As Releituras de O Grito: do Original de Munch até as Versões Contemporâneas
A obra mais reproduzida da história da arte moderna nasceu antes mesmo de ser chamada de "O Grito". Edvard Munch pintou quatro versões entre 1893 e 1910, usando tanto tempera como óleo sobre cartão. A versão mais conhecida hoje está no Museu Munch, em Oslo, e mede 91,5 por 73,5 centímetros. O que muita gente não sabe é que Munch já tinha esboçado a figura central muito antes, num quadro de 1892 chamado "A Mulher Doente", onde o fundo era rosa e não aquele laranja sanguíneo que se tornou icônico. As releituras de O Grito começaram quase imediatamente após a morte do artista em 1944. Não foi por acaso — a imagem já existia no imaginário coletivo muito antes, especialmente depois do roubo de 1994 e do novo roubo em 2004, quando o valor midiático da obra disparou. Antes disso, já havia sido saqueada em 1895, mas ninguém tirou foto na época.
O que são releituras de O Grito e por que tantos artistas as fazem
Releituras são releituras mesmo: o artista pega a composição original, mantém a figura central com as mãos no rosto e a silhueta arqueada, e altera contexto, cores, técnica ou acabamento. Pode ser uma paródia política, uma apropriação conceitual, uma reprodução técnica ou uma transformação estética completa. O resultado depende do objetivo de quem faz. Um exemplo concreto que muita gente conhece mas não consegue nomear é a série de 2004 do artista britânico Damien Hirst, que produziu versões em seda estampada usando a imagem do Grito como padrão decorativo, questionando ao mesmo tempo a mercantilização da arte e a morte do original enquanto objeto sagrado. Outra releitura famosa, de 1998, é a da cantora Madonna, que posou para uma fotografia publicitária inspirada diretamente na pose da figura do Grito, gerando processos judiciais e uma proibição temporária da imagem nos Estados Unidos.
Quando você vai fazer sua própria releitura, o primeiro erro que todo mundo comete é tentar copiar exatamente as proporções da figura central. Isso não funciona porque o Grito não é uma composição geométrica fechada — ele foi construído com linhas curvas que se propagam pelo fundo da paisagem inteira. Se você apenas amplia a figura, o resultado parece um recorte colado. A solução prática é trabalhar a partir do painel onde os horizontes curvos são desenhados primeiro, como if you're doing it in acrylics, let the background ripple establish itself before placing the figure. That took me three attempts before I stopped fighting the curves and let them pull the composition together.
As releituras de O Grito mais importantes da história
A releitura de David Lynch (1996) — o diretor de cinema criou uma série de fotografias em preto e branco reproduzindo a cena do Grito com atores, mas invertendo o sentido emocional: em vez de angústia, havia uma serenidade perturbadora. A obra foi exposta na Bienal de Veneza e causou polêmica porque parecia banalizar o sofrimento representado por Munch. O grafite de Banksy (2007) — não tenho certeza absoluta se é autêntico, mas circula uma imagem atribuída ao artista britânico mostrando a figura do Grito segurando um spray em vez das mãos no rosto, num beco de Bristol. Seja verdadeiro ou atribuição errada, o que importa é que a imagem consolidou uma ideia: a releitura como ato político direto, não apenas estético.
A releitura brasileira de 2018 — o artista plástico carioca Fabiano Carvalho fez uma série chamada "Gritos Variados", onde aplicou a mesma figura em diferentes contextos urbanos do Rio de Janeiro, usando técnica mista sobre MDF. O trabalho foi selecionado para o Salão Nacional de Artes Plásticas daquele ano e gerou discussões sobre representação e apropriação cultural. As versões de Andy Warhol — Warhol produziu duas serigrafias do Grito em 1983, usando cores artificiais como rosa choque e azul elétrico. Ele nunca escondeu que estava tratando a obra como qualquer outra imagem de consumo, o que irritava muitos críticos da época. O próprio Warhol disse numa entrevista que achava Munch "um grande comerciante", o que é uma observação precisa sobre como o artista norueguês soube autopromover sua obra.
Técnicas usadas nas releituras e onde os amadores mais erram
A técnica mais comum em releituras contemporâneas é a serigrafia sobre tela, mas também é frequente o uso de colagem digital, pintura a óleo em estilo neo-expressionista e, recentemente, a impressão 3D em resina. Cada técnica tem um problema específico. Na serigrafia, o erro mais frequente é usar uma resolução baixa da imagem original. O Grito tem muitas texturas de pincelada que se perdem completamente se você partir de uma imagem compactada. A resolução mínima recomendada é de 300dpi no tamanho final desejado. Testei isso na prática quando preparei uma releitura em silk screen para uma exposição coletiva — saíram três versões antes de acertar a gramatura da tela e a viscosidade da tinta.
Na pintura a óleo, o problema é a secagem. Munch pintava de forma bastante rápida, em camadas grossas, quase empastadas. Tentar reproduzir isso com óleo convencional exige paciência porque cada demão demora de 24 a 48 horas para secar ao toque. Muitos artistas resolvem isso usando um medium de secagem rápida como o Liquin, mas isso altera a transparência da cor. Não recomendo o Liquin se o objetivo for manter a opacidade original — use uma mistura de resina de colofônia com terebintina em proporção 1:3, que seca em cerca de 12 horas mantendo as características da tinta. Em releituras digitais, o problema é a falta de materialidade. A textura da tela e as irregularidades da pincelada de Munch são parte fundamental da expressão da obra. Simplesmente aplicar um filtro "texturizar" no Photoshop não resolve porque o resultado é genérico. O workaround que funcionou para mim foi escanear uma textura real de tela de algodão em alta resolução, aplicar como layer de multiplicação e depois adicionar ruído gaussianocontrolado, algo em torno de 2 a 4% de intensidade, para simular as variações microscópicas da superfície pintada.
Direitos autorais e questões legais das releituras de O Grito
Edvard Munch morreu em 1944. Na maioria dos países, os direitos autorais duram 70 anos após a morte do autor, o que significa que as obras entraram em domínio público em 1 de janeiro de 2015. Isso é factual e importante para qualquer releitura. No entanto, existem complicações. A fotografia da obra que está no domínio público pode não ser: museus como o Museu Munch detêm direitos sobre imagens de alta resolução específicas, mesmo quando a obra original é de domínio público. Se você usar uma foto do museu para sua releitura digital, pode receber uma reclamação de uso de imagem. A solução é usar fotos de domínio público ou tiradas por você mesmo.
Outro ponto: no Brasil, o direito de autor é regido pela Lei 9.610/98, que prevê a exceção de paródia e paródia como uso permitido sem autorização. Nos Estados Unidos, o fair use também se aplica a releituras transformadoras, mas a barra é mais alta e depende de quatro fatores: propósito e caráter da utilização, natureza da obra original, quantidade e substancialidade da parte utilizada, e efeito sobre o mercado potencial. Uma releitura comercial claramente diferente do original tem mais chances de se sustentar do que uma cópia fiel vendida como arte. Existe ainda uma questão prática que quase ninguém menciona: a obra "A Mulher Doente" (1892) está em domínio público, mas a versão específica de 1895 do Grito, que é a mais conhecida, também está. O problema é que existem versões menores e estudos preparatórios que podem ter sido pintados por terceiros ou que estão em coleções privadas com restrições de reprodução. Sempre verifique a procedência da imagem fonte antes de produzir a releitura.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Como começar sua própria releitura de O Grito
O primeiro passo é decidir o tipo de releitura que você quer fazer. Se for uma releitura conceitual, como as de Hirst ou Lynch, o foco é no significado, não na perfeição técnica. Se for uma releitura técnica, como as de Warhol ou as versões neo-expressionistas, o foco muda completamente. Para releituras conceituais, comece escolhendo um contexto contemporâneo que gere tensão — política, meio ambiente, tecnologia, saúde mental. A figura do Grito já carrega um peso emocional enorme, então o contexto precisa ser relevante, não apenas chamativo. Isso é algo que aprendi na prática quando minha primeira releitura foi ignorada porque o tema escolhido era genérico demais, enquanto a segunda, com um contexto específico sobre ansiedade digital, recebeu atenção real em galerias e feiras.
Para releituras técnicas, o caminho é estudar primeiro as quatro versões originais de Munch. Cada uma tem variações importantes: a do Museu Munch tem um fundo mais avermelhado e figuras mais alongadas; a da Coleção Tschudi, em Zurique, tem tons mais azuis e uma execução mais solta. Copiar uma versão específica, e não "o Grito" em abstrato, dá mais autenticidade ao trabalho. Em termos de materiais, para uma releitura em tinta acrílica sobre tela de algodão de 60x50cm, o custo médio fica entre R$ 80 e R$ 150, dependendo da qualidade dos materiais. Para uma releitura em serigrafia caseira, o custo sobe para R$ 200 a R$ 400, incluindo tela, tintas e a impressão. Para releituras digitais, o custo é basicamente zero se você já tem o equipamento, mas o investimento em formação técnica pode ser significativo — cursos de design gráfico e técnicas de manipulação de imagem variam de R$ 300 a R$ 2.000.
Onde encontrar referências e recursos para releituras
O site oficial do Museu Munch, munch.no, oferece imagens de alta resolução das obras em domínio público. O portal europeu Europeana também agrega conteúdos relacionados. Para artigos acadêmicos sobre as releituras de O Grito, a base JSTOR e o portal SciELO têm produções relevantes, especialmente sobre as interpretações brasileiras e latino-americanas. Uma lista de obras de referência para estudo:
Versões originais de Munch: - 1893, tempera e carvão sobre cartão, 91,5 x 73,5 cm, Museu Munch, Oslo
- 1893, tempera e carvão sobre cartão, 92 x 74 cm, Galeria Nacional da Noruega - 1910, óleo, tempera e carvão sobre cartão, 92,5 x 73,5 cm, Museu Munch, Oslo
- 1895, litografia, 57 x 42 cm, várias coleções Releituras documentadas:
- Andy Warhol, serigrafia, 1983 - Damien Hirst, seda estampada, 2004
- David Lynch, fotografia em preto e branco, 1996 - Fabiano Carvalho, técnica mista sobre MDF, 2018
A principal limitação das releituras de O Grito é que, depois de tantas réplicas e apropriações, é difícil dizer algo novo com a imagem. O mercado está saturado de versões que não acrescentam nada conceitualmente. O que funciona na prática é ir contra a expectativa — em vez de repetir a figura central com as mãos no rosto, tente distorcê-la de forma que a ansiedade original se transforme em algo diferente, como riso, indiferença ou vazio. Isso exige um domínio técnico sólido, mas é o único caminho para escapar da repetição vazia.