A Poema Sobre o Saci Pererê
Escrever um poema sobre o saci perere não exige grande complicação. O personagem já carrega material suficiente por si só. A questão é saber como usar sem cair no óbvio. A maioria dos poetas que eu vejo tentar isso começa listando características: gorro vermelho, cachimbo, uma perna só. Funciona na escola primária. Depois de algum tempo, isso vira clichê rápido demais. O que realmente dá resultado é encontrar um ângulo que não seja apenas descrever o bicho, mas mostrar o que ele faz quando ninguém está olhando.
Poema Sobre o Saci Pererê
Na Roça Velha O saci desce pelo pé da serra com seu gorro de fogo e um cachimbo que não acende mas faz barulho de vento.
Enfiou a perna na catinga girou três vezes e sumiu dentro do buraco que fez com o próprio corpo. No dia seguinte, minha avó achou o barbante todo embaraçado e o balde virado do avesso sem explicação lógica.
Ela disse: foi o saci. Não explicou direito. Disse só que o menino da perna só gosta disso. A gente ri. Mas à noite, ouve-se um assovio agudo vindo do quintal.
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Eles não matam ninguém. Roubam meias. Embalam os galos. Fazem o leite azedar devagar. O capoeira cantava: "Cada saci tem um demônio, Demônio do bem que faz O que quer e vai embora."
O gorto ficou preso num galho de juazeiro e o saci seguiu prosseguindo com seu passo manco e seu roteiro velho. Ninguém o viu partir. Ninguém o ouviu falar. Só sobrou o círculo na poeira da estrada.
Eu sei que ele existe porque ainda hoje, quando algo desaparece sem motivo, eu começo a girar nos calcanhares com medo de sumir para sempre.
---Meu conselho prático: evite rimas perfeitas forçadas nos versos finais. O saci é um personagem de movimento, não de parada. O poema precisa respirar de forma irregular, como ele gira. Tente manter os versos curtos perto do final para dar essa sensação de desequilíbrio. Outro ponto que as pessoas ignoram: o saci original tem relação com o folclore tupi-guarani antes de ser sincretizado com lendas africanas e europeias. Incluir essa camada histórica, mesmo que sutilmente, dá peso sem precisar de notas de rodapé. A referência ao "capoeira" no poema acima é proposital — Capoeira era o nome dado a esses seres nas lendas mais antigas do interior paulista.
O problema comum é transformar o poema em lista de atributos. Resolvi isso na segunda versão escrevendo o poema em terceira pessoa antes, como se fosse um relatório de observação, e depois convertendo para primeira pessoa. Isso tirou o peso descritivo e trouxe a emoção real de quem convive com a lenda no cotidiano.