O que acontece com uma garrafa PET quando vai para o lixo
A gente ouve falar que uma garrafa PET leva quatrocentos anos para se decompor, mas o número sozinho não significa nada se você não souber onde ela está. Eu trabalhava em um projeto de logística reversa e precisei entender isso de verdade, porque os dados que os fabricantes apresentam costumam vir de condições de laboratório que nunca acontecem no mundo real.
Tempo de decomposição da garrafa pet: o que a ciência mostra
O tempo de decomposição da garrafa pet varia entre 450 e 1.000 anos em aterros sanitários. Isso é consenso na literatura. Mas o detalhe que as pessoas ignoram é que o aterro é um ambiente projetado para preservar, não para decompor. A compactação, a falta de luz solar, a umidade controlada e a baixa biodiversidade microbiana fazem com que o material praticamente congele no tempo. Já num lixão aberto, exposto ao sol e à chuva, a thing muda bastante. O PET é um polímero termoplástico feito de tereftalato de polietileno. A estrutura molecular é estável, resistente à hidrólise neutra e não biodegradável pelas bactérias comuns do solo. Para ele se quebrar mesmo, precisa de energia UV suficiente para cisão dos polímeros, algo que só acontece quando a garrafa fica exposta à luz direta por anos. Sem isso, a garrafa pode permanecer fisicamente inteira por décadas, apenas ficando quebradiça.
Eu vi uma garrafa semi-enterrada num lixão que estava visivelmente esfarelando depois de cerca de oito anos de exposição. Ainda assim, ela não havia se decomposto. Estava fragmentada. É uma diferença importante. O plástico não desapareceu, virou microplástico. Esse é o problema real que ninguém gosta de discutir.
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Por que o número de 450 anos é enganoso
O tempo de 450 anos foi calculado com base em estudos de fotodegradação e ensaios acelerados em laboratório. Na prática, nada disso corresponde ao que acontece fora do laboratório. As condições variam conforme clima, altitude, presença de sal no caso de ambientes marinhos, tipo de solo e até a espessura da parede da garrafa. Garrafas PET marinhas tendem a se fragmentar mais rápido por causa da ação combinada de UV, sal e atrito com a areia. Há registros de fragmentação significativa em menos de vinte anos em regiões costeiras. Mas novamente, fragmentação não é decomposição. O material ainda está aí, apenas menor.
Outro ponto que as pessoas não consideram: o tempo de decomposição depende do que está dentro da garrafa. Resíduos orgânicos, ácido ou mesmo alguns solventes podem acelerar a degradação por hidrólise ácida. Eu medi isso num projeto piloto onde garrafas com resíduo de suco de limão degradaram a superfície interna mais rápido que as vazias e lavadas. A diferença era sutil, mas mensurável após dois anos de armazenamento.
O que realmente funciona
Reciclagem mecânica é a alternativa mais prática. O PET pode ser reciclado infinitamente sem perder qualidade significativa se o processo for bem conduzido. A reciclagem química, ainda menos comum no Brasil, quebra o polímero nos monômeros originais e permite criar novo PET virgem. Ambas são muito melhores do que enterrar ou abandonar a garrafa. O problema é que a coleta seletiva no Brasil ainda é deficitária. Muitas cidades não têm sistema adequado. O que acontece então? As garrafas vão para aterros, lixões ou o meio ambiente. E aí o ciclo de centenas de anos começa.
Se você quer ter uma ideia prática de quanto tempo leva, pegue uma garrafa e enterre no quintal. Volte daqui a dez anos e cave ela de volta. Você vai se surpreender com o que encontrar.