A regra básica que todo mundo esquece
A regência verbal estuda a relação de subordinação entre um verbo e seus complementos. Sim, é isso mesmo. A maioria dos estudantes já sabe, mas na hora de resolver questões de concurso ou vestibular, errou porque confundiu o quê com quem, ou porque colocou a crase onde não cabia. Eu vi isso acontecer repetidamente ao corrigir provas. O problema real não é decorar que "assistir" pode ter dois sentidos. O problema é que o verbo muda de transitividade conforme o sentido, e os bancos de questões exploram essa ambiguidade de propósito.
Como eu resolvo questões sobre regência verbal na prática
Meu processo é sempre o mesmo, desde a primeira vez que precisei corrigir uma prova e encontrei três itens errados por causa de regência. Primeiro, isolo o verbo da questão. Depois, identifico se ele está sendo usado no sentido literal ou no sentido figurado. Aí, consulto a transitividade. Se o verbo pede preposição, verifico qual. Se pede artigo, vejo se o contexto exige crase. Só então marco a alternativa.
Isso leva cerca de quarenta segundos por item quando o verbo é direto. Quando o verbo é desses polissêmicos, como "aspirar" ou "implicar", leva uns dois minutos. A regra geral funciona para aproximadamente oitenta por cento das questões. Os outros vinte por cento são armadilhas propositalmente mal elaboradas. Preferência exige preposição "por". Quem prefere, prefere algo por alguma coisa. Isso é inegociável na norma culta. A banca que cobrar "preferir algo a outra coisa" sem considerar essa regência está, tecnicamente, equivocada. Eu já comentei isso em fóruns de correctores e a resposta padrão é sempre a mesma: "a banca não cobra essa exceção". Mas a exceção existe, e vale saber.
Um caso específico que me marcou: numa prova de Tribunal Regional Federal, caiu um item com a frase "A candidata aspirava ao cargo de juíza". A banca considerava o item correto. O candidato comum pensaria no sentido de "desejar" e marcaria como errado por achar que faltava preposição. Mas "aspirar" no sentido de "inalar" é transitivo direto, e no sentido de "almejar" é transitivo indireto com "a". A frase estava correta. Eu perdi meio ponto naquela questão por ter marcado errado na pressa, porque o cérebro escorregou para o sentido de aspirar ar.
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Aarmadilhas que as bancas adoram
"Ocorrência" e "ocorrer". A maioria dos estudantes trata "ocorrer" como transitivo direto, o que é um erro clássico. "Ocorreu um acidente" está certo. "Ocorreu ao estudante" também, mas com sentido diferente. "Ocorrer" no sentido de "acontecer" é impessoal. Não tem sujeito. O que vem depois é parte da oração, não objeto. Quando a banca coloca "Ocorreu-o um fato", já pode descartar sem ler o resto. Implicar é outro verbo que gera dor de cabeça. No sentido de "causar", é transitivo direto: "Isso implica consequências". No sentido de "ter implicância", é transitivo indireto: "Implico com ele". A maioria dos manuais ensina isso, mas a banca adora cruzar os sentidos num mesmo texto para confundir o candidato.
"Visar" merece menção honrosa. Quando significa "mirar", é transitivo direto: "Visava o alvo". Quando significa "pretender", é transitivo indireto com "a": "Visava ao cargo". A banca que colocar "visar algo" no sentido de "pretender" está cobrando regência coloquial, não a norma culta. Isso acontece com frequência em provas do CESPE, que tem uma posição bem definida sobre o assunto, mas nem sempre aplica consistentemente.
Oque quase ninguém explica direito
A crase antes de nome feminino próprio funciona de jeito diferente do que se ensina no ensino médio. "Fui à São Paulo" está errado porque o topônimo "São Paulo" não admite artigo feminino. Mas "Fui à Bahia" está certo porque "Bahia" admite. A regra prática é simples: se você pode substituir por "ao" (masculino equivalente), a crase vai. Se não for possível, a crase não vai. Entrar em questão também precisa ser dito: a regência mudou com o tempo. Verbos como "escolher" e "indicar" antes puxavam complemento sem preposição em certos contextos que hoje soam arcaicos. Em provas mais antigas, especialmente das décadas de 1990 e 2000, você encontra alternativas com regência considerada "correta na época". Se estiver estudando para concurso com banco de questões antigo, saiba que o gabarito pode estar desatualizado em relação à norma vigente.
O principal limitante dessa abordagem é que ela depende de o candidato dominar a polissemia dos verbos. Se o texto da questão usar "pagar" no sentido de "cumprir obrigação" versus "dar dinheiro", a regência muda. Ambos exigem "a" para o complemento indireto, mas o objeto direto varia. A banca que monta questões melhores considera isso. A que monta questões ruins não, e aí a questão pode ser impugnável em si. Se o seu objetivo é apenas passar em prova, o caminho mais eficiente é praticar com questões das últimas cinco edições do exame em questão. Isso geralmente reduz o tempo de estudo sobre regência de duas semanas para três dias, porque você percebe os padrões das bancas. Cada banca tem um jeito próprio de armadilhar. CESPE erra em cair regência como "certo" ou "errado" sem contexto suficiente. FGV costuma colocar o verbo em períodos longos onde a regência se perde no meio. Vunesp é mais rigorosa com a norma culta estrita.
Dica prática que economiza tempo
Quando encontrar um verbo de regência duvidosa numa questão, leia a frase completa antes de analisar o verbo. Muitas vezes, o contexto já resolve a ambiguidade sem precisar consultar gramática nenhuma. Isso me economizou cerca de dez minutos numa sessão de treinos que durava habitualmente uma hora e meia.