Geralt de Rivia e o universo que o rodeia
O projeto de Andrzej Sapkowski começou como contos publicados na revista Fantastica durante os anos 80, na Polónia. O primeiro volume, chamado A Última Desejo, saiu em 1993. A coisa cresceu depois para os cinco romances que formam o que chamamos hoje de saga de geralt de rivia. A sequência cronológica correta é bem diferente da ordem de publicação, o que já confundiu muita gente. A ordem cronológica dos eventos dentro da narrativa é: Sangue de Elfos, A Espada do Destino, A Última Desejo, O Tempo do Desprezo, Batismo no Sangue, A Torre da Andorinha e O Rei das Pesadelos. Se você ler na ordem de publicação original, sente que as coisas não se encaixam direito nos primeiros volumes porque os romances assumem familiaridade do leitor com os contos.
A saga de geralt de rivia para quem quer entrar no assunto sem perder tempo
Aqui vai o caminho mais direto que eu encontrei ao longo dos anos. Comece pelos cinco primeiros livros na ordem cronológica acima. Os dois últimos, Torre da Andorinha e Rei dos Pesadelos, são continuação direta e pressupõem que você já conhece toda a trilha dos personagens. Não adianta pular para eles. Eu li a série inteira pela primeira vez em 2007, num período de cerca de três semanas. O que mais me pegou de surpresa na primeira vez foi perceber que as regras de magia e de mutação dos bruxos não são consistentes do jeito que a mídia posterior apresentou. Sapkowski trabalha com uma lógica interna que funciona dentro dos livros mas que se perde completamente nas adaptações. A mutação do sinal, por exemplo, nos livros tem consequências muito mais sombrias do que qualquer jogo mostrou.
Uma questão prática que muita gente não percebe: a tradução brasileira dos livros, feita pela editora Arqueiro, tem variações de nome entre edições. "Vespula" versus "Vesemir", "Yennefer" versus "Yenifer". Se você for acompanhar discussões online ou fã-clubes, essa inconsistência gera confusão desnecessária. Eu recomendo usar a versão mais recente da Arqueiro, que padronizou os nomes em 2018. O que os livros fazem de diferente em relação aos jogos da CD Projekt Red é o tratamento dado às escolhas morais. Nos jogos, o sistema de diálogo com barras de sim/não cria a ilusão de agência. Nos livros, Geralt simplesmente toma decisões e vive com elas, sem nenhuma interface que sugere que o jogador poderia ter feito diferente. A narrativa dos livros é mais cruamente deterministicista do que qualquer adaptação reconhece.
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Um detalhe técnico importante sobre os livros: Sapkowski escreve em polonês e usa uma estrutura narrativa que depende muito de ironia e de referências à mitologia eslava. Quando você lê em português, parte desse humor seco some. A tradutora Patricia Chiamenti faz um trabalho competente mas não reproduz o tom original. Isso não torna a leitura ruim, só significa que o resultado final é um pouco mais sério do que o autor pretendia. Se você quiser ir além dos livros, a CD Projekt Red produziu três jogos entre 2007 e 2015. O primeiro jogo, lançado em 2007, é tecnicamente inferior aos dois seguintes mas possui uma qualidade narrativa que muitos fãs consideram subestimada. O segundo, The Witcher 2: Assassins of Kings, melhora significativamente a jogabilidade. O terceiro, The Witcher 3: Wild Hunt, é o mais conhecido e o mais polido. Cada um deles adaptou elementos dos livros de formas diferentes, e às vezes contraditórias entre si.
Um problema real que eu enfrentei ao tentar organizar minha coleta dos livros foi encontrar edições de cabeçalho diferentes. A primeira edição brasileira dos contos curtos foi publicada pela HarperCollins e depois migrada para a editora Arqueiro. Os romances seguiram caminhos separados inicialmente. Hoje em dia, praticamente tudo está unificado sob a Arqueiro, mas ainda circula muita gente com edições misturadas de editoras diferentes, o que gera problemas de diagramação e qualidade de impressão que valem a pena verificar antes de comprar usado. A série de televisão da Netflix adaptou principalmente O Tempo do Desprezo e Batismo no Sangue, mas com mudanças significativas na caracterização de personagens como Yennefer, que recebe um arco de origem expandido que não existe nos livros. A terceira temporada cobriu eventos de A Torre da Andorinha. Se o seu interesse é compreender a história original, os livros são obrigatórios. A série é entretenimento válido mas não é material de referência para a mitologia.
O mundo criado por Sapkowski tem uma rigidez sociológica que poucos autores de fantasia contemporânea conseguem manter. Os conflitos entre humanos e não-humanos, elfos e humanoids, não são resolvidos com diplomacia fácil. A narrativa trata racismo, colonialismo e limpeza étnica como temas centrais sem ever oferecer soluções simplistas. Isso pode ser desconfortável para quem busca fantasia escapista mas é exatamente o que diferencia o material original de grande parte do gênero. Para quem quer apenas uma recomendação direta: leia os cinco primeiros livros em ordem cronológica, depois decida se os dois romances finais valem o investimento. A série de jogos é complementar, não substituta. A adaptação da Netflix é entretenimento autônomo. A franquia como um todo é maior do que qualquer uma de suas partes isoladas, e entender isso economiza bastante frustração.