A regra básica
Água é um substantivo comum de coisa. Classificação gramatical padrão, ensino fundamental, nenhuma pegadinha. Mas as pessoas me perguntam isso por um motivo — existe um contexto em que ela vira própria, e esse contexto é mais frequente do que os livros didáticos deixam claro.
água é substantivo próprio ou comum
Na maior parte das ocasiões, é comum. Você diz "coloquei água no copo". O nome se aplica a qualquer porção da substância. Não há determinação única. Isso é o cerne de um substantivo comum. O substantivo próprio, por definição, individualiza. Nomes de pessoas, cidades, rios, marcas. O uso em maiúscula inicial acompanha essa função identificatória, não o contrário. A grafia segue a classificação, não a inversa.
O problema começa quando entramos em terrenos que a gramática normativa tratou de forma inconsistente. Vou direto ao exemplo que mais gera dúvida. No cardápio de um restaurante, ao lado de "Carne grelhada", você lê "Água mineral". Esse "Água" está na posição de nome comercial do produto oferecido. Nesse contexto específico, alguns manuais aceitam o tratamento como próprio, porque a palavra funciona como identificação de uma oferta singular naquele ambiente. Não é que a substância tenha virado própria. É que a palavra está desempenhando uma função de marca dentro daquele menu.
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Já vi isso causar confusão séria em correções de textos comerciais. Um redator mantinha "suco de laranja" em minúscula e "Água Mineral" em maiúscula no mesmo documento, justificando que era conveniência da casa. A coerência exige tratar todos os itens da mesma forma: ou tudo comum, ou tudo com tratamento de própria quando houver marca registrada envolvida. Misturar os dois regime visualmente confunde o leitor e enfraquece a argumentação do texto. Outro caso real que encontrei na prática diz respeito a rios. O rio é chamado "Rio São Francisco". O nome próprio é "São Francisco". "Rio" permanece comum, ainda que faça parte do topônimo completo. A norma culta recomenda manter "rio" em minúscula quando o nome próprio já está presente, a menos que se trate de uso inicial de frase ou de estilo jornalístico que adote capitalização plena no topônimo. Em textos técnicos, a distinção importa. Em legendas de mapa, o padrão varia conforme a editora.
Há também a questão da personificação literária. Quando um autor trata "Água" como entidade com vontade própria em um poema, a maiúscula opera como recurso estilístico de pessoalização. Isso não transforma o substantivo em próprio no plano gramatical. É um efeito retórico, nada mais. A análise morfológica continua apontando para comum. O que pouca gente considera é o impacto disso em processamento de linguagem natural. Ferramentas de NER (Named Entity Recognition) frequentemente classificam "água" erroneamente como entidade quando aparece em contextos de marca, como "Água Velha" ou "Água de Cordas". A desambiguação exige verificar se a sequência completa nomeia uma entidade única ou se "água" apenas descreve o conteúdo de um produto. Em sistemas automáticos, esse erro gera falsos positivos que comprometem extração de dados e indexação.
Para resolução prática, eu uso este critério: se a palavra pode ser substituída por "a tal água" ou "a água em questão" sem perda de referência, é comum. Se ela funciona como identificador único dentro de um conjunto delimitado — nome de produto registrado, denominação de estabelecimento, topônimo oficial —, o tratamento se aproxima do próprio. A linha nem sempre é nítida, e há casos limítrofes que dependem de norma específica da instituição que publicou o texto. Em resumo técnico, sem dramatismo: água é substantivo comum. Em contextos de marca, denominação comercial ou topônimo onde a palavra integra um nome próprio completo, o comportamento sintático e gráfico pode justificar tratamento diferenciado. O resto é variação estilística ou pessoalização literária.