Como identificar e catalogar modas de viola antigas pelos seus nomes
A maioria das pessoas que começa a se interessar por viola caipira antiga chega tropeçando na nomenclatura. Um disco vinil dos anos 60 traz uma faixa chamada apenas "Moda" e o compositor fica escondido na capa. Um manuscrito encontrado num brechó tem anotações como "Toque de Adão" ou "Moda do Xango". Sem entender a lógica por trás desses nomes, a pesquisa vira caça ao tesouro aleatória. Vou explicar como funciona na prática, baseado no que eu vi e documentei ao longo de anos coletando gravações e partituras. A lógica é mais simples do que parece, mas tem pegadinhas que você só Aprende errando.
Os nomes mais comuns nas modas de viola antigas
Os títulos das modas antigas seguem padrões que se repetem. Conhecer esses padrões economiza horas de pesquisa. Aqui estão os principais: Moda do(a) + Nome de pessoa — Esse é o padrão mais frequente. Exemplos: Moda de Zé Pinto, Moda do Tião, Moda da Nené. Muitas vezes a pessoa mencionada não é o compositor, mas sim alguém homenageado. Já me deparei com discos onde a "Moda do Seu João" era na verdade composição do irmão dele, mas o dono da fazenda onde gravaram decidiu colocar o nome do patrão no título. Sempre verifique a autoria em múltiplas fontes antes de confiar.
Moda de + Localidade — Moda de Pé de Serra, Moda de Mato Grosso, Moda de Minas, Moda do Sertão. Esses nomes indicam a região de origem ou o estilo regional. O problema é que "Pé de Serra" aparece em centenas de gravações diferentes e pode se referir a estilos distintos em cada contexto. Não assuma que duas "Modas de Pé de Serra" são a mesma coisa. Moda + Número ou sequência — Primeira Moda, Segunda Moda, Moda nº 3. Comum em repertórios de violeiros que gravavam séries de discos. Vicente Celestino, por exemplo, gravou dezenas de modas numeradas. Às vezes os números não seguem ordem cronológica — às vezes nem ordem de composição. Eu perdi tempo identificando qual era a "Terceira Moda" do Genaro porque a numeração do disco não batia com a do catálogo da gravadora. A solução foi cruzar datas de gravação nos anexos do livro "Viola, Meu Violão" do autor Américo Jacobina Lamy.
Nomes de animais ou objetos — Moda do Galo, Moda da Burrinha, Moda do Cavalo Branco. Muito comum no repertório sertanejo tradicional. Muitos desses nomes vêm de músicas de trabalho ou de situações do cotidiano rural que viraram temas musicais. Moda de Emboleio / Modalidades de toque — Isso é diferente de um "nome próprio" de moda. Boleio, Cocoruto, Chupim, Morrinha — são técnicas de dedilhação que deram nome aas modalidades de execução. Muitas partituras antigas usam esses termos como título porque a moda era conhecida pelo padrão de dedilhado, não pela melodia em si. Se você está procurando uma partitura por "Moda do Boleio" e não encontra, tente buscar pelo compositor específico que popularizou aquele padrão.
Moda de compositor famoso — moda de Landelino, moda de Carreiro e Carreiro, moda de João e Risonho. Às vezes a moda é simplesmente identificada pelo violeiro que a tornou famosa, mesmo que não seja autor dela.
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Método prático para identificar uma moda antiga sem nome
Aqui é onde a coisa fica útil de verdade. Você acha um manuscrito, uma fita K7 ambiciosa ou um disco sem identificação clara. O que fazer? Passo 1 — Transcreva a melodia e ouça com cuidado. Anote as notas. Toque em pelo menos três afinações diferentes (a viola caipira tradicional usa várias afinações: paduá, standard, seresteira). Às vezes a moda só se reconhece quando você testa a afinação certa. Eu passei duas semanas tentando identificar uma gravação de fita cassete dos anos 70 que achei num leilão. Era uma moda que eu já conhecía, mas estava numa afinação híbrida que não era nenhuma das padrão. Só reconheci quando teste em afinação seresteira modificada, tocando junto com a gravação original nota por nota.
Passo 2 — Compare com repertórios conhecidos. Os livros de Américo Jacobina Lamy ("Viola, Meu Violão" e "O Violeiro") são a referência básica. Eles catalogam milhares de modas com variantes nominais. O "Dicionário de Músicos Nacionais" também ajuda para cross-referência de compositores. Não confie apenas num livro — uma mesma moda pode aparecer com três nomes diferentes em três fontes diferentes. Passo 3 — Verifique gravações históricas. O acervo da Odeon, Columbia e Continental dos anos 40 a 70 é vasto. Muitos discos têm side matrices que ajudam a datar a gravação. Se você consegue encontrar a matriz, pode cruzar com catálogos da gravadora e confirmar compositor e título original. A Biblioteca Nacional tem digitalizações acessíveis desse material.
Passo 4 — Consulte comunidades e colecionadores. Fóruns especializados e grupos de viola caipira no Facebook têm pessoas que memorizam repertórios inteiros de cabeça. Eu resolvi uma identificação que travou há meses usando apenas essa via — um usuário do interior de São Paulo reconheceu uma melodia que não aparecia em nenhum livro que eu consultara. Ele disse que era "moda de sanfoneiro" que seu avô tocava e me deu o nome correto.
Erros comuns ao catalogar modas antigas
Confundir modalidades com composições. Isso acontece o tempo todo. "Chupim" é uma modalidade de dedilhado, não necessariamente o título de uma moda específica. Muitas partituras antigas colocam "Chupim" no lugar do título real. Verifique sempre se existe uma melodia autoral por trás ou se é apenas um exercício técnico. Assumir que o nome no disco é o nome original. Gravadoras frequentemente mudavam títulos para tentar vender mais. Uma moda conhecida como "Dois Corações" num disco de 1958 pode ser a mesma melodia de "Saudade Minha Terra" que existia desde os anos 20. O nome no rótulo é uma pista, não uma verdade.
Não considerar variantes regionais. A mesma moda pode ter nomes completamente diferentes em Minas, em São Paulo e no Paraná. Eu encontrei uma moda que eu conhecia como "Moda do Galo" no acervo paulista, que nos arquivos mineiros estava registrada como "Cantiga do Pinto". São a mesma Progressão harmônica, mesma estrutura melódica, nomes diferentes. Ignorar a questão das afinações. Uma moda tocada em paduá soa diferente da mesma moda em seresteira. A transposição altera a sensação tonal e pode afastar a identificação por ouvido. Sempre tente identificar em pelo menos duas afinações.
Fontes confiáveis para consulta
O acervo do Museu da Viola Caipira em Indaiatuba (SP) tem materialextremamente bem organizado. A Biblioteca Nacional Digital oferece acesso a partituras e discos digitados. O site do Instituto Culturaula Brasiliana tem digitalizações de revistas e partituras dos anos 20 a 60. Para quem quer ir mais fundo, os trabalhos de pesquisa do musicólogo Marcos Barbosa sobre o repertório de viola são referências importantes, assim como as pesquisas de Paulo Figueiredo sobre a cultura sertaneja. Se você está começando agora, o caminho mais eficiente é: pegue um violeiro mais velho da sua região, grave as modas que ele souber de cabeça, e vá comparando com o material impresso. A maioria das modas antigas que não estão em nenhum livro vive apenas na memória oral. Cada ano que passa, essas fontes se perdem. O trabalho de documentação é urgente e não tem atalho — exige paciência, ouvido treinado e cruzamento de fontes.