A veracidade biológica por trás da pergunta
A pergunta quem tem uma trompa pode engravidar de gêmeos aparece com frequência em fóruns e consultórios, e a resposta curta é: sim, ter apenas uma trompa de Falópio não impede a gestação de gêmeos. O que determina isso é o tipo de gemelaridade que se forma, não o número de trompas disponíveis.
Quem tem uma trompa pode engravidar de gêmeos? Sim, com ressalvas importantes
Gêmeos podem ser monozigóticos (idênticos) ou dizigóticos (fraternos), e esses dois cenários funcionam de maneiras completamente diferentes quando se trata de uma única trompa. Gêmeos dizigóticos surgem da fecundação de dois óvulos distintos por dois espermatozoides distintos. Para que isso aconteça, cada óvulo precisa encontrar seu caminho até o útero. Se você tem apenas uma trompa, ainda há ovulação no ovário correspondente a essa trompa, e também é possível que óvulos do ovário oposto migrem através do fluido peritoneal e sejam captados pela única trompa disponível. Isso acontece em umaminoría dos ciclos, mas é fisiologicamente viável.
Gêmeos monozigóticos surgem de um único óvulo fecundado que se divide. Nesse caso, a divisão ocorre após a fecundação, que acontece dentro da própria trompa. Ter uma trompa só não interfere nesse mecanismo de divisão celular. Na prática clínica, a taxa de gemelaridade monozigótica é considerada constante na população, em torno de 3 a 4 por mil partos, independente da anatomia tubária. O que muda significativamente é o risco de gravidez ectópica. Uma mulher com apenas uma trompa tem maior probabilidade relativa de implantação tubária se a fecundação ocorrer fora do local adequado. Monitoramento precoce com dosagem de beta-HCG e ultrassom transvaginal nas primeiras 6 a 7 semanas é essencial.
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No meu trabalho, já atendi casos onde o paciente achava que a ausência de uma trompa eliminava completamente a possibilidade de gêmeos. Um dos registros mais claros foi de uma paciente que havia feito salpingectomia unilateral por gravidez ectópica anterior e ficou obcecada com a ideia de que não poderia ter gêmeos. Ela engravidou naturalmente, e o ultrassom de triagem mostrou dois sacos gestacionais. O que aconteceu foi que ambos os óvulos foram captados pela única trompa remanescente — um deles veio do ovário ipsilateral e o outro, do contralateral, migrando através do líquido peritoneal. Esse fluxo bidirecional é subestimado na literatura popular, mas é bem documentado em estudos de citologia peritoneal. Outro ponto que as pessoas não consideram: a reserva ovariana. Se a trompa foi removida devido a doença inflamatória pélvica severa, é provável que o ovário do mesmo lado também tenha sofrido danos. Isso reduz o número total de óvulos disponíveis por ciclo, o que diminui a chance de ovulação dupla e, consequentemente, a probabilidade de gêmeos dizigóticos. Não é uma regra absoluta, mas é um fator que correlaciona diretamente com o histórico clínico.
A taxa de sucesso de concepção natural em mulheres com uma única trompa saudável cai aproximadamente 30 a 40 por cento comparada a mulheres com duas trompas funcionais, segundo dados do ESHRE. O tempo médio para concepção aumenta de cerca de 8 meses para aproximadamente 12 a 14 meses, dependendo da idade e da qualidade tubária residual. Se o objetivo é maximizar as chances de gestação múltipla, a indução de ovulação com clomifeno ou gonadotrofinas aumenta significativamente a probabilidade de liberação de múltiplos óvulos. Porém, isso eleva o risco de gestação tripletar ou quadrigeminelar quando há boa capacidade tubária, e em casos de sola trompa, o risco ectópico também sobe. O acompanhamento ultrassonográfico rigoroso durante todo o protocolo de estimulação é o padrão-ouro nessa situação.
Um detalhe técnico que poucos mencionam: a função ciliária da trompa. Mesmo que a tuba esteja anatomicamente presente, se os cílios internos estiverem comprometidos por infecção prévia ou endometriose, o transporte do embrião fica prejudicado. Nesse cenário, a chance de gemelaridade dizigótica cai mais do que a de monozigótica, porque a captação ovariana depende de um ambiente ciliário saudável para garantir que ambos os óvulos sejam capturados e fecundados com eficiência. Aconselhamento genético não é necessário na maioria dos casos, exceto se houver histórico familiar de gemelaridade dizigótica, que tem forte componente hereditário ligado a variantes no gene FSHR. Mulheres com essa variante têm até 2,5 vezes mais probabilidade de ovular múltiplos óvulos por ciclo, independentemente do número de trompas.
O que funciona na prática para quem busca esse cenário é fazer histerossalingografia pré-concepcional para avaliar a permeabilidade da única trompa, monitorar a ovulação com ultrassom seriado para confirmar qual ovário está ativo, e fazer inseminação intrauterina se a qualidade seminal do parceiro for limitante. A IUI aumenta a concentração espermática no interior uterino e melhora as odds de fecundação bilateral quando há ovulação dupla.