Planeta dos Macacos: o que realmente aconteceu com a franquia e por que você provavelmente está confundindo coisas
A franquia que conhecemos como planetas dos macacos (no original, Planet of the Apes) começou em 1968 com o filme de Franklin Schaffner, baseado no romance de Pierre Boulle. A coisa mais importante que você precisa saber antes de qualquer coisa: o filme original não tem nada a ver com os remakes que saíram a partir de 2011. São narrativas completamente diferentes, tom diferente, roteiro diferente. Muita gente vai até uma sessão do "O Amanhecer" e sai achando que viu o clássico. Não viu. O enredo básico do original é simples. Um astronauta americano, Gregory,viaja numa nave durante anos no espaço, pousa num planeta que parece primitivo mas que revela ser a própria Terra no futuro distante, onde os macacos evoluíram até formar uma sociedade civilizada e os humanos perderam a capacidade de fala. O plot twist final, aquele em que ele vê a Estátua da Liberdadeenterrada na areia, é um dos mais conhecidos do cinema de ficção científica. Mas o livro de Boulle era mais sombrio e cínico do que a adaptação, e a sequência que veio depois, "A Conquista do Planeta dos Macacos" (1970), já entrava em terrenos ridículos de viagem no tempo que nenhum roteiro responsável apoiaria.
Planetas dos macacos no cinema: a linha do tempo real
Se você quer acompanhar a saga com algum sentido cronológico, tem basicamente dois caminhos. O primeiro é o original de lançamento: o clássico de 68, a sequência de 70, a série de TV dos anos 70, e depois os quatro remakes de Rupert Wyatt, Matt Reeves e cia ("Rise", "Dawn", "War", "Kingdom"). O segundo é a ordem cronológica interna da história, que mistura as duas vertentes de forma problemática porque os remakes não são simplesmente réboots — eles recontam a mesma premissa com novos atores e novas decisões de roteiro. O que muita gente não leva em conta é que os três filmes do reboot da Fox formam uma trilogia coesa, sim, mas cada um tem um problema estrutural sério. "Rise" (2011) é apressado demais no segundo ato e resolve a origem do vírus APEX com uma explicação que funciona no papel mas soa como atalho de roteiro. "Dawn" (2014) é o mais ambicioso dos três e o mais falho — a cena do tribunal é genial, mas a terceira acte abandona a construção política que o filme toda trabalhava em favor de um confronto direto que simplifica demais a questão. "War" (2017) conserta muita coisa mas entrega um antagonista (Koba) que foi bem construído nos dois primeiros e depois se transformou num vilão de cartilha porque o roteiro precisava de um conflito explosivo para fechar o arco.
E o quarto filme, "Kingdom" (2017), é basicamente um epílogo. Funciona como ponte para o que veio depois mas sozinho não tem estrutura narrativa. Se você assistir só um, assista "Dawn". Se quiser entender a saga toda, assiste os três na ordem de lançamento e pronto. Não precisa ler teoria profunda sobre isso.
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Os problemas práticos de encontrar material de qualidade
Aqui é onde as coisas ficam chatas na prática. Os filmes mais recentes da franquia estão todos sob direitos da Disney desde a acquisição da Fox em 2019. Isso significa que a disponibilidade varia absurdamente de país para país. No Brasil, por exemplo, você pode encontrar "Rise" e "Dawn" na Disney+ mas "War" e "Kingdom" podem estar em outras plataformas ou não ter licença ativa naquele momento específico. Eu tentei montar um marathon em casa em 2022 e passei duas horas navegando entre serviços diferentes porque cada filme estava em um lugar. A solução mais prática foi usar o JustWatch para verificar onde cada título estava disponível na data em que eu ia assistir, e atualizar a lista toda vez que o catálogo mudasse. Outro problema que ninguém menciona: a qualidade das legendas e dublagens varia muito. O "Dawn" tem uma dublagem brasileira decente, mas o "War" foi dublado de forma inconsistente em alguns trechos — o tom do protagonista muda halfway through o filme porque o dublador original foi substituído. Se você tem sensibilidade pra isso, legendas nativas (inglês com subtítulo em português) costumam ser mais confiáveis do que a dublagem padrão.
O que a maioria das pessoas esquece sobre o universo
Tem um detalhe técnico que separa quem assistiu os filmes de quem só conhece pelo marketing. A progressão do vírus APEX não é linear entre os três filmes do reboot. No primeiro, o símio Caleb é tratado como um indivíduo inteligente por causa de uma mutação genética específica. No segundo, já se estabelece que o vírus pode ser transmitido horizontalmente entre espécies. No terceiro, a lógica do vírus quase quebra porque a transmissão precisa ser rápida o suficiente para causar uma revolução em semanas, mas lenta o suficiente para permitir que humanos ainda tenham algum controle inicial. É uma contradição que o roteiro ignora propositalmente porque o drama exige que os macacos se organizem rápido. Eu levei anos pra aceitar isso e simplesmente desistir de questionar. Outro ponto: a relação entre Caesar e os outros personagens secundários é subutilizada. Andy Serkis conseguiu fazer uma performance capture que funciona como atuação pura, mas os roteiros dos três filmes davam pouco espaço para desenvolvimento de apoio. Lucinda, Maurice, Blue Eyes — todos existem como arcos promissores que nunca foram explorados. Se você quer expandir a experiência, os quadrinhos da Dark Horse (especialmente a série de 2014-2015) preenchem lacunas que os filmes não tiveram tempo de cobrir. Não é canônico oficial, mas é consistente o suficiente pra funcionar como complemento.
Conclusão pragmática
Se você quer entrar na franquia sem perder tempo, comece pelo "Rise" de 2011 na ordem de lançamento. Não tente assistir em ordem cronológica interna porque a confusão entre universo original e reboot vai te frustrar. Use o JustWatch pra saber onde cada filme está disponível agora. Aceite que os dois últimos filmes da trilogia do reboot têm problemas de roteiro e que isso é normal para-blockbuster de franquias. E se você quiser saber mais sobre o universo, os quadrinhos da Dark Horse são o material complementar mais sólido que existe, mesmo que não seja considerado canônico pelos produtores.