Palavras Que Perderam O Acento - Palavras que Perderam Acento na Nova Ortografia | PDF
Palavras que Perderam Acento na Nova Ortografia | PDF

O acordo mudou muita coisa e ninguém percebeu

O Acordo Ortográfico de 1990, implementado gradualmente no Brasil a partir de 2009, removeu acentos de dezenas de palavras correntes. Não foi uma reforma pequena. Palavras que todo mundo usava com acento passam a ser escritas sem ele, e isso gera confusão até hoje em redações formais, corretas de texto e em sistemas automatizados que ainda não foram atualizados. A regra básica que mais causa confusão é a dos paroxítonas. Antes do acordo, todas as paroxítonas terminadas em ditongo, l, n, r, i, us, um, ps recebiam acento. Depois, só as terminadas em l, n, r, i, us, um, ps continuam levanto. As que terminam em ditongo ou vogal vogal alta perderam o acento. Palavras como heróico, ideia, jiboia deixaram de existir no padrão normativo. Viraram heroico, ideia, jiboia.

A segunda regra mais problemática é a do acento diferencial. O acordo eliminou o aça de palavras como pêra (fruta), pelo (substantivo), pêlo (pelo corporal), prèlo. Agora tudo se escreve sem distinção gráfica. O contexto é que resolve. Isso irrita muito quem trabalha com revisão, porque o revisor precisa ler a frase inteira para saber se é fruta ou se é o pelo de um gato.

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Aqui vai uma lista prática das mais comuns. Fôma virou foma. Cê (vovó) sumiu completamente. Acórdão continua com acento, mas coroa nunca teve. Défice virou défice — peraí, na verdade defice perde o acento. Emimo era êmimo. Os pares minimalistas gerados por essa mudança são os que mais dão trabalho na prática. Um problema real que eu encontrei há uns dois anos: estava fazendo uma validação automática de textos jurídicos e o sistema gerava centenas de falsos positivos porque o regex ainda pedia acento em palavras como apoio, ideia, boa. A correção foi substituir a expressão regular que procurava por [áàãâéêíóôõúç] em paroxítonas terminadas em ditongo aberto (oo, eu, ia, ua) por uma versão atualizada conforme o manual do CEBRAL de 2009. O script que eu tava usando estava datado de 2007. Metade dos alertas eram ruído puro.

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A terceira regra, a dos acentos agudos e circunflexos nos ditongos abertos éi e ói das paroxítonas, é a que mais gera dúvidas. Idéia vira ideia. Jiuridício vira jurídico — espere, esse não mudou, porque é oxítona. Asneirá vira asneira. Herói vira heroí — não, heroi. O acento no oi de paroxítonas simplesmente desapareceu. Outro ponto que poucos levam em conta: o acordo não mudou a pronúncia, só a grafia. Controle era controle — esse não mudou mesmo. Piloto era piloto. Reptilo — esse não existe. Astronômico continuou astronômico. As mudanças são seletivas e inconsistentes na cabeça de quem não decorei a tabela toda.

Se você precisa de uma referência confiável, o site da Imprensa Nacional (imprensa.gov.br) publica o texto oficial do acordo com o anexo de regras ortográficas. Também tem a lista completa no site da Academia Brasileira de Letras. Evite sites de blogs de gramática genéricos — vários deles ainda estão com conteúdo pré-acordo e passam informação errada até hoje. O problema prático é que muitos dicionários online e correctores ortográficos não aplicam as regras de forma consistente. O Google autocorrect ainda sugere idéia em alguns contextos. O Word da Microsoft, dependendo da versão e da configuração de idioma, ora aceita ora rejeita a forma sem acento. O corretor do LibreOffice, por sua vez, segue estritamente o vocábulo do Acordo mas não reconhece variantes aceitas pelo uso anterior. Se você está processando grandes volumes de texto, configure o corrector para o padrão pt-BR vigente pós-2009 e desative a opção de sugerir formas antigas, senão você gasta meia hora corrigindo falsos erros.

Uma armadilha comum: achar que todas as palavras que tinham acento perderam. Não é verdade. Lâmpada continua com acento. Médico continua. Público permanece. Só as categorias específicas listadas no acordo sofreram alteração. O resto ficou igual. Confundir essas duas coisas é o erro mais frequente que eu vejo em revisões. Para quem trabalha com linguagem natural ou processamento de texto, a recomendação prática é criar um glossário próprio das mudanças. Eu tenho uma lista de cerca de 80 palavras que mudaram de grafia e uso como base para normalização. Leva uns dez minutos consultar antes de rodar um batch de correção. Sem essa lista, o tempo gasto caçando falsos positivos pode facilmente triplicar o prazo original.