Projeto Dia Do Livro Educação Infantil Bncc - Projeto Dia Do Livro Educação Infantil Bncc - FDPLEARN
Projeto Dia Do Livro Educação Infantil Bncc - FDPLEARN

Projeto Dia do Livro na Educação Infantil: o que funciona e o que não funciona

A maioria das escolas prepara o Dia do Livro como se fosse uma festa decorativa. Enfeites de papel, mascotes de personagens literários, atividade de recorte colando na hora. Isso não é um projeto pedagógico, é decoração com justificativa curricular. Se você quer fazer algo que realmente toque a BNCC e faz sentido para crianças de zero a cinco anos, precisa repensar desde o começo o que leitura significa nessa etapa.

Entendendo o projeto dia do livro educação infantil bncc

O eixo das práticas de linguagem na BNCC para a Educação Infantil (Campo de Experiência "Traços, Sons, Cores e Letras") exige que a criança seja posta em contato com gêneros literários variados, que ouça/reade histórias, que manuseie livros e que desenvolva o interesse e o prazer pela leitura. O projeto Dia do Livro, quando bem estruturado, é uma oportunidade concreta de trabalhar essas habilidades de forma intencional, não pontual. Não existe um gênero único que deva ser privilegiado. A BNCC fala em contos de fadas, lendas, fábulas, poemas, cantigas de roda, adivinhas e histórias da cultura local. O erro comum é tratar todos esses gêneros com a mesma estratégia didática. Um poema não se trabalha como um conto. Uma cantiga de roda não se ensina fazendo desenho do texto depois.

Como estruturar na prática

Antes de pensar em atividades, defina a duração. Um projeto de uma única semana raramente gera aprendizagem significativa nessa faixa etária. O ideal é trabalhar com ciclos de pelo menos quinze dias, com revisitas diárias de dez a quinze minutos de leitura compartilhada. As crianças nessa idade precisam de repetição para internalizar padrões linguísticos e desenvolver senso narrativo. O primeiro passo é escolher um acervo. Você vai precisar de livros reais, não de apostilas impressas ou slides. Crianças pequenas aprendem a ler a partir do objeto livro: a textura do papel, o peso, o tamanho das imagens, a forma como as páginas viram. Leve livros de diferentes tamanhos, formatos e materiais. Um livro de tecido ou um álbum ilustrado grande faz diferença no engajamento.

A segunda coisa é o espaço. Não precisa ser um cantinho perfeito com almofadas e tapete. Precisa ser um espaço onde a criança consiga ver o livro que você está lendo. Se houver vinte crianças e você estiver em pé com um livro pequeno, metade delas não vai enxergar nada. Use livros grandes, projete imagens se necessário, ou faça rodas menores. Eu já vi coordenadores pedagógicos insistirem com "roda de leitura" em salas de trinta crianças sentadas em círculo, sem ampliação visual. A atividade era ineficaz e eles achavam que era porque as crianças não gostavam de história.

Como alinhar com os objetivos de aprendizagem da BNCC

Os códigos da BNCC mais relevantes para esse projeto são: (EI03EF01) Manifestar interesses e escolhas relacionados ao contato com textos literários, audiovisuais e escrita.

(EI03EF02) Recontar histórias lidas pelo professor e analisar diferenças entre a versão oral e a escrita. (EI03EF03) selecionar livros, revistas e jornais da alegria da sala para ler, ainda que de forma ilegítima.

(EI03EF06) Dramatizar personagens de histórias conhecidas, exprimindo sentimentos e emoções. (EI03EP03) Expressar ideias, desejos e sentimentos sobre as histórias de conhecimento.

Esses códigos não se cumprem com uma única sessão. Cada um deles exige estratégias diferentes e tempo. O código EF01 se constrói com acesso livre aos livros. O EF02 exige reconto repetido. O EF06 exige preparação prévia com dramaturgia. Misturar tudo na mesma aula é um erro comum que gera atividades rasas.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Atividades que funcionam (e as que não funcionam)

O que funciona: leitura compartilhada com variação de entonação, pausa dramática, pergunta aberta sobre o que acontece depois. Não precisa ser teatral exagerado. Uma mudança de ritmo na voz já segurar a atenção de crianças de quatro anos por cinco a oito minutos, o que é suficiente. O que funciona também: roda de conversa após a leitura, pedindo que a criança aponte a parte que mais gostou, que imite um som do personagem, que preveja o final antes de você ler. Essas estratégias trabalham o código EF01 e EF05 simultaneamente.

O que não funciona: atividade de expressão artística obrigatória logo após a leitura. A BNCC não pede que a criança "faça um desenho da história" para comprovar compreensão. Crianças nessa idade não têm domínio gráfico suficiente para traduzir uma narrativa em desenho com fidelidade. O resultado é sempre uma representação genérica (casa, sol, árvore, pessoa com sorriso padrão) que não tem relação com o conteúdo lido. Isso é especialmente problemático quando o professor usa o desenho como instrumento de avaliação. Outro que não funciona: pedir que a criança reescreva a história com suas palavras em folha pautada. Letra formatada, frase completa, sujeito e predicado. Isso é exigência de alfabetização do ensino fundamental aplicada prematuramente. A BNCC para Educação Infantil não trabalha escrita alfabética nessa etapa. Trabalha contato com a cultura escrita, escuta, fala, imaginação e dramatização.

Caso prático: o problema dos livros emprestados

Um caso que encontrei com frequência em escolas públicas e privadas: o projeto Dia do Livro termina com a criançada levando um livro para casa emprestado, muitas vezes sem mediação dos pais. O livro chega destruído, com marcas de caneta, páginas rasgadas ou simplesmente sumido. A escola reclama, os pais dizem que a criança "não sabia que era emprestado", e o ciclo se repete no ano seguinte. A solução que adotei foi simples e barata: etiquetas de identificação com nome da criança e data de devolução, coladas no interior da capa. Mais importante ainda, uma rotina de devolução combinada com os pais antes da saída. Não uma reunião formal, mas um bilhete prático enviado dois dias antes: "Seu filho vai levar o livro 'X' emprestado. Por favor, combinem em casa que é empréstimo, não presente. Devolução no dia Y." E no dia da devolução, fazer uma pequena cerimônia de retorno com a criança. Isso mudou completamente a taxa de preservação dos livros na escola onde trabalhei. Antes, perdíamos cerca de trinta por cento do acervo emprestado por ano. Depois da mudança, cair para menos de cinco por cento.

Dificuldades que ninguém cuenta

A primeira dificuldade é o acervo insuficiente. Muitas escolas têm dez, doze livros infantis para uma turma de vinte crianças. Isso não sustenta um projeto. Você pode resolver parcialmente comrodas menores e rodízio de livros entre turmas da mesma faixa etária. Mas o problema estrutural permanece: sem acervo diversificado, o projeto vira repetição de poucos títulos. A segunda dificuldade é a resistência de alguns professores. "Isso é brincadeira", ouvimos com frequência de educadores que enxergam a leitura compartilhada como momento de descanso, não como prática pedagógica. A verdade é que leitura na educação infantil exige planejamento: escolha do gênero, definição do objetivo de aprendizagem, preparação da roda, registro da participação das crianças. Sem planejamento, vira hora do conto mesmo, passageira e sem sistematização.

A terceira dificuldade é a avaliação. Não existe prova para Educação Infantil. Não existe ficha de observação padronizada que capture o desenvolvimento da competência leitora nessa faixa. O que existe é registro qualitativo: anotações do professor sobre as intervenções das crianças, produções orais, escolhas de livros, nível de participação nas rodas. Esse registro é trabalhoso e muitos profissionais não o fazem por falta de formação ou de tempo. A BNCC não resolve isso automaticamente. Ela apenas explicita o que deve ser observado.

Material complementar

Para quem precisa de referências oficiais, o documento da BNCC está disponível gratuitamente no site do Ministério da Educação. A seção de Educação Infantil inicia na página de campos de experiência, com os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento detalhados para cada faixa etária (bébe, pré-escola I e pré-escola II). Para orientações práticas complementares, a plataforma do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) disponibiliza acervos digitais de livros infantis que podem ser baixados e impressos. A coleção "Ponto de Partida" e o programa "Livro para Todos" são opções viáveis para escolas que precisam ampliar o acervo rapidamente.

Também há materiais didáticos de editoras como FTD, Ática e Companhia da Letrinha que oferecem subsídios para planejamento de projetos literários alinhados à BNCC. Nem todos são gratuitos, mas muitos oferecem amostras gratuitas que servem como referência de estruturação.

O que esperar realisticamente

Um projeto Dia do Livro bem executado na Educação Infantil não transforma crianças em leitoras competentes em poucas semanas. Ele estabelece condições para que a criança desenvolva relações positivas com o livro, amplie o repertório de histórias, exercite a escuta e a expressão oral, e tenha contato regular com diferentes gêneros literários. Isso já é suficiente para justificar o esforço. O risco real é transformar o projeto em mais um item de portfólio escolar: fotos bonitas, painéis decorados, atividades prontas copiadas da internet, sem nenhuma conexão com os objetivos de aprendizagem da BNCC. Nesses casos, o projeto cumpre função estética, não pedagógica. E as crianças saem da experiência com mais cola no dedo e menos familiaridade com livros do que antes.