A reserva ovariana não é o que a maioria das pessoas imagina
A gente ouve muito falar em estoque de óvulos, como se fosse uma conta bancária em que você faz depósitos. A biologia não funciona assim. Uma menina já nasce com todos os óvulos que ela vai ter na vida, e esse número só diminui. Não há reposição. Não existe regeneração ovariana significativa após o nascimento, e estudos que sugeriram o contrário foram amplamente questionados e não se confirmaram em revisões sistemáticas. O número varia bastante entre indivíduos, mas os valores médios aceitos na literatura são esses: no sétimo mês de gestação, uma feto feminino pode ter cerca de 6 a 7 milhões de óvulos. No nascimento, esse número cai para algo em torno de 1 a 2 milhões. Na puberdade, restam cerca de 300 mil a 400 mil. Durante a vida reprodutiva, apenas algumas centenas de milhar serão Ovuladas efetivamente. O resto entra em processo chamado Atresia Folicular, que é basicamente degeneração controlada dos folículos que não são selecionados para ovulação naquele ciclo.
Quantos óvulos uma mulher tem
Essa é a pergunta que touto mundo faz, e a resposta curta é: depende da idade. Mas a resposta útil exige um pouco mais de detalhe. Aos 25 anos, uma mulher média tem entre 100 mil e 250 mil folículos ovarianos. Aos 35, esse número pode ter caído para algo na casa dos 50 mil a 100 mil. Aos 40, frequentemente menos de 25 mil. E aos 45, a reserva pode estar abaixo de 5 mil folículos, o que explica por que a fertilidade natural nessa idade já é considerada bastante reduzida. O problema é que esses números são médias. A variabilidade individual é enorme. Eu já vi casos em clínicas de fertidade onde mulheres de 38 anos tinham contagem de óvulos (AMH e reserva folicular antral) compatível com alguém de 28, e outras de 29 com reserva preocupantemente baixa. Isso significa que idade cronológica não é sinônimo exato de reserva ovariana. O teste de AMH (hormônio anti-mülleriano) e a ultrassonografia de folículos antrais são as ferramentas que usamos para avaliar isso na prática.
Há um equívoco comum aqui: muita gente acha que AMH alto significa fertilidade garantida e AMH baixo significa esterilidade. Não é assim. AMH baixo indica menor reserva, mas não necessariamente menor qualidade ovulatória. Mulheres com AMH baixo podem engravidar naturalmente com facilidade. O oposto também não é verdade: AMH alto não protege contra má qualidade embrionária. O que realmente importa para o desfecho gestacional é a qualidade genética do óvulo, que declina principalmente com a idade, não com o número. Outro ponto que as pessoas ignoram é que a queda da reserva não é linear. Ela é exponencial. Os primeiros anos de vida adulta há uma queda relativamente lenta, algo como 1.000 folículos por mês. Mas a partir dos 35 anos, a taxa de perda acelera drasticamente. É nessa faixa que muitos casais começam a ter dificuldades e não entendem o porquê. A reserva já estava baixa e eles simplesmente não perceberam.
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Eu tive um caso recente que ilustra bem isso. Uma paciente de 36 anos veio procurando transferência de embriões congelados de uma rodada anterior de FIV. Na rodada anterior, ela tinha produzido 3 óvulos maduros, dos quais apenas 1 embrionario desenvolveu até o estágio de blastocisto e foi criopreservado. Ela achava que aquela era sua "sorte" e que a próxima transferência seria tranquila. Mas a realidade é que, com a reserva já reduzida naquela idade, cada ciclo de estimulação ovariana produziria provavelmente um número ainda menor de óvulos. A informação que passei a ela foi direta: aquela transferência era provavelmente a última com seus próprios óvulos, a menos que ela considerasse doadores. Ela precisou aceitar isso clinicamente, o que é sempre um momento difícil. Se você está buscando entender sua própria reserva ovariana, o caminho prático é procure um ginecologista ou especialista em reprodução que peça AMH e uma Ultrasssonografia transvaginal para contar os folículos antrales. Esses dois exames juntos dão uma visão razoavelmente precisa. Existem testes caseiros de AMH, mas a precisão deles é questionável e o resultado isolado não substitui a avaliação clínica.
Um detalhe importante sobre AMH: ele flutua pouco durante o ciclo menstrual, o que permite qualquer dia de coleta. Já a contagem de folículos antrales depende do dia do ciclo e deve ser feita preferencialmente entre o segundo e quinto dia. Se você agendar no dia errado, o resultado pode subestimar a reserva real. Também vale mencionar fatores que aceleram a queda da reserva: tabagismo, endometriose, cirurgias ovarianas prévias, quimioterapia e radioterapia. O tabagismo, especificamente, está associado a uma redução de até 50% nos níveis de AMH em comparação com não fumantes. Isso não é especulação; são dados de coortes epidemiológicas robustas.
Se você tem menos de 30 anos e está apenas planejando o futuro reprodutivo, ter essa informação agora pode fazer diferença em decisões simples como adiar a maternidade ou considerar a preservação de óvulos. A criopreservação de óvulos é mais eficaz quanto mais jovem for a mulher no momento da coleta. Uma mulher de 30 anos pode produzir 10 a 15 óvulos maduros por ciclo de estimulação, enquanto uma de 38 provavelmente não passará de 3 a 5. A diferença em viabilidade de congelamento e taxas de gravidez por óvulo thawed é substancial. Resumindo de forma seca: o número de óvulos diminui desde o nascimento, a velocidade aumenta após os 35, e a contagem real só se sabe com exame clínico. A idade é o fator mais relevante para qualidade ovulatória, não apenas quantidade. Se houver preocupação, o primeiro passo é marcar uma avaliação com profissionais da área reprodutiva e fazer os exames adequados.