O guia de quem realmente quer ler
Achei essa pergunta sendo feita com frequência em fóruns de literatura, e a resposta curta é que não existe uma lista oficial dos cem melhores contos brasileiros do século. A ideia de uma lista definitiva é algo que editores usam para vender antologias, não uma coisa que existe na prática. O que existem são compilados soltos, cada um com seu viés, e muita coisa boa espalhada em revistas que saíram de circulação. Eu já tentei montar uma leitura sistemática disso há alguns anos. O problema imediato foi que os livros de conto brasileiro costumam se repetir. Um mesmo conto do João Guimarães Rosa aparece em meia dúzia de antologias diferentes. O mesmo conto da Clarice Lispector aparece em outra pilha. Se você não tomar cuidado, vai gastar semanas lendo os mesmos textos achando que está progredindo.
Os cem melhores contos brasileiros do seculo: por onde começar
O ponto de partida mais honesto seria começar pelos autores que realmente definiram o gênero no século XX. Monte Prado, por exemplo, tem "Contos" que é fundamental. Mas o nome que todo mundo cita e todo mundo esquece de ler na íntegra é o de Lygia Fagundes Telles. O conto "Vidro Fosco", que está em praticamente todas as antologias, é um dos melhores textos já escritos em português sobre solidão urbana. Se você não leu, começa aí. Depois vem a questão logística. Muitos desses contos estão em livros que não estão mais em catálogo. A editora Record deixou vários títulos da Machado de Assis fora de-print por anos. A Rocco praticamente encostou de publicar antologias deconto moderno. Você precisa saber o que procurar antes de gastar dinheiro com reimpressões caríssimas ou edições de luxo que não valem o preço.
O que eu fiz foi montar uma lista própria usando duas fontes. Primeiro, peguei as antologias da Coleção Bestário da Editora 34, que reuniu contos de nove autores brasileiros num formato acessível. Depois compilei os textos que estavam fora dessas coletâneas procurando por edições universitárias e por materiais da Biblioteca Nacional digitalizados. O trabalho inteiro levou cerca de três semanas porque a maior parte do tempo foi gasta verificando se o texto tinha sido cortado ou alterado em reedições posteriores. Um detalhe que muita gente perde: o conto brasileiro do século não se limita aos nomes óbvios. Eu passei um tempo procurando por autoras que foram sistematicamente ignoradas pelas antologias tradicionais. Lúcia Miguel Pereira, por exemplo, escreveu "A Hora e Vez de Augusto Matraga" que é um marco, mas há outros contos dela em revistas do período modernista que nunca foram reunidos em livro. Cora Coralina também tem passagens em prosa que funcionam como contos e que são subestimadas.
O problema mais chato que eu encontrei foi com a datação. Muitos contos foram escritos em décadas diferentes e publicados em revistas extintas. Quando você acha uma versão online, não tem como saber se aquela é a versão original ou uma versão revisada anos depois pelo autor. Eu descobri isso na prática com dois contos do Ribeiro Couto que apareceram em duas coletâneas com finais diferentes. O que eu fiz foi cruzar as datas de publicação nas revistas originais com as versões em livro e ficar com a versão mais antiga sempre que havia divergência. Demorou, mas é o único jeito de ter confiança no que está lendo.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Como organizar a leitura sem se perder
A maior armadilha é tentar ler tudo em ordem cronológica. Não funciona porque a qualidade oscila demais entre os autores das primeiras décadas do século. Os contos naturalistas do final do XIX têm um ritmo que cansa rápido quando você lê dezenas seguidos. O que funcionou para mim foi agrupar por tema em vez de por período. Contos de formação, contos urbanos, contos regionais, contos experimentalistas. Assim você mantém o interesse porque a transição entre textos similares é mais suave. Outra coisa que ninguém avisa: os contos mais famosos não são necessariamente os melhores. "Ai ceda meu Deus" do Machado é genial, mas é curto demais e aparece em toda antologia por ser o mais conhecido. Se você focar só nos títulos mais citados, vai perder contos como "O Encosto" do Graciliano Ramos ou "A Vida Breve" da Mary de Queirós, que são densos e muito mais recompensadores. Focar no mais citado é o equivalente literário de assistir só aos trailers dos filmes.
Eu recomendo que você leia cada autor por aproximação. Comece com três ou quatro contos. Se gostar, pega uma obra completa daquele autor. Se não gostar, passa para o próximo. Isso economiza muito tempo porque alguns autores simplesmente não funcionam para todo mundo. Eu já perdi horas tentando me forçar a gostar do Radiguet brasileiro porque todo mundo dizia que era importante. Não era. Melhor ter gasto esse tempo com o Conto de Amor de Lygia.
Onde encontrar os textos
A Biblioteca Digital Brasil da Câmara dos Deputados tem uma coleção razoável de livros de conto do século XX em domínio público. A Hemeroteca Digital da BN também é útil para encontrar as versões originais de revista. Para os textos que ainda estão sob direitos autorais, as editoras 34, Companhia das Letras e Cosac Naify têm as versões mais confiáveis. Evite PDFs de sites aleatórios porque muitas vezes os textos foram malOCRizados ou cortados sem aviso. Se você está interessado numa lista organizada com referências concretas de onde encontrar cada conto, existem algumas iniciativas independentes. O site da Associação Brasileira de Escritores mantém um catálogo, e a UnB publicou uma bibliografia comentada que serve como base. Nada disso substitui o trabalho de verificação manual, mas economiza horas de procura.
A verdade é que uma lista definitiva dos cem melhores contos brasileiros do século é um exercício que nunca vai ser concluído. Há sempre um conto que foi publicado em revista esquecida, uma autora que foi apagada das antologias, um texto que nunca foi reunido em livro. O melhor que você pode fazer é construir sua própria coleção com critério e verificar as fontes antes de confiar no que encontra online.