Proteínas Totais E Frações Para Que Serve - Proteínas Totais e Frações | PDF | Mieloma Múltiplo | Proteínas
Proteínas Totais e Frações | PDF | Mieloma Múltiplo | Proteínas

O que é e como funciona a eletroforese de proteínas

A eletroforese de proteínas séricas separa as frações proteicas com base no tamanho e carga de cada molécula. O procedimento é simples em teoria: coleta-se 2 mL de soro, aplica-se no gel e aplica-se corrente elétrica. As proteínas migram por cerca de 45 minutos a uma hora e depois são coradas. O resultado visual aparece como cinco faixas distintas, que correspondem às frações clássicas: albumina, alfa-1, alfa-2, beta e gama globulinas. O que muita gente não considera é que o método convencional não mede massa absoluta diretamente. Ele mede densitometria — a intensidade da cor de cada banda — e converte isso em porcentagem. O total de proteínas séricas é determinado por outro método, geralmente biureto, e aí sim tem-se a massa real. A fração albumina é convertida a partir da porcentagem pela concentração total. Ou seja, se o totais estiver errado, todas as frações percentuais estão certas mas os valores absolutos vão para o buraco.

Proteínas totais e frações para que serve na prática

Serve para avaliar o estado nutricional, processos inflamatórios crônicos, doenças hepáticas, desordens renais e, principalmente, doenças hematológicas como mieloma múltiplo. Na rotina do laboratório clínico, esse exame é daqueles que você pede junto com um hemograma e uma função renal quando o paciente apresenta anemia inexplicada ou alterações inespecíficas de proteína total. Foi exatamente assim que eu vi pela primeira vez uma banda monoclonal bem definida na região das beta-globulinas, e o paciente vinha sendo acompanhado há dois anos com "anemia de doença crônica" sem ninguém parar pra olhar o eletroforetograma. O problema é que a eletroforese convencional em gel de acetato de celulose ou agarose tem resolução limitada. Frações como alfa-1 e alfa-2 muitas vezes se sobrepõem. Albumina e alfa-1 podem fundir em amostras com hiperproteinemia. E a região das gamma globulinas, que é onde mais se investiga, é uma mancha difusa quando se trata de resposta policlonal. Ninguém percebe isso até cometer o erro de confiar cegamente nos valores percentuais do software do densitômetro.

Eu vi um caso específico em que a proteína total estava elevada para 11,2 g/dL, o que já deveria ser um sinal vermelho. O densitômetro reportou 62% de albumina, 4% alfa-1, 6% alfa-2, 8% beta e 20% gama. Parecia normal, exceto pelo gama elevado. Pedi imunofixação e houve uma banda monoclonal IgG kappa que a eletroforese sozinha havia passado batido. O software do densitômetro estava distribuindo a banda estreita por toda a região gama como se fosse aumento policlonal. Isso acontece porque o algoritmo de integração de pico assume curvas gaussianas e uma banda monoclonal afiada não se ajusta a nenhum dos modelos padrão. A solução foi refazer a corrida com um suporte de resolucao maior, tipo agarose de alta Clareza, e aplicar uma análise manual dos picos, cortando a área sob a curva ponto a ponto ao invés de deixar o software decidir sozinho. Um detalhe que passa despercebido: a fração de albumina por si só já vale como marcador prognóstico em pacientes hospitalizados. Albumina sérica abaixo de 3,0 g/dL em UTI tem correlação direta com maior tempo de internação e maior mortalidade, independente do diagnóstico de base. Por quê? Porque albumina é um marcador de estado inflamatório Agudo e crônico ao mesmo tempo — ela cai quando há citocinas elevadas, aumenta a permeabilidade vascular e há perda capilar. Não é só nutrição. Muita gente ainda trata albumina como sinônimo de desnutrição pura, o que é ingênuo.

Pontas de vista sobre interpretação

Aalfa-1 antitripsina é a principal proteína da faixa alfa-1. Elevação é reativa a inflamação, como esperado. Mas redução pode indicar deficiência genética, e nesse caso o valor absoluto cai para menos de 0,5 g/dL. Se você ver alfa-1 baixo com proteinograma aparentemente normal, peça dosagem quantitativa de alfa-1 antitripsina. A faixa no gel simplesmente sumiu e o operador achou que era artifacto de coloração. Ao analisar alfa-2, pense em duas coisas: haptoglobina e beta-2 transferrina. Haptoglobina cai em hemólise — isso é clássico. Mas em inflamação aguda a haptoglobina sobe junto com a ferritina e o fibrinogênio, então alfa-2 pode aumentar em circunstâncias completamente diferentes. O padrão de aumento difuso de alfa-2 é o que se vê em síndrome nefrótica, porque há perda de albumina e retenção de macromoléculas como a alpha-2-macroglobulina. Ao mesmo tempo, a albumina cai muito, então o que parece um aumento de alfa-2 pode ser apenas um deslocamento proporcional. Sempre confira com a urinálise e o quadro clínico.

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A fração beta é onde ficam transferrina, complemento C3 e lipoproteínas. Elevação isolada da banda beta pode significar hipertransferrinemia, comum em anemia ferropriva. Eu já vi casos em que o médico pediu ferro sérico porque a transferrina estava alta no eletroforetograma, economizando várias exames adicionais. O inverso também acontece: na deficiência de ferro, a transferrina sobe e a banda beta fica mais intensa. Isso é útil, mas raramente é usado na prática clínica rotineira. A região gama é a mais problemática. Resposta policlonal é o padrão em infecções, doenças autoimunes e doenças hepáticas crônicas. Aumento monoclonal é o padrão em mieloma e gamopaturias de significado indeterminado. A diferença crucial é a morfologia da banda. Policlonal é larga e irregular. Monoclonal é estreita e alta, com base estreita. Mas existem gamopatias biclonais e oligoclonais que confundem até quem já leu centenas de eletroforegramas. Nesses casos, imunofixação eletroforética é indispensável, não opcional.

Limitações e alternativas

O método convencional tem limitações sérias. Ele detecta gamopatias com concentração acima de 1 g/dL. Abaixo disso, a banda monoclonal é invisível. Para acompanhamento de mieloma em pacientes com baixa carga tumoral, a imunofixação ou a eletroforese de alta resolução com capilar são muito mais sensíveis. E o custo é proibitivo para laboratórios menores. Então a gente faz o que dá: eletroforese em gel + imunofixação quando a clínica justifica. Outra limitação prática: a estabilidade da amostra. Soro armazenado a 4°C por mais de uma semana pode ter degradação proteica que altera o padrão de migração. Albumina pode fragmentar e aparecer como pequenas bandas artificiais na frente do pico principal. Se o eletroforetograma vier com algo que não faz sentido clínico, a primeira coisa que eu faço é repetir a corrida com amostra fresca. Já perdi horas tentando interpretar artefatos de degradação achando que era algo novo.

Outro ponto: a variação interlaboratorial. Diferentes métodos de coloração, diferentes lotes de gel, diferentes voltagens de corrida — tudo isso gera variação nos valores de referência. O normal de um laboratório pode não ser o normal de outro. Sempre compare com os intervalos de referência do próprio laboratório que emitiu o resultado. Eu já vi um caso em que um paciente tinha albumina de 35% em um laboratório e 42% em outro, e o médico perguntou se tinha havido melhora súbita. Não tinha. Era só método diferente.

Cenários clínicos comuns

Redução isolada de albumina com proteinograma normal nas outras frações: desnutrição, síndrome nefrótica, perda gastrointestinal, hepatopatia crônica. O padrão sozinho não define a causa, mas elimina causas inflamatórias agudas. A albumina tem meia-vida de cerca de 20 dias, então alterações agudas não aparecem imediatamente. Se o paciente está em sepse há três dias, a albumina ainda pode estar normal. Isso explica por que albumina pré-operatória é um preditor melhor de desfecho cirúrgico do que albumina no momento da admissão em UTI. Aumento difuso de todas as frações: desidratação, polipatologia crônica, mieloma multiclonal. A proteína total acima de 9 g/dL com padrão policlonal geralmente aponta para doença inflamatória crônica ativa. O médico precisa entender que tratar a inflamação é o que vai normalizar as frações, não administrar proteínas ou suplementos nutricionais.

Padrão com banda monoclonal na região gama: investigar com imunofixação, dosagem de proteínas urinárias, eletroforese de urina, e se possível biopsia de medula. Não adianta acompanhar esperando que melhore sozinha. Bandas monoclonais persistentes com crescimento progressivo ao longo de seis meses têm alta probabilidade de evolução para mieloma sintomático ou linfoma.