Notas da flauta doce: guia prático para iniciantes e intermediários
A flauta doce mais comum no Brasil é a soprano em dó (a famosa "branca" de madeirinha ou plástico baratinho). Ela vai do dó central até o si agudo, três oitavas acima, usando os dois dedilhados padrão — direita e esquerda. O problema é que a maioria dos materiais que você encontra na internet mostra apenas os primeiros tons, sem explicar o que acontece depois do fá agudo. Esse é o ponto onde as coisas complicam e onde a maioria das pessoas desiste.
Como ler todas as notas na flauta doce passo a passo
Antes de tentar qualquer coisa, entenda o formato básico do dedilhado. A flauta doce tem nove furos na frente e um atrás. Os dedos da mão esquerda cobrem os três superiores (índice, médio e anelar), a mão direita cobre os quatro inferiores e o polegar esquerdo tapa o furo traseiro. Isso é padrão desde a flauta doce renascentista até os modelos escolares fabricados nos anos 1970 na Alemanha Oriental. O dedilhado fundamental segue uma lógica linear: cada furo que você destampa sobe uma nota. Comece pelo dó central (C4) com todos os furos tapados — incluindo o polegar traseiro. Destampe o dedo indicador esquerdo e você terá o ré (D4). Continue descendo pelos dedos da mão esquerda até o fá (F4), que abre todos os três dedos superiores. A partir daí entra a primeira exceção séria.
O Fá sustenido (F#4) não se consegue só destampando mais um furo. Você precisa usar o polegar traseiro meio tampado, também chamado de half-hole. Na prática, isso significa cobrir apenas metade do furo de trás com a ponta do polegar. Se você tampar tudo, fica o Sol. Se destampar tudo, o som falha ou sai um Si bemol muito desafinado. Eu perdi duas semanas tentando tocar Freto nos anos 2008 sem saber disso. O professor veio, ajustou meu polegar em três segundos e minha afinação melhorou instantaneamente. É esse tipo de detalhe que todo mundo esquece de ensinar. Ao alcançar o Sol sustenido (G#4), o sistema muda completamente. Agora o dedilhado entra na segunda oitava e depende de uma técnica chamada overblowing — soprando mais forte para fazer a flauta "saltar" uma oitava. O G#4 usa apenas o polegar traseiro fechado e o indicador direito, nada mais. Se você manter o dedilhado do Sol grave e soprar mais forte, a nota não sobe, ela apenas fica estrangulada e desafinada. Já vi gente passar horas nisso sem entender o que estava errado.
Dedilhado completo por oitava
Vamos do grave ao agudo com os dedilhados reais. Usei a notação internacional C D E F G A B, que é o padrão europeu e brasileiro de música erudita. No Brasil às vezes vê-se Dó Ré Mi, mas isso só causa confusão em partituras importadas. Primeira oitava — C4 a B4:
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C4 = todos os nove furos tapados, polegar traseiro fechado. D4 = indicador esquerdo destampado. E4 = indicador e médio esquerdos destampados. F4 = três dedos da mão esquerda destampados. F#4 = polegar traseiro meio tampado + indicador esquerdo aberto. G4 = todos os dedos da mão esquerda abertos, polegar traseiro fechado. G#4 = transição para a segunda oitava, explicado abaixo. A4 = indicador direito destampado, resto da mão esquerda fechado, polegar fechado. B4 = indicador e médio direitos destampados. C5 = quatro dedos da mão esquerda abertos + indicador direito. Segunda oitava — C5 a C6:
Aqui o overblowing é obrigatório. O C5 usa o mesmo dedilhado do C4 mas com pressão de ar significativamente maior. A diferença prática é que o ar precisa sair mais rápido e mais concentrado, não mais "forçado". A maioria dos iniciantes aperta a bochecha e estraga o timbre. O D5 é C5 com indicador esquerdo destampado. O E5 é o mesmo padrão do E4 sobreblow. O F5 é o padrão do F4 sobreblow. O F#5 volta ao meio-tampado do polegar, agora sobreblow. O G5 é todo o polegar fechado comoverblow no padrão do G4. O problema real começa no G#5. O dedilhado aqui é polêmico. Existem duas escolas: a alemã (Baroque) e a inglesa (English). Na alemã, G#5 se faz com indicador direito aberto e polegar traseiro fechado. Na inglesa, usa-se o polegar traseiro meio fechado mais o anelar direito. A alemã soa mais afinada em flautas baroques bem feitas, mas em flautas escolares de plástico barato a nota G#5 soa fora de tom em quase todos os instrumentos. A inglesa é mais tolerante a instrumentos ruins. Eu recomendo começar com a alemã e, se seu instrumento for ruim, testar a inglesa.
A A5 e B5 seguem o padrão da primeira oitava sobreblow. O C6 é o ápice prático da maioria das flautas doces sopranos escolares — o padrão Schletterer ou o padrão inglês moderno permite chegar até o D6 ou até E6 em instrumentos de boa qualidade. Em flauta de R$ 10 da feira, espere que o D6 já saia desafinado demais para ser útil.
Todas as notas na flauta doce: tabela resumida com cifras internacionais
Se você quer uma referência rápida, anote estes dezesseis tons principais na ordem ascendente: C4, D4, E4, F4, F#4, G4, A4, B4, C5, D5, E5, F5, G5, A5, B5, C6. Entre cada par consecutivos está uma terça maior ou menor, dependendo do par. O intervalo entre B4 e C5 é uma segunda menor, como em qualquer escala cromática. O salto mais fácil de executar na prática é entre C5 e C6, que é exatamente uma oitava. O salto mais difícil é o G#5, que varia drasticamente conforme o dedilhado escolhido e a qualidade do instrumento. Há também as notas graves que a flauta soprano não consegue fazer. Alguns modelos como a flauta doce contralto em F (Altpfeife) permitem chegar ao F3 como nota grave. A flauta doce baixo em C desce até o C3. Se você precisa de notas abaixo do C4, precise de outro instrumento, não de técnica avançada.
Outro detalhe que ninguém enfatiza: a afinação varia conforme o bocal e o modelo. Flautas de plástico chinesas baratas frequentemente têm o F#4 e o F#5 desafinados em cerca de quinze a vinte cents acima do tom real. Isso significa que mesmo com o dedilhado certo, a nota soa ligeiramente aguda. A solução prática é abrir levemente o lábio inferior ou reduzir a pressão de ar no bocal. Não é um defeito do seu dedilhado, é um defeito do instrumento. Teste sempre sua flauta antes de julgar sua própria técnica. O uso prático mais comum dessa tabela é para leitura de partituras de escola, coral ou acompanhamento de violão. Se você consegue ler os dedilhados decimais ou em diagrama, o resto é prática. Eu recomenda praticar cada nota sozinha, primeiro em ritmo lento, depois subindo uma oitava e depois descendo. A maioria das pessoas pula direto para músicas e acha que erra porque não consegue tocar rápido. Na verdade elas erram porque não ouviram cada nota individualmente antes.