Os personagens de Divertida Mente (2015): por dentro do que funciona e do que não funciona
Quando a Pixar escreveu Divertida Mente, ela decidiu que não ia fazer uma animação sobre crianças e aventuras. Ela fez um filme sobre como funcionam os sentimentos. Não de forma filosófica, mas de forma operacional. Cada emoção é basicamente um sistema dentro da mente da Riley, uma adolescente de 11 anos. E o conceito funcionou porque, finalmente, um grande estúdio reconheceu que as pessoas não se sentem "felizes" o tempo todo. O filme ficou conhecido no Brasil pelo título Divertida Mente, então, quando alguém busca por personagens divertidamente 1, geralmente está interessado nos cinco sentimentos principais e em como eles são construídos. Alegria, Tristeza, Medo, Nojinho e Raiva. Esses são os cinco. Eles trabalham juntos dentro da cabeça da Riley, desde a infância até as primeiras mudanças na adolescência. Mas o que todo mundo perde ao assistir uma vez só é que cada personagem foi desenhado com uma função psicológica específica. Alegria não é apenas "bonitinha e otimista". Ela é o guardião do sistema, aquela que quer manter tudo sob controle a qualquer custo. E esse é exatamente o problema. Desde o primeiro ato do filme, fica claro que a Alegria não consegue lidar com a Tristeza. Ela acha que precisa eliminar toda dor. E o filme todo é a prova de que isso dá errado.
O que é interessante nos personagens divertidamente 1 é que eles não são metáforas vagas. A Pixar fez um trabalho de pesquisa séria com psicólogos, incluindo a Dra. Dacher Keltner, da Universidade da Califórnia, Berkeley, que estuda emoções humanas há décadas. A equipe do filme foi até o laboratório dela, assistiu gravações de expressões faciais, conversou sobre como emoções primárias se misturam no cérebro. O resultado é que cada personagem tem uma cor, uma forma, uma voz que comunica instantaneamente sua função. Não precisa de explicação. Você vê o Nojinho e já sabe que ele é a barreira contra coisas ruins, literalmente. Ele é nojento. É funcional.
Personagens divertidamente 1: como entender cada um deles sem confundir
Alegria (em inglês, Joy). Voz original de Amy Poehler, voz brasileira de Marli Bortoletto. Ela é redonda, amarela, brilhante, sempre em movimento. Representa a emoção de buscar prazer, conforto, estabilidade positiva. O problema dela, e aqui entra algo que muita gente não percebe na primeira assistida, é que ela não entende a diferença entre felicidade momentânea e bem-estar real. Ela quer que a Riley seja feliz o tempo todo, e essa obsessão é o que quebra o sistema. Tristeza (Sadness). Voz de Phyllis Smith, voz brasileira de Cida Santiago. Ela é azul, arredondada, lenta. Sempre parece cansada. As pessoas acham que o filme trata a tristeza como algo ruim, mas na verdade o filme argumenta exatamente o oposto. A tristeza é necessária. Ela sinaliza que algo precisa de atenção, que a pessoa precisa de apoio, que ela não está bem. A cena em que a Riley chora no enterro do bicho de pelúncia da mãe e depois conta para ela como se sente é o momento central de toda a história. Sem a tristeza, não há conexão humana genuína.
Medo (Fear). Voz de Bill Hader, voz brasileira de Sérgio Stern. Vermelho escuro, olhos grandes, sempre tenso. Ele protege a Riley de perigos reais e imaginários. É o systema de alarme. Ele cria cenários catastróficos na cabeça dela, e geralmente esses cenários são exagerados, mas eles existem por um motivo: sobrevivência. O Medo não é vilão. É funcional, até demais. Nojinho (Disgust). Voz de Mindy Kaling, voz brasileira de Tati Bernardi. Verde, estilosa, cética. Ela protege a Riley contra toxinas, Literal e figurativamente. Na cena famosa em que ela critica todas as verduras que a Riley experimenta pela primeira vez, ela está fazendo exatamente o que foi projetada para fazer: evitar que a Riley ingira algo prejudicial. O Nojinho também lida comNojo Social, aquele que impede a pessoa de fazer algo que pode ser rejeitado pelo grupo. É por isso que ele é tão preocupado com a imagem da Riley na escola nova.
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Raiva (Anger). Voz de Lewis Black, voz brasileira de Eduardo Dudas. Quadrado, vermelho, rígido. Ele reage a injustiças, à frustração, à quebra de regras. A Raiva não quer destruir. Ela quer que as coisas funcionem como deveriam. Quando a Riley não consegue ser aceita no time de hóquei, a Raiva não está errada. Ela está reagindo a algo que ela perccebe como injusto. O problema é que a Raiva não sabe se dosar. Ela vai direto para o extremo. Todos esses cinco trabalham no Centro de Operações, a sala de controle da mente da Riley. É ali que as memórias passam, são coloridas conforme a emoção dominante no momento, e são guardadas nos Armazéns de Longo Prazo. Esse sistema de memórias é um dos mecanismos mais bem construídos de qualquer filme de animação já feito. Cada memóriana é uma esfera de vidro, e quando você vê a tristeza tocando uma memória amarela (alegre), o filme mostra visualmente como as emoções podem se misturar. Isso é o que acontece depois: a Riley começa a ter memórias compostas, e elas não são mais simples.
O que mais pouca gente nota é que a Pixar mudou o roteiro três vezes. A primeira versão tinha a Alegria e a Tristeza viajando por memórias passadas para consertar a mente da Riley, mas o problema era que o filme ficava muito estático. A segunda versão tentou introduzir mais personagens secundários na cabeça da Riley, o que tornou a história confusa. Só na terceira versão é que a estrutura simples de "dois personagens precisam voltar ao Centro de Operações" funcionou. A limitação narrativa forçou a equipe a ser mais criativa com o visual, com o ritmo, com a economia de diálogos. O resultado foi um filme que conta quase tudo sem explicação verbal. Tem um detalhe técnico interessante sobre o design dos personagens. A Pixar usou geometria pura para diferenciá-los. Alegria é um círculo perfeito. Tristeza é um oval alongado. Medo é uma gota. Nojinho é um trapézio. Raiva é um quadrado. Cada forma comunica algo sobre a personalidade. Um círculo não tem pontas, é suave, acessível. Um quadrado é rígido, não cede, tem ângulos definidos. Isso parece óbvio agora, mas na época foi uma decisão de design bastante ousada para um filme familiar. A maioria dos estúdios preferiria personagens mais orgânicos, com curvas variadas. A Pixar foi radical.
Outro ponto que as pessoas ignoram: os personagens de Divertida Mente não envelhecem. Eles existem dentro da mente da Riley, e a mente dela muda, mas os cinco sentimentos básicos permanecem os mesmos. O que muda é a forma como eles interagem. Quando a Riley vira adolescente, novos sentimentos começam a surgir. O filme mostra isso no final, com a introdução de emoções mais complexas como Ansiedade, Vergonha, Tédio. Esses novos personagens aparecem brevemente no pós-créditos de Divertida Mente 2, mas eles são uma extensão lógica do que o primeiro filme plantou. A mente humana é complexa demais para caber em cinco emoções. O filme sabia disso e usou isso como tema. Se você quer ver os personagens divertidamente 1 em ação, o filme está disponível na Disney+. A versão original em inglês com legenda é a que preserva melhor as nuances vocais. Amy Poehler improvisou bastante nas gravações, e muita coisa que saiu do script original acabou ficando no filme. A voz brasileira é boa, mas perde alguns dos tons de ironia e da cadência específica que cada ator deu ao personagem. Se você quer entender de verdade como cada emoção funciona, assista duas vezes. A primeira você acompanha a história. A segunda você nota os detalhes visuais que a Pixar escondeu em cada cena.
Uma curiosidade que poucos sabem: a Pixar contratou um consultor de animação facial chamado Dr. Ekman, especialista em microexpressões, para garantir que cada emoção tivesse uma expressão facial coerente com a ciência real. Paul Ekman identificou seis emoções universais: alegria, tristeza, medo, nojo, raiva e surpresa. A Pixar pegou cinco desses seis e transformou cada um num personagem. A surpresa foi excluída porque, na prática, ela não gera conflito narrativo suficiente. Faz sentido. Surpresa é momentânea. Os outros cinco duram. O problema que eu tive quando tentei explicar esse filme para alguém que nunca assistiu é que a pessoa achava que era um filme infantilo. Ela não percebia que, na realidade, Divertida Mente é um filme sobre regulação emocional, sobre como o Supereu tenta controlar os impulsos, sobre a dificuldade de aceitar sentimentos negativos. A Alegria é, essencialmente, uma pessoa com ansiedade de desempenho emocional. Ela não suporta ver alguém triste. E isso é exatamente o que muita gente sente na vida real. O filme não é sobre crianças. É sobre adultos que esqueceram como funciona ser humano.
Os conceitos de memórias de longo prazo, console de operações, ilhas de personalidade — tudo isso tem base na psicologia cognitiva, mesmo que de forma simplificada. A Pixar não fez um documentário. Ela fez um mapa mental. E mapas não são o território. Mas um bom mapa mostra mais do que uma foto, porque ele seleciona o que importa. Divertida Mente mostrou o que importa sobre como sentimos.