O que acontece com o colo do útero quando uma mulher fica grávida
A ectopia cervical na gravidez é uma alteração morfológica relativamente frequente no pré-natal, causada pela ação dos hormônios estrogênicos sobre o epitélio do colo uterino. O endocélice, que em condições normais fica voltado para dentro do canal cervical, migra para a porção ectocervical durante a gestação, gerando uma área de transição mais exposta e com aspecto avermelhado, granular, que pode simular lesão ou inflamação. Na prática clínica, essa condição é frequentemente chamada de "erosão cervical", embora o termo seja impreciso e inadequado. Não há erosão real — o tecido é viável e saudável. A confusão entre ectopia e lesão neoplásica é um dos motivos pelos quais o colposcopista e o obstetra precisam ter cuidado ao interpretar exames de citologia em gestantes.
Como identificar e acompanhar a ectopia cervical na gravidez
A abordagem começa com a anamnese adequada e o exame especular, mas vai muito além da simples inspeção. Durante a gestação, o colo fica mais vascularizado e friável, então mesmo uma leve pressão do espéculo pode provocar sangramento, o que leva muitas gestantes e médicos a acreditarem que há algo errado. A verdade é que esse sangramento pelo contato é esperado e não representa perigo para a gestação em si. O que eu aprendi com o tempo foi que a citologia (Papanicolaou) em gestantes precisa ser lida com cautela. Os critérios do sistema Bethesda foram pensados para mulheres não gestantes, e a presença de células endocervicais ou células de descamação profunda é algo normal na gravidez. Isso pode gerar falsos positivos ou classificações equivocadas como LSIL, quando na realidade são apenas alterações reativas devido à ectopia associada aos altos níveis hormonais. Eu já vi vários casos em que a gestante entrou em pânico com um resultado sugestivo de lesão e o acompanhamento colposcópico mostrou apenas ectopia simpática, sem displasia de fato.
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Um detalhe que poucos mencionam é a relevância do teste de HPV. Em gestantes com ectopia cervical e citologia alterada, a triagem pelo HPV tipo oncogênico é mais confiável que a citologia isolada, pois o HPV não causa alterações citomorfológicas semelhantes às da gravidez. Quando eu trabalho com acompanhamento, prefiro sempre solicitar o HPV concomitante, especialmente se a gestante não fez rastreamento pré-gestacional. Isso reduz bastante a ansiedade e evita procedimentos desnecessários. Sobre colposcopia, a orientação atual da ASCCP permite e até recomenda o exame em gestantes com alterações citológicas, desde que não se faça curetagem endocervical nem biópsia de canal — exceto se houver suspeita de microinvasão. Na prática, a colposcopia em gestantes tem limitações importantes: a vascularização aumentada dificulta a interpretação dos padrões vasculares, e os acetato-brancos podem ser reativos, não necessariamente neoplásicos. Você precisa confiar mais na topografia e menos na tonalidade.
Outra armadilha comum é achar que a ectopia cervical na gravidez aumenta o risco de partos cesáreos ou de trabalho de parto prematuro por si só. A literatura mostra que a ectopia em si não é fator de risco obstétrico. O que precisa ser investigado são infecções associadas, como vaginose bacteriana, tricomoníase ou clamídia, que podem sim elevar o risco de rompimento premembrana. Isso exige um swab de fundo de vestíbulo ou canal cervical para cultura ou PCR, algo que costuma ser negligenciado no pré-natal de rotina. Há também a questão do acompanhamento pós-parto. Após o parto, a involução uterina faz com que o endocélice retome parcialmente sua posição original, mas isso pode levar de 4 a 8 semanas. Recomenda-se reavaliação citológica cerca de 6 semanas pós-parto, pois a ectopia residual pode mascarar lesões que passaram despercebidas. Se eu for obrigado a escolher um momento para repetir o exame, esse é o prazo ideal — antes disso, o tecido ainda está em processo de regressão e a interpretação fica comprometida.
O ponto mais importante: a ectopia cervical na gravidez não exige tratamento. Procedimentos ablativos como crioterapia, eletrocauterização ou LEEP estão contraindicados durante a gestação. Nenhum estudo mostra benefício em tratar a ectopia em si, e os riscos de hemorragia, infecção e insuficiência cervical são reais. A abordagem é observação e rastreamento conforme as diretrizes vigentes.