O teste de desenho do relógio na prática
O relogio desenho é um dos instrumentos de triagem cognitiva mais usados na clínica, e também um dos mais mal compreendidos. A ideia parece simples: pede-se para a pessoa desenhar um relógio analógico, colocar os números e apontar para uma hora específica. Na maioria das vezes, pede-se as 11:03 ou as 10:10. O que acontece depois disso é o que importa. Avalio esse teste basicamente em três camadas. A primeira é a execução motora e perceptiva — se a pessoa consegue traçar um círculo reconhecível e posicionar os elementos no lugar certo. A segunda é a função executiva e visuoespacial — a capacidade de converter uma instrução verbal abstrata ("são onze horas e três minutos") em uma representação espacial coerente. A terceira, e a mais importante, é a análise qualitativa dos erros, não apenas o escore final.
Como fazer um relogio desenho corretamente
Se você é profissional de saúde e quer aplicar o teste de forma padronizada, o procedimento padrão funciona assim: forneça uma folha em branco A4 e uma caneta. Peça para a pessoa desenhar um relógio com todas as horas. Depois, solicite que marque com os ponteiros a hora indicada. A hora mais comum para o segundo comando é 11:03, porque exige que o ponteiro das horas fique quase sobre o 11 e o dos minutos quase sobre o 1, criando uma configuração que separa bem quem tem dificuldade de planejar spacing angular. Existe uma escala de pontuação muito utilizada chamada de Korczyn, que varia de 0 a 3 pontos por domínio. Também há a versão de Shulman, que dá de 0 a 3 pontos totais. A maioria dos serviços de neurologia e geriatria usa a combinação das duas. Um resultado normal costuma ficar acima de 25 pontos na escala completa de 30.
Eu particularmente prefiro trabalhar com a análise qualitativa em vez de me limitar ao escore numérico. Um paciente pode chegar a 28 pontos e ainda assim mostrar padrões clínicos relevantes se você olhar como ele chegou lá. O número sozinho não conta a história toda. O que eu vejo com frequência em prontuários mal analisados é gente que anota "relógio normal" porque o paciente desenhou os números em círculo e apontou uma hora qualquer. Isso não é suficiente. Você precisa documentar se o círculo é fechado ou irregular, se os números estão desproporcionais, se há compressão de um lado do relógio, se o espaçamento entre os numerais segue a lógica de 30 graus ou se está completamente desorganizado. Cada um desses detalhes carrega informação diferente.
Erros que realmente importam
Os erros mais sensíveis para detecção de comprometimento cognitivo leve estão relacionados à localização dos numerais. Quando os números são colocados de forma irregular — tipo o 7 muito perto do 6 e o 8 muito afastado — isso sugere dificuldade visuoespacial que vai além do envelhecimento normal. Outro erro clássico é a confusão entre ponteiro das horas e dos minutos. O paciente coloca o ponteiro curto no 3 e o longo no 11 quando pediu 11:03. Isso indica dificuldade de integração frontoparietal. Também é importante observar o timing da execução. Um paciente com doença de Alzheimer em estágio inicial muitas vezes desenha o relógio muito lentamente, com pausas longas, como se estivesse processando cada decisão individualmente. Já alguém com comprometimento front_executivo tende a fazer um círculo irregular de cara e depois enfiar os números sem planejamento, num processo meio caótico e apressado. O padrão temporal ajuda a diferenciar tipos de demência.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Um detalhe técnico que pouca gente leva a sério: o tamanho da folha e a orientação dela. Se o paciente recebe uma folha na horizontal em vez da vertical, ou se a folha é menor que A4, os resultados ficam comprometidos. Eu já vi casos em que um idoso aparentemente normal tinha um desenho terrível porque a caneta escorregava numa folha de papel couché brilhante que o recepcionista tinha colocado no lugar errado. O material importa mais do que parece.
Limitações que ninguém gosta de admitir
O teste de desenho do relógio tem problemas reais que precisam ser considerados antes de usar o resultado isoladamente como critério diagnóstico. Pessoas com baixa escolaridade — digamos, menos de cinco anos de estudo formal — tendem a ter desempenho pior independentemente do estado cognitivo real, porque nunca tiveram prática de ler e escrever relógios analógicos. Um idoso que passou a vida toda com relógio digital e nunca aprendeu a ler um mostrador analógico pode falhar no teste sem ter nenhuma demência. Deficits visuais não corrigidos também distorcem o resultado. Se a pessoa não consegue ver bem o mostrador ou não tem acuidade visual para traçar linhas precisas, o desenho fica comprometido por razões puramente motoras. Sempre verifique a acuidade visual antes de aplicar o teste.
Outro ponto fraco importante: a sensibilidade do teste varia conforme o tipo de défict. Para demência frontotemporal, o desenho do relógio pode ser surpreendentemente preservado nos estágios iniciais, enquanto deficits executivos graves estão presentes. Nesses casos, o teste simplesmente não captura o problema. Para demência por corpos de Lewy, o comprometimento visuoespacial costuma ser mais evidente no relógio, mas a variabilidade interdiária é grande — um dia o paciente desenha bem e no outro não consegue fazer nada coerente. Se você precisa de um instrumento mais sensível para acompanhamento longitudinal, o Mini-Exame Cognitivo (MEC) ou o MoCA são opções mais robustas. O desenho do relógio funciona melhor como triagem rápida em consultório do que como ferramenta de monitoramento detalhado.
Um caso que ficou na minha cabeça
Tratei uma paciente de 72 anos que apresentou desempenho aparentemente normal no teste padrão, marcando 27 pontos. Parecia tudo certo. Mas quando analisei o desenho com calma, percebi que ela havia colocado os números em sequencia horária correta mas com espaçamento desigual — os numerais de 7 a 12 estavam muito juntos no lado direito, enquanto de 1 a 6 ocupavam muito espaço no lado esquerdo. Quando perguntei como ela tinha feito, disse que pensou primeiro em tudo que estava à esquerda e depois preencheu a direita. Esse padrão de compilação assimétrica não aparecia no escore total, mas era um sinal claro de dificultde de planejamento secuencial ligada a disfunção prefrontal. A ressonância magnetica dois anos depois mostrou atrofia frontal assimétrica. O teste tinha detectado algo que o escore não mostrava. Isso me fez mudar minha abordagem. Desde então, anoto sempre o padrão de erro qualitativamente, não só o escore. O resultado clínico é mais útil dessa forma.
Se você quer material de referência para interpretar os desenhos, o artigo original de Nathan Kleinman e Jeffrey Tarzian, publicado no Journal of the American Board of Family Physicians em 2003, ainda é a base mais citada. Também há a validação brasileira feita por Petoresi e colaboradores, que ajustou os pontos de corte para a população latino-americana.