O básico que ninguém conta sobre Venezuela
Venezuela não é o destino mais simples da América do Sul, e a primeira coisa que você precisa entender é que a situação mudou drasticamente nos últimos anos. O que você vai encontrar nas guias de viagem tradicionais já não se aplica mais. Eu estive lá por trabalho em 2019 e voltei em 2024, e a diferença é absurda. O dólar paralelo existe desde antes da crise, mas a forma como você lida com dinheiro lá dentro é completamente diferente do que funcionava há cinco anos. A pergunta "venezuela o que fazer" aparece muito porque o país ainda intimida os brasileiros. A resposta curta é: você vai encontrar pessoas incrivelmente acolhedoras, comida excelente e paisagens que não existem em nenhum outro lugar do Caribe. A resposta honesta é que planejar uma viagem lá exige mais atenção do que ir para qualquer outro destino sul-americano.
Venezuela o que fazer antes de tudo
Começa pela questão prática que a maioria dos turistas ignora. Visa não é o problema — brasileiros entram sem visto. O problema é conseguir chegar lá e se virar. O sistema bancário venezuelano funciona em bolívar e em dólar simultaneamente, e a taxa de câmbio flutua todos os dias, às vezes várias vezes ao dia em lugares pequenos. Eu cheguei em Caracas em 2024 e tentei sacar em um banco local com meu cartão brasileiro. Nada. Cartão internacional simplesmente não funciona na maioria dos estabelecimentos fora dos hotéis grandes, e mesmo nesses hotéis o custo de transação é abusivo. A solução que funcionou para mim foi levar dinheiro vivo em dólares americanos — notas novas, sem rasgos, sem marcas. Dólares amassados ou desenhos gastos são recusados em qualquer esquina. O câmbio que você vai conseguir no mercado paralelo em 2024 gira em torno de 35 a 40 bolívares por dólar, dependendo da cidade. Em Caracas e Maracaibo a liquidez é maior. Em cidades menores como Merida ou San Cristobal, a taxa pode variar e você precisa negociar. Levar reais não resolve porque a conversão direta real-bolívar é praticamente impossível fora dos bancos, e os bancos cobram taxas que inviabilizam o negócio.
O que fazer e onde ir
Caracas não é exatamente uma prioridade turística, mas a Laguna de Tacarigua e o Centro Cultural Teresa Carreño valem uma visita se você tiver tempo. O que a maioria das pessoas procura é o sul. Canaima e o Salto do Ángel são o cartão-postal do país, e sinceramente, fazem jus à reputação. O voo de Ligero ou Aero Tucan de Caracas a Canaima leva cerca de 40 minutos e custa entre 120 e 180 dólares. Reserve com antecedência — os assentos acabam rápido na alta temporada, que vai de dezembro a março. Los Roques merece menção separada. É um arquipélago com algumas das praias mais bonitas do continente, e o acesso é controlado pelo governo venezuelano. Você precisa de uma autorização especial e hospedar-se em uma posada autorizada na ilha principal. Custa mais do que você imagina, mas o preço inclui transporte aéreo desde Caracas, alojamiento e alimentação. Eu fiz esse roteiro em 2024 e paguei cerca de 900 dólares por pacote de 5 dias, tudo incluso. Não tente improvisar — sem autorização você nem embarca no voo.
A Isla de Margarita é a opção mais fácil se você está chegando e quer algo tranquilo. Praia, hotel, comida. Sem surpresas. O aeroporto de La Isabela recebe voos diretos de São Paulo e do Rio com a Avianca e a LaMia. Fica tudo bem.
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Pegadinhas que ninguém menciona
A internet. Sim, existe internet na Venezuela, mas a velocidade é uma piada. Dados móveis funcionam razoavelmente bem em Caracas e nas cidades maiores. Fora disso, espere quedas constantes. Eu levei um chip da CANTV e funcionou perfeitamente em Caracas, mas entrou em colapso completo quando fui para Canaima. A solução foi usar o WhatsApp para comunicação mesmo em situações de emergência — ele consome muito pouco dados e funciona até em redes instáveis. O segundo ponto é saúde. Não adianta ter seguro saúde internacional que cobre o mundo inteiro. Muitas clínicas privadas na Venezuela não têm convênio com seguradoras estrangeiras, e hospitais públicos não atendem estrangeiros sem pagamento antecipado. Leve seus remédios de uso contínuo na bagagem de mão, com receita médica. Eu levava um antibiótico específico que meu médico prescreveu para viagens tropicais, e graças a Deus não precisei usar, mas ter a opção disponíveis me deu tranquilidade.
Há ainda a questão da segurança que precisa ser encarada de forma pragmática, não alarmista. Caracas tem áreas que você simplesmente não vai. Altamira, Chacao, El Rosal — esses bairros são seguros e concentram a vida urbana da cidade. Zona Sul, 23 de Enero, partes de Petare — fora do mapa. Eu andei de taxi toda vez que precisei me locomover em Caracas, usando aplicativo ou telefone de uma empresa recomendada pelo hotel. Uber não existe. Ditaxi e cabify funcionam, mas a confiança está em usar empresas estabelecidas.
Dinheiro na prática
Eu costumo carregar notas de 1, 5 e 10 dólares porque as de 20 e 50 são facilmente falsificadas e os comerciantes ficam desconfiados. Nota rasgada ou amassada também gera problema. O banco central da Venezuela imprime notas em bolívar que variam de 10 a 200, mas os valores altos são praticamente inúteis devido à inflação. Uma café custa entre 2 e 5 bolívares. Um jantar em restaurante intermediário sai por 15 a 40 bolívares. Táxi de um ponto ao outro na cidade custa entre 3 e 8 bolívares. A conversão prática funciona assim: você leva dólares, troca em casas de câmbio autorizadas ou no mercado informal (que é onipresente), e gasta em bolívar. Em 2024, em qualquer esquina de Caracas tem um vendedor de dólares paralelos. O que eu faço é pedir referência ao hotel onde estou hospedado — eles indicam um lugar confiável na região e eu faço a troca na hora. Nunca aceite câmbio de pessoas na rua sem indicação prévia.
Conexões logísticas
Voos diretos do Brasil chegam em Caracas pelo aeroporto de Maiquetía. Avianca opera três vezes por semana de São Paulo, e LATAM também tem opções com conexão em Bogotá ou Lima. Se você pretende fazer o roteiro Canaima-Los Roques-Margarita, o mais lógico é chegar a Caracas, alugar um carro ou pegar um voo doméstico para Canaima, e depois seguir para Los Roques por via aérea. O transporte terrestre entre cidades é possível mas desgastante. A rodovia entre Caracas e Valencia leva cerca de 3 horas e é tranquila. Caracas a Barquisimeto, umas 6 horas. Mas estradas na Venezuela são imprevisíveis — buracos, postos de controle, fiscalização aleatória. Se tiver que viajar de ônibus, escolha linhas executivas como El Greco ou Maracay, que oferecem acomodações com muito mais conforto do que ônibus comuns.
A Venezuela ainda é um país que muita gente evita por informação desatualizada. A realidade em 2024 é que você consegue uma viagem completa e digna se preparar com antecedência e não tentar improvisar. O que fazer? Principalmente olhar para o sul e para as ilhas, cuidar do dinheiro e da conectividade, e tratar a logística com a seriedade que ela exige. O resto se resolve no caminho.