Quando Usar O Lhes - Quando usar corretamente os pronomes LHE, LHES, O, A, SE - YouTube
Quando usar corretamente os pronomes LHE, LHES, O, A, SE - YouTube

O que é o pronome "lhes" e por que causa confusão

O lhes é um pronome oblíquo átono de terceira pessoa do plural que funciona como objeto indireto. Ele substitui termos introduzidos pela preposição "a" quando se refere a pessoas — equivalentes a "a eles", "a elas". A confusão acontece porque, no português brasileiro coloquial, esse pronome é frequentemente substituído por outras construções, o que faz muita gente aprender a regra na teoria mas nunca ver a aplicação na prática.

quando usar o lhes: a regra básica

Você usa lhes quando o verbo pede complemento indireto (regência com "a") e o referente é plural. Verbos como dar, dizer, mandar, pedir, responder, oferecer, explicar, informar são os mais comuns nesse contexto. A estrutura básica é: sujeito + verbo + lhes + complemento. Exemplo direto: "Eu disse a verdade aos alunos" vira "Eu lhes disse a verdade." O "lhes" substitui "aos alunos", que é o objeto indireto marcado por "a".

O erro mais frequente que eu vejo em revisões de texto é o uso de lhes no lugar de os/AS. Se o verbo tem regência direta — "encontrar, ver, chamar, visitar" — você não usa lhes. "Eu os vi" não se torna "eu lhes vi". A regência define tudo. Verbos transitivos indiretos pedem lhes; transitivos diretos pedem os/as.

Regência verbal: o detalhe que a maioria esquece

Aqui está onde a coisa fica interessante na prática. Muitos falantes nativos têm intuição sobre "lhe" no singular mas travam no plural porque a lógica parece se quebrar. Na verdade, a lógica é idêntica — apenas o número muda. "Eu disse a ela" = "Eu lhe disse." "Eu disse a eles" = "Eu lhes disse." A equivalência é direta.

Mas atenção para um caso que quase ninguém explica direito: verbos que podem ser both transitivos diretos e indiretos dependendo do sentido. O verbo "assistir" é o clássico. "Assistir ao jogo" (sentido de ver) é regência direta — "Eu o assisti" (não "eu lhe assisti"). Já "assistir alguém" (sentido de prestar assistência) é indireto — "Eu lhes assisti" está correto. Eu perdi duas horas numa revisão editorial num contrato justamente por causa dessa ambiguidade com "assistir". O cliente tinha escrito "lhes assistimos aos serviços" e eu precisei rastrear se o sentido era prestamos assistência ou vemos. Pelo contexto da cláusula, era o segundo caso, então corrigi para "assistimos aos serviços" sem pronome, que soa mais natural em português brasileiro mesmo assim.

Uso no português brasileiro versus português de Portugal

Essa é uma diferença importante que afeta diretamente quando você deve (ou não) usar lhes. No português do Brasil, especialmente na fala e em textos menos formais, é muito comum evitar o pronome "lhes" e usar construções como "para eles", "com eles", ou repetir o substantivo. Em textos formais, jurídicos, acadêmicos e literários, o uso de "lhes" permanece como norma padrão. No português de Portugal, o uso de "lhes" é muito mais frequente e natural em todos os registros. Um falante brasileiro que escreve para público português precisa estar atento a isso — o que pode soar artificial ou arcaico no Brasil soa perfeitamente correto em Lisboa.

Outro ponto prático: em contextos formais escritos, lhes também aparece como parte de locuções pronominais mais elaboradas. "Não lhes escape o detalhe" é uma estrutura impessoal com pronome que muita gente evita mas que é completamente adequada em textos técnicos e normativos.

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Posição do pronome e questões de concordância

O pronome lhes se posiciona de acordo com as mesmas regras dos demais pronomes oblíquos átonos: após o verbo quando não há palavra atrativa antes, antes do verbo quando há negação, infinitivo flexionado, gerúndio ou certas conjunções. Exemplos: "Não lhes entreguei os documentos." (negativo atrai o pronome)

"Entreguei-lhes os documentos." (sem atrativo, pronome após o verbo) "Aguardo que lhes seja enviada a confirmação." (conjuntivo atrai)

Um detalhe que poucos mencionam: com o infinitivo, a gramática normativa permite flexionar ou não, e isso muda a posição do pronome. "Para lhes explicar" vs. "para explicar-lhes". Ambas estão corretas, mas a primeira é mais comum em português brasileiro e a segunda é mais usual em português europeu e em textos formais. Se você está revisando um documento para publicação, escolha uma e mantenha consistência. Eu costumo a forma com pronome depois do infinitivo em textos formais porque soa mais preciso, mas isso depende do padrão da sua publicação.

Pegadinhas avançadas que confundem até gramáticos

A primeira pegadinha é a confusão entre lhes e nelas. "Lhes" é objeto indireto (a eles). "Nelas" é complementado preposicional com sentido locativo ou de referência. "Enviei o relatório a elas" = "Eu lhes enviei o relatório." Mas "O relatório fala sobre elas" = "O relatório fala nelas." O pronome muda porque a preposição e a função sintática são diferentes. A segunda pegadinha, mais sutil, envolve verbos como custar, parecer, ocorrer em construções impessoais. "Custou-lhes aceitar a notícia." Nesse caso, lhes não é objeto indireto no sentido tradicional — é um sujeito indireto numa construção impessoal. A gramática tradicional trata isso como objeto indireto, mas sintaticamente é diferente. Na prática, o resultado é o mesmo: se o referente é plural e a regência pede "a", usa-se lhes.

Existe ainda o caso dos verbos que exigem "a" mas não permitem a substituição por "lhes" porque o complemento é coisa, não pessoa. "Refiro-me a este ponto" não se transforma em "refiro-me-lhe" quando o referente é plural neutro — você usaria "a esses pontos" sem pronome, ou reestruturaria a frase. O pronome lhes só se aplica a referentes pessoais.

Resumo prático para aplicar agora

Para decidir se usa lhes, faça três verificações em sequência. Primeiro: o verbo pede complemento com preposição "a"? Se a resposta for não, descarte "lhes". Segundo: o referente é plural e pessoal? Se for singular ou coisa, também descarte. Terceiro: há alguma palavra atrativa antes do verbo que determine a posição do pronome? Negativo, infinitivo, conjunção — isso define se o "lhes" vai antes ou depois. Se as três respostas forem sim, o uso está correto. A maior parte dos erros acontece porque as pessoas pulam a primeira verificação — confundem regência direta com indireta. Um cheque rápido de regência verbal resolve oito em dez casos problemáticos.

Para consulta rápida de regência, a Nova Gramática do Português Contemporâneo do Celso Cunha e Lindley Cintra continua sendo a referência mais confiável. A Gramática Holística da Língua Portuguesa do Evanildo Bechara também traz tabelas de regência organizadas por verbo que economizam bastante tempo em revisões.