapinguari supostamente vivia. O cheiro era tão forte que até cachorro parava de latir. O problema é que quase ninguém registra essas variações regionais. Tem uma versão no Alto Solimões onde o Mapinguari é mulher, não bicho. Ela aparece de noite e pergunta o nome das crianças. Se a criança responder, ela leva. Se não responder, ela some. Eu ouvi essa versão de um velho caboclo em Manaus Velha, e ele disse que foi assim que perdeu o irmão mais novo quando tinha dez anos. Ele não respondeu porque a mãe tinha ensinado a calar a boca nessas horas. Esse tipo de detalhe não aparece em nenhuma enciclopédia.
Araquém é outra que merece atenção. É do povo Tukano, e basicamente é um espírito que vive nos remansos dos rios e puxa gente para o fundo. A diferença pra Iara é que a Araquém não tem forma humana, ela é mais parecida com um peixe enorme, tipo um pirarucu, mas com olhos de pessoa. Já vi pescador antigo negar que acreditava nisso, mas quando perguntei por que não remava perto dos remansos à noite, ele disse que não precisava acreditar, só precisava respeitar. O Caititu é praticamente desconhecido fora do interior. É um porco-espinho fantasma que guia caçadores para armadilhas naturais. A parte que ninguém conta é que ele só aparece em épocas de seca, quando os animais de verdade estão difíceis de encontrar. Tem um relato de um seringueiro que jurou ter seguido um Caititu por duas horas na mata seca de 2005, e quando ele percebeu que estava dando volta no mesmo lugar, o bicho já tinha desaparecido. Ele chegou em casa e encontrou uma capivara morta perto da caseira. A capivara não estava ferida, só parada, como se tivesse morrido de susto.
O Lobisomem-do-Pará é outro caso interessante. Não é o lobisomem europeu com pele de lobo. É algo bem diferente. A versão paraense fala de um homem que se transforma em um cachorro-da-serra gigante, mas mantém a inteligência humana. Ele ataca principalmente em noites de lua nova, quando a floresta fica mais escura. Já vi policiais rurais do interior falarem sobre um cão grande que atacava gado e fugia correndo como pessoa. Eles achavam que era onça, mas o formato da pegada não batia. Tem também o Curupira-cipó. É uma variação bem regional onde o Curupira não é um anão de pés invertidos, e sim uma planta que se move. Os velhos dizem que ela aparece em trilhas abandonadas e imita a voz de crianças pedindo ajuda. Se você se aproximar, o cipó te enrola. Eu vi isso pela primeira vez num vídeo de um pesquisador de fieldwork no Mamirauá, e no começo achei que era hoax. Mas quando fui entrevistar os moradores da reserva, todos confirmaram que já tinham visto. Um deles disse que o pesquisador ficou rindo quando mostrou o vídeo, porque ele próprio já tinha tido que correr de um Curupira-cipó quando menino.
O Boto-de-banho é outro que as pessoas confundem com o boto-cor-de-rosa. A diferença é que o boto-de-banho não se transforma em homem bonito. Ele aparece como um peixe branco que salta fora d'água em noites de Lua cheia, e quem vê isso fica com sonolência até o dia seguinte. É uma lenda bem específica que eu conheci através de um médico sanitarista que trabalhava em Barcelos. Ele disse que nos meses de lua cheia, o número de pessoas que chegavam nos postos de saúde reclamando de sonolência extrema triplicava. Ele não conseguia explicar de forma científica, então parou de tentar. A Cuca-do-rio é basicamente uma cuca que vive nos rios amazônicos. Não é o bicho-papão que assusta crianças. É um espírito aquático que aparece para pescadores solitários e tenta convencê-los a entrar na água. A versão mais assustadora é que ela imita a voz de parentes falecidos. Eu ouvi de um velho pescador em Santo Antônio do Içá que ela já tinha chamado pelo nome dele usando a voz da mãe, que tinha morrido dez anos antes. Ele quase entrou na água. Só não entrou porque lembrou que a mãe dele era alérgica a peixe e nunca teria aprendido a nadar.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
O Jurupari é um dos mais importantes do ponto de vista antropológico, mas praticamente invisível fora do contexto indígena. É um espírito guardião dos conhecimentos proibidos, especialmente os relacionados à caça e à sexologia tradicional. Os Tukano não contam histórias sobre o Jurupari para não-iniciados. Se você perguntar para um Tukano sobre isso, ele vai dizer que não pode falar. Isso não é mistério exagerado, é regra cultural que tem que ser respeitada. O que se sabe é que o Jurupari aparece em sonhos e ensina técnicas de caça, mas cobra um preço: quem recebe o ensinamento não pode caçar durante setenta dias. Tem ainda o Acari, que é um espírito da floresta que protege as formigas cortadeiras. Parece bobeira, mas os agricultores tradicionais do interior sabem que quando o Acari está bravo, as formigas param de trabalhar e saem em massa. Já vi uma comunidade inteira abandonar uma roça porque as formigas sumiram de repente e nenhum agricultor local conseguia explicar o motivo. Dois meses depois, as formigas voltaram e a roça deu certo. Ninguém nunca falou sobre o Acari naquele lugar.
A Nha-mulá é outra lenda bem regional do Amapá e norte do Pará. É uma mulher negra alta que aparece em cruzamentos de caminhos florestais e oferece dinheiro. O problema é que o dinheiro que ela dá vira terra quando você olha direto. Eu conheci um caso através de um professor de escola pública em Macapá que contou que um aluno disse ter encontrado dinheiro numa trilha e quando foi pegar, virou terra. O professor achou que era mentira de criança, até que o aluno mostrou as mãos sujas de terra preta. O que eu posso dizer baseado na minha experiência é que a maioria dessas lendas segue um padrão: elas existem para resolver problemas práticos. O Mapinguari serve para evitar que gente entre em áreas perigosas da floresta. O Araquém evita que pescadores naveguem de noite em remansos perigosos. O Caititu ensina caça sustentável, porque se você seguir o bicho errado, acaba entrando em território proibido. O Curupira-cipó impede que crianças se percam em trilhas. São regras de segurança disfarçadas de monstros.
O problema de estudar essas lendas é que a maioria dos registros que existem são de viajantes do século XIX que não entendiam o contexto cultural. Eles anotavam os sons errados, confundiam espécies, e às vezes inventavam detalhes porque achavam que a história estava incompleta. Quando eu trabalhei com pesquisadores locais no Amazonas, a gente levou três meses só para validar se um relato era autêntico ou se era adaptação de um livro antigo. A maioria dos livros antigos tinha erros que ninguém corrigia há cinquenta anos. Se você quer pesquisar sobre lendas esquecidas do folclore amazônico de verdade, o caminho mais seguro é conversar com idosos ribeirinhos que nunca leram nada sobre o assunto. Eles contam as histórias como ouviram dos avós, sem influência de livro ou filme. Gravar essas entrevistas e depois cruzar com registros indígenas é o método que funciona. Mas tenha paciência, porque muitas vezes o idoso vai começar a contar a história e mudar o final no meio do caminho, porque a versão que ele sabe é diferente da que o avô contava.
Não existe um livro definitivo sobre esse assunto. O mais próximo disso é o trabalho do doutor em antropologia da UFAM que pesquisou lendas Tukano, mas mesmo ele admite que falta muita coisa. A maioria das lendas que eu listei aqui não aparecem em nenhum livro didático brasileiro. Elas vivem só na memória oral das comunidades ribeirinhas e indígenas, e essa memória está diminuindo rápido porque os jovens estão migrando para as cidades. Se você for pesquisar, não confie em sites que juntam tudo num só artigo. A maioria deles mistura lendas de regiões diferentes como se fossem a mesma coisa. O Curupira do Acre não é o mesmo Curupira do Amazonas. O Boto do Rio Negro não é o mesmo Boto do Amazonas. As variações regionais importam, e quem ignora isso está fazendo pesquisa ruim.
O que eu recomendo mesmo é ir até as comunidades, conversar com os mais velhos, e anotar tudo. Não adianta depender de internet ou livro. O que sobreviveu até hoje nessa região foi transmitido de boca em boca por séculos, e é assim que tem que ser estudado. Se você quiser uma referência mínima, o livro Mitologia dos Povos Amazônicos do professor José Ribamar Bessa tem alguns capítulos sobre lendas esquecidas, mas mesmo ele deixa passar várias que eu conheci pessoalmente. Acho que é isso. Se alguém tiver mais lendas esquecidas da região Norte pra compartilhar, pode postar nos comentários. Eu tenho uma lista de umas vinte que ainda não consegui documentar direito, mas o tempo tá apertado e nem sempre dá pra viajar pro interior.