O pâncreas é mais do que você acha que é
A maioria das pessoas sabe que o pâncreas está ligado ao diabetes. Mas isso é só a parte que aparece nos exames de sangue. A função real do pâncreas é muito mais complexa e divide-se em dois sistemas que trabalham separados, mas ao mesmo tempo.
qual função do pancreas na digestão e na regulação metabólica
O pâncreas tem duas funções principais: a exócrina e a endócrina. A parte exócrina produz enzimas digestivas — tripsina, lipase, amilase — que são enviadas pelo ducto pancreatico até o duodeno. Sem essas enzimas, você não consegue digerir gordura adequadamente. A parte endócrina produz hormônios como insulina e glucagon, secretados diretamente na corrente sanguínea pelas ilhotas de Langerhans. Na prática, quando um paciente chega com esteatorreia — fezes gordurosas e pálidas —, o primeiro ponto de investigação é sempre a função exócrina do pâncreas. A má absorção de gordura é um sinal clássico de insuficiência pancreatica exócrina, algo que eu vejo com frequência em pacientes pós-colecistectomia ou após pancreatite crônica. O tratamento envolve reposição de enzimas pancreáticas (CREON, Pancreatin), mas o diagnóstico muitas vezes é tardio porque os sintomas são confundidos com Síndrome do Intestino Irritável.
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A parte endócrina é mais conhecida pelo público. A insulina reduz a glicemia; o glucagon aumenta. Quando esse equilíbrio falha, temos diabetes tipo 1 — destruição autoimune das células beta — ou tipo 2, que envolve resistência à insulina associada a sobrecarga metabólica. O que pouca gente entende é que o pâncreas também produz somatostatina e polipeptídeo pancreatico, hormônios menos famosos mas igualmente importantes na modulação da secreção digestiva e metabólica. Um detalhe que não ensinam nas faculdades de medicina de forma adequada: a pancreatite aguda pode se desenvolver de forma fulminante em questão de horas, e o diagnóstico precoce depende mais da clínica do que dos exames iniciais. A lipase séica eleva-se precocemente, mas em alguns casos de pancreatite por triglicerídeos altos, o padrão de apresentação é atípico e o paciente pode ser dado baixa como uma gastrite. Eu já vi isso acontecer. O truque é pedir triglicerídeos séricos em todo caso de dor epigástrica aguda sem causa óbvia, especialmente em pacientes que bebem álcool regularmente.
Outro ponto negligenciado: a relação entre a função exócrina e a endócrina não é isolada. A destruição progressiva do tecido pancreatico na pancreatite crônica leva primeiro ao déficit enzimático e depois, com o tempo, ao diabetes pancreatico — o chamado diabetes tipo 3c. Esse tipo de diabetes tem particularidades distintas do tipo 1 e do tipo 2: os pacientes são extremamente sensíveis a hipoglicemias porque perdem tanto as células beta quanto as células alfa, ou seja, perdem insulina e glucagon. O manejo exige monitorização rigorosa e ajuste fino de insulina, muitas vezes com uso de bomba de infusão contínua. O diagnóstico da insuficiência pancreatica exócrina pode ser feito pela elafastina fecal, um teste não invasivo que mede a quantidade de tripsina nas fezes. Valores abaixo de 200 microgramas por grama de fezes indicam insuficiência. O teste de tolerância à glucose oral já não é mais o padrão-ouro para avaliar a função endócrina — hoje se usa a hemoglobina glicada e a dosagem de peptídeo C quando há dúvida entre diabetes tipo 1 e tipo 2.
Se você procura informações sobre qual função do pancreas e quer aprofundar, recomenda-se consultar guias clínicos atualizados como os da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia ou da União Europeia de Gastroenterologia. O manejo da doença pancreatica exige acompanhamento multidisciplinar, envolvendo gastroenterologista, endocrinologista e nutricionista, especialmente nos casos de pancreatite crônica onde a desnutrição é uma complicação frequente e subestimada.