Variação linguística no 7º ano: o que funciona na prática
O tema é simples na teoria e chato na execução. Variação linguística é o assunto que todo professor de português do 9º ano (ou do ensino fundamental II) precisa abordar no segundo bimestre. Os alunos precisam entender que a língua não é uma única coisa fixa. Ela se move. Muda conforme o grupo social, a região, a situação formal ou informal em que a pessoa está falando. O problema real começa quando você vai montar atividades que não sejam apenas "marque a alternativa correta". A maioria dos materiais prontos que você acha na internet tem duas falhas clássicas: ou são muito abstratos demais para crianças de 12 e 13 anos, ou são cheios de textos exemplares artificialmente construídos que nenhum aluno do interior de Minas Gerais reconheceria como próprios.
Eu já passei por isso. No segundo ano seguidos tentando ensinar variação linguística, eu comprei dois cadernos de exercícios prontos. Na primeira turma, os alunos não conectavam com os textos. Eles diziam "professora, isso não é fala de ninguém que eu conheço". Na segunda, o gabarito tinha erros. Questão 4 pedia para identificar variação dialetal, mas o gabarito marcava variação social. Perda de tempo total.
atividades variação linguística 7 ano com gabarito
Aqui estão algumas opções que eu utilizo e recomendo. O gabarito está incluído em cada bloco. Questão 1: Leia o trecho a seguir:
"Ô meu filho, cade teu caderno? Tava aí na mesa e agora sumiu da vista." Que tipo de variação linguística está presente nesse trecho?
a) Variação sociocultural b) Variação regional (dialetal)
c) Variação histórica d) Variação situacional
Gabarito: b Questão 2: Observe as frases abaixo:
I. Eu vi ele na feira ontem. II. Eu o vi na feira ontem.
As duas frases estão corretas do ponto de vista gramatical? Justifique sua resposta com base no conceito de variação linguística. Gabarito: Ambas estão corretas no uso cotidiano. A diferença é de registro. A frase I usa pronome oblíquo átono em posição pós-verbal (ou sem pronome, dependendo da análise), mais comum na fala informal. A frase II segue o padrão culto escrito. Nenhuma está errada. Elas pertencem a registros diferentes.
Questão 3: Associe a coluna da esquerda (tipo de variação) à da direita (exemplo): (A) Variação dialetal
(B) Variação socioeconômica (C) Variação histórica
(D) Variação situacional ( ) Uso de "você" no lugar de "tu" em grande parte do Brasil
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( ) Uso de "ai" no lugar de "há" no português falado no Brasil atual ( ) Falar diferente na escola e em casa
( ) Dizer "cumpade" no Nordeste e "parceiro" em São Paulo Gabarito: B, C, D, A
Questão 4: Leia o poema abaixo de Carlos Drummond de Andrade: "No meio do caminho tinha uma pedra
que nunca se esqueceu" Esse poema foi escrito nos anos 1920. Ainda faz sentido hoje? Justifique levando em conta a variação histórica da língua.
Gabarito: Sim, ainda faz sentido. A variação histórica mostra que certas formas caem em desuso (como a concordância verbal empregada por Drummond), mas o significado permanece compreensível. O português mudou na pronúncia, no vocabulário e em alguns aspectos morfológicos, mas não tanto a ponto de tornar o texto incompreensível. Questão 5: Qual a diferença entre variação linguística e erro de português? Explique com um exemplo seu.
Gabarito: Variação linguística é o uso legítimo de uma forma dentro de um contexto específico. Erro de português é o desvio da norma culta padrão quando se exige essa norma. Exemplo: dizer "a gente fomos" é variação (uso correto na fala popular). Dizer "a gente fomos para a escola ontem" num texto formal é desvio. O erro aparece quando se espera norma culta e não se emprega. Questão 6: Complete as lacunas com a variação linguística adequada:
a) "Vish, que calor__" (variação do português brasileiro informal) b) "Prezado senhor, venho por meio desta solicitar..." (variação do português formal)
c) "Xodó, meu bem, cê tá com saudades?" (variação regional nordestina) d) "Senhor, peço-lhe que me aguarde" (variação histórica do português)
Gabarito: a) muito; b) muito; c) muito; d) muito (todas as respostas são válidas)
Como usar essas atividades em sala de aula
O segredo não é dar a lista e cobrar a resposta certa. Variação linguística só funciona quando o aluno percebe que o que ele fala em casa e o que ele escreve na redação são coisas diferentes, e que isso não é problema, é realidade. Eu costumo começar com uma conversa rápida. Peço que escrevam uma mensagem de WhatsApp como se mandassem para um amigo e outra como se escrevessem para o diretor da escola. Depois comparo as duas. Ninguém precisa corrigir nada. Só observar o que mudou.
Depois disso, eu entro nas questões. A questão 5 é a mais importante do pacote porque ela quebra a ideação de que existe certo e errado absoluto. Se o aluno sair dessa aula achando que fala "errado", você falhou. Um detalhe prático que quase ninguém menciona: evite usar exemplos de sotaques que seus alunos não reconhecem. Se você mora em Porto Alegre e coloca um texto em caipira do interior de São Paulo, eles não vão se identificar. Troque por um texto gaúcho. Ou melhor ainda, peça que eles tragam seus próprios exemplos de casa. Isso sempre funciona melhor do que qualquer material pronto.
O gabarito acima segue a Base Nacional Comum Curricular para o 7º ano. As habilidades previstas são identificar as variedades linguísticas e compreender que a norma padrão não é a única forma válida de se comunicar. Nada mais complexo do que isso no nível do fundamental II. Se precisar de mais exercícios, posso montar uma segunda lista com textos de Cordel, cantigas de roda e trechos de novelas. É só pedir.