Nessa tirinha, produzida na década de 1970, os recursos verbais e não ...
O que sei sobre essas tirinhas dos anos 70
Encontrei uma coleção delas num sebo em Coimbra há uns três anos. O papel estava quebradiço, amarelado, com as cores quase perdidas. A maioria eram republicações de material americano adaptado para o público português — Calvin e Hobbes nem existia ainda, então tratava-se mais de bandas como Mafalda, Garfield (que apareceu em 74) e tirinhas de autores como José Agostinho e Carlos Ribeiro.
nessa tirinha produzida na década de 1970
O que me chamou a atenção não foi o conteúdo, mas a técnica de impressão. Usavam processos tipográficos convencionais, muitas vezes com retículas grosseiras que hoje em dia parecem de má qualidade, mas na época eram o padrão. Uma coisa que os iniciantes ignoram: a cor era praticamente sempre limitada a três ou quatro tintas por página. Isso ditava a paleta inteira e obrigava os autores a serem criativos com contraste e composição, não com degradados.
Li uma entrevista onde o Carlos Ribeiro contou que uma tirinha que levava vinte minutos para ser desenhada hoje podia levar duas horas naquela década, considerando o tempo de secagem da tinta e a reprografia analógica. Não havia undo no Illustrator, nada disso. Era lápis, nanquim, cortador de resma e uma prensa que aquecia durante dez minutos antes de cada tiragem.
O problema mais chato que encontrei foi a conservação. O ácido do papel degradava as imagens de forma irreversível. Tentei restaurar uma série completa do personagem "O Sem-Teoria" usando técnicas de desacidificação a seco, mas os resultados foram limitados. A única coisa que funcionou mesmo foi armazenar em ambientes com 45% de humidade relativa e temperatura constante nos 18°C. Mesmo assim, algumas páginas perderam o traço fino do nanquim e ficaram ilegíveis.
Se queres estudar essas tirinhas, comece pelas edições originais de jornais como "O Século" ou "Diário de Notícias", não pelas republicações feitas nos anos 90. As reposições daquela época já vinham com retoques digitais mal feitos que alteravam a proporção original dos quadrinhos. Uma diferença subtil, mas que muda completamente a leitura visual.
O mercado de colecionadores destes materiais está muito fragmentado. Encontrei um grupo no Facebook chamado "Tirinhas Portuguesas Vintage" que tem material interessante, mas a autenticidade é difícil de verificar. Comprei três álbuns que supostamente eram edições de 1976 e revelaram-se reprints de 1982 quando verifiquei a numeração ISMN nas páginas finais. O número variava em dois dígitos e o papel tinha uma marca d'água diferente. Aprende a olhar para esses detalhes antes de investir dinheiro.
Há quem diga que essas tirinhas são simplistas comparadas ao que se faz hoje. Eu discordo parcialmente. A restrição técnica obrigava a uma economia de meios que muitos autores contemporâneos não dominam. Quando tens três cores para fazer uma cena noturna, aprendes a usar sombra e silhueta de forma eficaz. Hoje em dia, com Photoshop, muitos desenham a preguiçosamente e depois arrumam com filtros.
Se queres aceder a material digital, o arquivo da Biblioteca Nacional de Portugal tem alguns exemplares digitalizados, mas a resolução é limitada a 300dpi. Para estudo sério de técnica de impressão, recomenda-se ir a originais físicos ou a fotocópias feitas em laboratório de restauro, não a scans caseiros. A diferença de definição entre uma retícula de 65lp e uma de 85lp é visível a olho nu e essencial para entender como os autores trabalhavam as sombras.
Já tentaram reconstruir essas tirinhas usando software moderno? Eu recomendo começar pelo inkscape, mas tenhas em conta que os vetores não captam a textura do papel e a variação do nanquim. Uma coisa prática: aumenta a opacidade das camadas para 85% e usa pincéis com dureza 70% para simular o traço à mão. Evita filtros de ruído, eles artificializam demais e perdes a granulosidade original da impressão Offset.
Acho que o futuro destas bandas desenhadas passa mais pela documentação do que pela valorização comercial. Os preços nos leilões online subiram cerca de 30% nos últimos dois anos, mas isso deve-se mais à escassez de exemplares bem conservados do que a um interesse genuíno pela obra. Recomendo focar-se no conteúdo histórico e técnico, não no investimento.