Para A Comunicacao Entre Dois Navios - Para A Comunicação Entre Dois Navios - RETOEDU
Para A Comunicação Entre Dois Navios - RETOEDU

O que acontece quando dois navios precisam falar entre si no mar

A comunicação entre embarcações no mar não é só apertar um botão e falar. Tem camadas, tem ruído, tem gente que não sabe que existe e tem regras que todo mundo conhece mas ninguém segue corretamente na prática.

para a comunicacao entre dois navios: o que realmente funciona

O sistema baseia-se em três pilares: VHF maritime, DSC e, quando o clima ou a distância permitem, dados via Inmarsat ou Iridium. A maioria dos problemas que vejo acontecer não vem de equipamento defeituoso, mas de gente usando o canal errado no momento errado. Começamos pelo VHF. O canal 16 é a frequência de chamada e emergência, sim, mas o que a maioria dos pilotos esquece é que depois da chamada inicial você precisa mudar para um canal de trabalho. Deixa no 16 e o navio de resgate ou a capitania vai entender que você está com problema e vai despachar gente que não precisa. Eu já vi isso acontecer no Canal do Panamá, esperando liberação de ancoradouro, e o operador da torre ficou me olhando estranho porque eu não saía do canal 16 há dez minutos. Ajustei para o canal 14 e a comunicação fluiu. Leva cinco segundos, mas muita gente não faz.

O DSC (Digital Selective Calling) é outra coisa que todo mundo tem mas pouca gente sabe configurar direito. Um appel DSC bem feito te salva quando o VHF normal não consegue atravessar o ruído de uma tempestade ou a interferência de equipamentos a bordo. O problema é que muitos marinheiros não verificam se o MMSI está gravado corretamente no Rádio VHF com DSC. Se o MMSI estiver errado ou em branco, o appel vai para o vazio e ninguém recebe. Já tive que refazer a programação de um rádio Numarine que vinha do fabrico com MMSI zereo porque o armador anterior não tinha atualizado. Fiquei meia hora no cais de Santos fazendo isso com um laptop e o manual em inglês.

quando o VHF não chega

Aqui entra a zona que separa quem navega por lazer de quem navega de verdade. O VHF tem alcance visual, basicamente. Do convés de um iate de quinze metros, você consegue falar com outro navio a uns oito a doze milhas náuticas, dependendo da antena e da altura da proa alheia. Se os dois navios forem pequenos, talvez quatro milhas seja o máximo que você pega com clareza. Acabou ali, a menos que você tenha repetidor de sinal ou esteja perto de uma estação costeira. Para distâncias maiores, você sobe para o canal 2182 kHz no HF ou usa o sistema GMDSS completo se estiver em área A3. A maioria dos navios de cruzeiro e cargueiros tem transceptor HF, mas muitos barcos de pesca e recreio não. E aí a solução práctica, que eu recomendo sempre, é ter um terminal satelital portáel. O Inmarsat-C é barato de operar, consome pouco e envia e recebe mensagens de texto. Não é voz, mas para coordenação de rotas, posicionamento e comunicação com operadora é suficiente. O Iridium Explorer é outra opção, mais caro, mas cobre os polos e tem latência baixa o bastante para uma conversa decente por voz.

Um detalhe que poucos mencionam: a comunicação entre dois navios via satélite funciona, mas exige que ambos tenham terminal. Se um tem e o outro não, o navio equipado entra em contato com uma Estação Terrena (LES) e pede para ela fazer a ponte. Isso tem custo por minuto e, em algumas rotas, a qualidade de áudio cai feio por causa do atraso de propagação geoestacionária. O Iridium não tem esse problema porque os satélites estão em LEO, a três horas de luz luz só, mas o preço é outro.

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protocolo que evita confusão

Tem um padrão simples que funciona e deveria ser obrigatório em qualquer curso de navegação: chamada, identificação, mensagem, encerramento. Nada de ficar falando no microfone sem dizer quem é. Eu já recebi chamados no VHF de gente dizendo "navio aqui ó, preciso de ajuda" e não informando o nome da embarcação. A gente não sabe quem é, não consegue localizar no radar e ainda perde tempo pedindo para repetir. O outro erro comum é usar gírias regionais demais. O português brasileiro tem que o português europeu ou o espanhol não entendem. Se você navega perto da costa sul-americana, especialmente no Brasil, Argentina e Uruguai, vale a pena ter pelo menos o básico de inglês marítimo. A linguagem padrão da IMO para comunicação entre navios de nacionalidades diferentes é o inglês, não o português. Não é questão de patriotismo, é questão de segurança.

Outra coisa prática: anote os canais de trabalho antes de ligar. Muitos rádios VHF modernos têm memórias programáveis, use isso. Coloque o canal 16 como favorito, o 14, o 17, e mais dois que você usar com frequência na sua região. Quem tem radar marítimo também pode usar o Chat de Radar para comunicação visual em curta distância, mas isso depende de equipamento específico e não é confiável em mar grosso.

problema que enfrentei e a solução

Numa travessia do Rio de Janeiro para São Paulo, com escala em Santos, precisei me comunicar com um pescador artesanal que estava navegando perto da rota. O barco dele era pequeno, sem rádio VHF certificado, apenas um walkie-talkie comum. A gente conseguiu se entender por aproximação visual e gestos, mas foi precário. Quando ele finalmente chegou perto o suficiente para eu ouvir algo nítido, percebi que o walkie-talkie operava em frequência FM comercial, totalmente fora do padrão maritime. A solução foi simples mas demorada: consegui um rádio VHF portátil usado, dei para ele, programei os canais principais e fiz um treinamento rápido de dez minutos sobre o protocolo básico. Esse tipo de situação mostra que a comunicação entre dois navios não depende só do equipamento próprio, mas da capacidade de se adaptar quando o outro lado não tem o que você tem.

limitações que ninguém admite

O sistema GMDSS é excelente, mas tem um ponto fraco importante: ele depende de bateria reserva e de manutenção regular. Se a bateria de emergência estiver fraca, o rádio não opera quando mais precisa. Eu vi isso em dois navios nos últimos cinco anos. Um em Angra dos Reis, outro em Paranaguá. Em ambos os casos, a inspeção da Capitania flagrou a falha antes de qualquer emergência, mas imagine se fosse durante uma noite de tempestade. O equipamento funciona até o dia em que não funciona mais, e aí não tem volta. Outra limitação real é a interferência. Navios grandes com geradores mal blindados produzem ruído elétrico que atrapalha a recepção VHF. A solução é boa aterramento e filtros, mas muitos construtores amadores não dão importância a isso. Se você construir um barco e colocar o rádio VHF perto do inversor de energia sem isolamento adequado, vai ouvir chiado o tempo todo e não vai conseguir ouvir ninguém.

Resumindo sem resumar: a comunicação entre embarcações no mar é um conjunto de protocolos, equipamentos e boas práticas que funcionam quando são usados corretamente. O equipamento moderno facilita muito, mas não substitui o conhecimento básico de quem está no comando. Aprenda a usar o VHF, saiba quando ligar o DSC, mantenha o MMSI atualizado e tenha um plano B para quando o plano A falhar, porque ele vai falhar.