O Acordo Ortográfico de 1990 e as palavras que realmente mudaram
Muita gente acha que o Acordo Ortográfico foi só uma atualização burocrática, mas na prática ele mudou a grafia de centenas de palavras em português brasileiro. O mais visível foi a remoção de acentos que antes eram obrigatórios. Quem trabalha com redação técnica, revisão de textos ou produção de conteúdo se depara todo dia com isso no dia a dia. A lista das 37 palavras que perderam o acento sob o novo acordo é frequentemente citada em guias rápidos, e eu vou listar as principais aqui, mas também preciso falar do que ninguém conta: como lidar com isso na prática.
Lista das principais palavras que perderam o acento
Vou listar as mais recorrentes, organizadas por regra ortográfica. Não são exatamente 37 ao pé da letra — o número varia conforme a fonte — mas cobrem quase todo o universo que você encontra em textos do dia a dia. Palavras que perderam o acento diferencial:
para — permaneceu, mas "perá" virou "perá" (agora não existe mais no vocabulário padrão). "Pêra" (fruta) agora é "pera". O diferencial entre o verbo "pôr" e a preposição "por" foi mantido. "Pólo" virou "polo". "Pêlo" virou "pelo". "Fôra" (pretérito mais-que-perfeito) virou "fora". "Polo" e "polos" sem acento. "Só" (advérbio) mantém o acento, mas "só" (adjetivo) também mantém — aqui não mudou. Palavras que perderam o acento agudo no ditongo open:
"Ideia" continua com acento. "Heroico" perdeu — virou "heróico" antigamente, agora "heroico". "Assembleia" permanece. "Caatinga" permanece. "Ideias" permanece. "Eidética" permanece. As formas verbais com ditongo aberto no plural como "ele é" (verbo ser) continuam com acento. Palavras que perderam o acento circunflexo:
"Contém" / "contêm" — o acento circunflexo no "o" fechado foi mantido na 3ª pessoa do plural. Mas "retem" e "retém" continuam. "Ideia" continua. "Parabéns" mantém. "Ação" mantém. "Idéia" (antigo) virou "ideia". "Ibéra" não existe. "Fêmea" mantém. "Heróico" virou "heroico". "Idéia" era a forma antiga, agora só "ideia". Palavras que perderam o acento na posição terminal:
"Orgão" virou "órgão" (mantém). "Furacao" virou "furação". "Saxofone" mantém. "Aerossol" mantém. "Autosserviço" mantém. "Paraninfo" mantém. "Mim" mantém. "Deus" mantém. Palavras que deixaram de ter acento por terem vogais abertas/tônicas iguais no hiato:
"Reúne" mantém. "Enxuguei" mantém. "Saúde" mantém. "Ajudá-lo" mantém. "Você" mantém. "Atrás" mantém. "Açúcar" mantém. Outras mudanças relevantes:
"Adesivo" mantém. "Coletivo" mantém. "Injeção" mantém. "Afixação" mantém. "Criação" mantém. "Relação" mantém. "Destruição" mantém. "Produção" mantém. "Restrição" mantém. "Proibição" mantém. "Imperfeito" mantém. "Defeito" mantém. "Refeição" mantém. "Lei" mantém. "Veu" mantém. "Frei" mantém. "Rei" mantém. Formas verbais específicas:
"Ele crê" mantém. "Elas creem" mantém. "Ele lê" mantém. "Elas leem" mantém. "Ele dê" mantém. "Elas deem" mantêm. "Ele vê" mantém. "Elas veem" mantêm. "Ele pôde" (passado) mantém o acento diferencial de "pode" (presente). "Ele fez" mantém. "Elas fazem" mantém. Palavras que antes tinham acento e agora não têm mais:
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"Gerações" sem acento na "o". "Gerar" sem acento. "Gerência" mantém. "Gerador" mantém. "Permanecer" mantém. "Permanecia" mantém. "Permaneceu" mantém. "Permanência" mantém. "Permanecido" mantém. "Permanência" mantém. "Permanecer" mantém. "Permanecia" mantém. "Permaneceu" mantém. "Permanência" mantém. Exemplos concretos de alteração gráfica:
"Idéia" "ideia". "Heroico" "heroico". "Jiboya" "jiboia". "Ostentoso" "ostensivo". "Egocentrico" "egocêntrico". "Psicologico" "psicológico". "Logico" "lógico". "Magico" "mágico". "Pedagogico" "pedagógico". "Politico" "político". "Tecnologico" "tecnológico". "Fisico" "físico". "Ligico" "lógico". "Energetico" "energetico". "Estetico" "estético". "Etico" "ético". "Simbolico" "simbólico". "Simbolico" "simbólico". "Ontologico" "ontológico". "Cosmopolita" mantém. "Antropologico" "antropológico". "Sociologico" "sociológico". "Historico" "histórico". "Economia" mantém. "Economico" "econômico". "Ecologico" "ecológico". "Biologico" "biológico". "Geografico" "geográfico". "Filosofico" "filosófico". "Teorico" "teórico". "Critico" "crítico". "Dogmatico" "dogmático". "Mistico" "místico". "Ascetico" "ascético". "Ascetismo" mantém. "Optico" "óptico". "Topico" "tópic" — não, "topico" sem acento. "Topico" como adjetivo perde. "Organico" "orgânico". "Critico" "crítico".
Como isso funciona na prática quando você revisa textos
A parte mais chata não é decorar a lista. É que a maioria dos corretores ortográficos que as pessoas usam no dia a dia ainda tem essa regra mal implementada. Eu já passei por isso várias vezes revisando um documento técnico onde o Word marcava "ideia" com erro porque o corretor pensava que deveria ter acento circunflexo. Na verdade, era o contrário — "ideia" nunca mais teve acento desde 1911, na verdade. O problema é que alguns softwares tratam "ideia" como caso especial, outros não. Depende da versão. O que eu faço agora é simples: configuro o corretor do Word para português do Brasil e desabilito a opção "marcar erros ortográficos conforme o Acordo Ortográfico anterior". Isso evita aquela chuva de falsos positivos que aparece quando o corretor tenta aplicar regras antigas. Depois disso, rodo uma busca por patterns específicos em vez de depender do sublinhado vermelho.
No meu caso, eu monto uma macro no Word que procura por padrões como "id[eé]ia", "her[oó]ico", "jib[oó]ia", "ep[ií]cola" e outros casos conhecidos. Essa macro gera um relatório das ocorrências para revisão manual. O tempo que eu gastava procurando no texto foi de cerca de 45 minutos para algo como 8 minutos. A diferença é substancial quando o documento tem mais de 100 páginas.
O problema que ninguém avisa
A grande pegadinha é que algumas palavras ganham acento com o acordo, não só perdem. "Cientista" não recebeu mudança. "Lisonja" não. Mas "pára" (verbo parar) recebeu acento diferencial para distinguir de "para" (preposição). E aí o corrector automático fica confuso porque o texto original tinha "para" sem acento e agora deveria ter "pára". O inverso também acontece: "pólo" (substantivo) perdeu o acento, mas "pôlo" (do verbo pôr) mantém. Isso gera inconsistência real em textos que passam por múltiplas revisões. Outro ponto que causa problema: nomes próprios e termos técnicos. "João" continua com acento. "São Paulo" continua. Mas "São" como abreviação de " Santo" às vezes é grafado sem acento em contextos informais. Isso não é regra ortográfica, é uso corrente. E os manuais de estilo não são unânimes sobre como tratar isso.
Se você trabalha com localização de software, o problema é ainda mais sério. Campos de formulário, mensagens de erro, labels — tudo isso passa por corretores automatizados que muitas vezes não estão na versão mais recente das regras. Já vi um sistema que marcava "jurídico" com erro porque o dicionário interno ainda usava a grafia antiga. A correção foi atualizar o dicionário de linguagem do produto, mas o processo levou três semanas de teste porque tínhamos que validar cada mensagem em português de Portugal também, e lá as regras são ligeiramente diferentes.
O que fazer para garantir que seu texto está certo
Primeiro passo: configure seu editor para a variante correta. Se você escreve em português brasileiro, use a configuração pt-BR. Se for pt-PT, use pt-PT. Elas têm regras diferentes para algumas palavras. Segundo: desative a correção automática que aplica regras obsoletas. Terceiro: faça uma busca manual pelos padrões que eu listei acima. Quarto: use uma ferramenta de verificação ortográfica de confiança, como o corretor do Vencedor ou o do Ciberdúvidas, como segunda opinião. Não existe ferramenta perfeita. O correto é ter o hábito de revisar manualmente mesmo depois de passar pelo corretor. Leitura atenta, linha por linha, prestando atenção nas palavras que mudaram. É cansativo, mas leva menos tempo do que corrigir erros que passaram despercebidos.
Se seu trabalho envolve produção em escala — como um site que publica conteúdo diário — considere criar um glossário interno com as formas preferenciais. Anote cada palavra que o acordo alterou e defina qual versão sua equipe vai usar. Isso evita a variabilidade que surge quando cada revisor decide por conta própria. Um glossário bem feito economiza horas de debate e garante consistência. Há ainda o caso das siglas e abreviações. "PC" de "personal computer" não recebe acento porque não é palavra portuguesa. "RG" (registro geral) também não. Mas "RA" (razão social) também não. Essas exceções geram confusão porque algumas pessoas acham que devem levar acento por tradição. Não levam. O acordo não mudou isso.
Outro detalhe prático: títulos de obras. A grafia do título deve seguir a forma original da publicação, mesmo que o acordo tenha alterado a grafia. Se um livro foi publicado antes de 2009 com "idéia", a citação deve manter "idéia". Isso é regra editorial, não ortográfica. Confundir as duas coisas gera erro comum em trabalhos acadêmicos. O Acordo Ortográfico entrou em vigor no Brasil em 2009, com transição até 2016. Documentos publicados antes dessa data podem usar a grafia antiga sem problema. Documentos novos devem usar a nova. A transição criou gerações inteiras de textos mistos, o que complica a padronização em arquivos antigos migrados para sistemas modernos.